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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Sócrates e a modernidade

O Sócrates a que me refiro não é o ateniense, mas também não é exactamente o Sr. Engº José Sócrates, actual Primeiro-Ministro da República Portuguesa. Este Sócrates do título é antes a personificação duma mentalidade, representada no Governo pelo referido, mas também e por várias outras figuras; e manifesta do mesmo modo nas empresas, nas instituições, nos media.
«Sócrates», neste texto, não é um filósofo, um político, um homem de carne como nós: é o ar do tempo, o consenso geral que, como escreve aqui Nuno Brederode Santos, «eterniza o efémero».

E que efémero é esse? Há dias, ia eu escutando a Antena Dois, ouvi alguém dizer que os românticos só ouviam e tocavam os românticos. A maior parte do Século XIX ignorou largamente Bach e ignorou de todo Vivaldi. Para os românticos, o Barroco não era o lugar de onde vinham: era um não-lugar, algo de que não queriam ser lembrados, uma aberração do gosto e da moral à qual nem no passado reconheciam existência.

Ora acontece, a propósito de românticos, que ando a reler «Os Maias», que tem o pertinente subtítulo «Episódios da Vida Romântica». E de facto: nos salões descritos por Eça toca-se Beethoven, Mendelssohn, Mozart e sobretudo Chopin; mas não se tocam os barrocos, nem nenhum compositor que não reflicta a sensibilidade romântica. A única referência que no romance se faz a Bach, por exemplo, ocorre numa conversa em Sintra entre Carlos da Maia, que não é um romântico, e o maestro Cruges, que também o não é. A atitude prevalecente entre as personagens de Eça em relação ao passado que para elas era recente - ao Padre António Vieira, a D. João V, aos Séculos XVII e XVIII - é um desdém condescendente: tudo o que não seja oitocentista é primitivo, atrasado, fora de moda, ridículo.


O Século XIX vivia prisioneiro da sua contemporaneidade. Não se distinguia, nesta particularidade, da quase totalidade da História humana. O Romantismo reverenciava o passado, é certo - mas um passado mítico, remoto, sem solução de continuidade com o presente. O passado vivo, imediato, activo, é uma descoberta da modernidade. E é moderna, por excelência, a ideia - expressa independentemente por Carlyle e por Emerson - que vivemos entre duas eternidades. O presente, para os modernos, não é mais do que a ténue fronteira que separa o passado do futuro que radica nele.

Não nos surpreende, hoje, que a modernidade tenha redescoberto Bach e Vivaldi, nem nos surpreende que o modernismo deplore a desagregação do tempo: não é tanto contra o passado
que se afirma o espírito moderno, mas sim, em larga medida, contra a estreiteza da contemporaneidade e a «eternização do efémero».

Nuno Crato, um homem da modernidade e da Ciência, insurge-se na sua crítica ao «eduquês» contra a «pedagogia romântica e construtivista». Tem razão. Como têm razão, de um modo geral, os críticos do Zeitgeist que verberam a superficialidade e as superstições que são hoje a moda e a regra. Os espertos, os pós-modernos, os apóstolos da eficácia intransitiva, bem podem contra-atacar e remeter os seus críticos para a arcaica condição de selvagens reaccionários, mas erram o alvo: arcaicos e reaccionários são eles.

E assim podemos olhar com sereno desdém para José Sócrates, para Maria de Lurdes Rodrigues, para a caterva de economistas e políticos, gestores e yuppies, comentadores e jornalistas, pedagogos e assistentes sociais, gurus neoliberais e moralistas politicamente correctos, filósofos pós-modernos e burocratas da História; para todos aqueles que de um modo ou outro pretendem definir para nós, à nossa revelia, o nosso tempo; para os nossos contemporâneos que vivem entalados entre um passado que desconhecem e desprezam, a jusante, e a montante um futuro que não concebem a não ser como «mais do mesmo». Todos estes são nossos contemporâneos; são, especialmente, contemporâneos uns dos outros; modernos como eu, e como os meus dilectos leitores, é que não são de certeza.

(Revisto e re-escrito em 01/01/08 às 23:00)

domingo, 30 de dezembro de 2007

Eça de Queiroz e o BCP

Tenho andado com o projecto de deixar de ler durante uns bons meses e começar a reler. Dei início a este projecto com «Os Maias» e em boa hora o fiz, porque encontrei logo na página 127 a maneira de me pronunciar (tardiamente embora) sobre um assunto que imperdoavelmente desleixei: a crise, ou a sucessão de crises (não sei bem) no BCP.
Não houve autor de blogues que não postasse sobre isto: só eu, não. Isto, é certo, por ignorância; mas se a ignorância não foi desculpa para tantos outros, porque haveria de ser para mim? Deste remorso, a que me condenava a minha negligência, veio salvar-me o velho Eça com estas palavras aladas:

Mas o marquês, a isto, lançou-se em considerações pesadas. Estimava que o Ega se atirasse; e via aí um facto de represália social, por o Cohen ser judeu e banqueiro. Em geral não gostava de judeus; mas nada lhe ofendia tanto o gosto e a razão como a espécie banqueiro. Compreendia o salteador de clavina, num pinheiral; admitia o comunista, arriscando a pele sobre uma barricada. Mas os argentários, os Fulanos e C.ª faziam-no encavacar... E achava que destruir-lhes a paz doméstica era acto meritório!

Cá estava, pela pena de Eça, o meu comentário! Na elite do capital financeiro português há-de haver certamente, hoje como no século XIX, homens com mulheres bonitas. Isto sugere-me uma linha de acção que eu, infelizmente, por já não ter idade e não viver em Lisboa, não posso pôr em prática; mas não se arranjará por aí um novo João da Ega que semeie na nossa alta finança, num propósito ornamental e morigerador, a esplêndida floresta de cornos que ela tão extremadamente merece?

Se houver, o país agradece; e as mulheres dos nossos banqueiros mais mediáticos certamente que também.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Leitura a não perder

David Harvey mostra-nos neste livro, de modo sucinto mas bem documentado, o que o neoliberalismo é, de onde vem e para onde nos levará se não soubermos combatê-lo. No pequeno excerto que se segue encontramos exposta a tese geral do livro:

We can, therefore, interpret neoliberalization either as a utopian project to realize a theoretical design for the reorganization of international capitalism or as a political project to re-establish the conditions for capital accumulation and to restore the power of economic elites. In what follows I shall argue that the second of these objectives has in practice dominated. Neoliberalization has not been very effective in revitalizing global capital accumulation, but it has succeeded remarkably well in restoring, or in some instances (as in Russia and China) creating, the power of an economic elite. The theoretical utopianism of neoliberal argument has, I conclude, primarily worked as a system of justification and legitimation for whatever needed to be done to achieve this goal. The evidence suggests, moreover, that when neoliberal principles clash with the need to restore or sustain elite power, then the principles are either abandoned or become so twisted as to be unrecognizable. This in no way denies the power of ideas to act as a force for historical-geographical change. But it does point to a creative tension between the power of neoliberal ideas and the actual practices of neoliberalization that have transformed how global capitalism has been working over the last three decades.

É interessante que neste texto, como noutros de outros autores, comece a tomar forma a noção cada vez mais inescapável das relações entre as ideologias neoliberal e neoconservadora, bem como a relação entre estas e a etnocídio que está a ser a ocupação do Iraque.

domingo, 23 de dezembro de 2007

George Bush no banco dos réus

Neste discurso no National Press Club George McGovern interroga George W. Bush sobre a guerra no Iraque e explica porque é que o "conservador compassivo" não é nem compassivo, nem conservador.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Para que serve a escola

Desafia-me «alf», num comentário, a dizer qual é a função principal da escola. Não me parece que seja nada de transcendente: a função principal da escola é garantir que não se perde, em cada geração, o património artístico, cultural, científico, literário e técnico adquirido pelas gerações anteriores.
A escola poderá ter outras funções, desde que claramente subordinadas a esta. Se subordinar esta às outras, mais vale encerrá-la.

Recado para Maria de Lurdes

Se tratares os homens como escravos, muitos ficarão com alma de escravos. E alguns ficarão com alma de feras.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Encontrado em The Onion

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Aventuras do Zé entre os Economistas

(Revisto e aumentado às 15:10)

O Zé não é um economista. De resto nem sequer é, a bem dizer, uma pessoa real: é a personificação de um consenso, expresso numa opinião pública, representado por uma classe política, organizado num Estado...

Mas chamemos-lhe Zé. Até lhe podemos dar um aspecto físico, se quisermos: o chapéu, a barba, as bochechas vermelhuscas, as mangas arregaçadas que lhe deu o Bordalo Pinheiro.

Pois o Zé acordou, uma bela manhã, indignado. Tinha lido nos jornais e visto na televisão que há em Portugal pessoas que são pobres apesar de trabalharem, e isto não lhe parecia bem. Tanto mais que ele próprio trabalhava e, para dizer a verdade, estava longe de ter o nível de vida a que se sentia com direito. E decidiu: isto não pode continuar.

Foi para a rua, para os jornais, para o Parlamento. Falou alto, e fez-se ouvir. Ouviram-no os políticos, os sindicalistas, os magistrados. Ouviram-no os empresários e os jornalistas. E ouviram-no também os economistas, que se mantiveram calados porque são cientistas e técnicos e o assunto, por enquanto, era apenas ético e político.

Mas o Zé não se calava. Não queria, nem que chovessem picaretas, que fosse possível num país «decente» uma pessoa trabalhar e ser pobre. Decidiu: vamos aumentar o salário mínimo.

Então os economistas arrebitaram as orelhas: aquilo não podia ser, era um disparate, ia criar mais desemprego. O primeiro a quem o Zé se dirigiu quase o expulsou do gabinete:

- Nem pense nisso!

O Zé, descoroçoado, foi para casa pensar. Vexava-o o facto de o outro se ter recusado a ajudá-lo; desiludia-o que ele não lhe tivesse proposto qualquer alternativa; mas magoava-o especialmente que lhe tivesse chamado iletrado. Iletrados somos todos, ora essa. Ninguém é especialista em tudo. Se eu consulto um especialista é para ele me ajudar a chegar aonde quero, não é para ele me tentar dissuadir da viagem.

Assim pensava o Zé, com os seus botões. Mas depressa veio ao de cima o seu espírito pragmático. Economistas há muitos, reflectiu. Quem sabe se, consultando outro, a resposta será a mesma? E pôs-se a percorrer a lista: Fulano, governador dum banco central... Cicrano, jornalista económico... Beltrano, prémio Nobel...

Depressa descobriu que consenso entre as sumidades correspondia, mais coisa menos coisa, ao que lhe tinha dito o primeiro. A principal diferença é que mais nenhum lhe chamou iletrado. Pelo contrário: quanto mais eminentes eram os economistas, com mais respeito o ouviam. Respeito e atenção.

A coisa está-se a compor, pensou o Zé. E continuou à procura.

Por fim lá encontrou um ou outro com quem se conseguiu entender. Salário mínimo... hmmm... com muitas reservas, talvez... numa dose prudente... cuidado com os efeitos secundários... se o que você quer é acabar com a pobreza trabalhadora talvez haja outros remédios... mais eficazes... enfim, subsídios, prestações sociais... eu sei, são caros... é o diabo, sabe?... mas está bem, vamos lá tentar essa coisa do salário mínimo.

E assim terminou, provisoriamente, a aventura do Zé entre os economistas. Agora, anda por aí. A trabalhar, pois claro. Nem demasiado optimista, nem desesperado. Sempre aumentou o salário mínimo, embora não tanto como queria. Também vai dando aos pobres uns subsídios de desemprego, uns rendimentos de reinserção... Conheceu muitas pessoas que não conhecia antes. Académicos, intelectuais, gente com estatura e prestígio. Fez amigos e inimigos. Alguns destes, mais rancorosos, continuam a chamar-lhe iletrado. Mas ele não liga, e faz bem.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Copiado do Ladrões de Bicicletas

Há três argumentos principais que fundamentam a interferência directa do Estado na produção de bens e serviços.

O primeiro tem a ver com actividades cruciais para o desenvolvimento económico que envolvem investimentos avultados, riscos elevados e períodos de gestação longos - características que afastam os investidores privados, tipicamente motivados por lucros seguros e de curto prazo. De facto, na generalidade dos países que são hoje desenvolvidos as empresas públicas não surgiram para substituir o capitalismo mas para lançá-lo - com o Estado a assegurar os investimentos necessários à industrialização, quando o seu sucesso era ainda incerto.

O segundo argumento consiste na existência de ‘monopólios naturais’ - situações em que as condições tecnológicas fazem com que seja mais eficiente ter uma única empresa a produzir (é o caso, por exemplo, das redes de distribuição de electricidade, água, gás e caminhos-de-ferro). Nestes casos, o monopolista tem o poder de estabelecer unilateralmente os preços e outras condições de troca, o que torna recomendável que alguém controle o monopolista.

Finalmente, o Estado intervém directamente na produção quando tal é necessário para garantir a coesão social e territorial (por exemplo, se a localização de serviços postais fosse determinada por meras considerações de custo-benefício, muitas zonas periféricas tenderiam a ser excluídas).

Ler aqui o post completo com comentários

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Escolhas inevitáveis

É materialmente possível instituir um sistema de ensino sem retenções, ou quase. É materialmente possível instituir um sistema de ensino baseado na comprehensive school - a que em Portugal se deu o nome de ensino unificado. É materialmente possível instituir um sistema de ensino eficaz em termos de transmissão de conhecimentos e rigoroso na sua avaliação. E é materialmente possível combinar quaisquer duas destas três possibilidades.

O que não é materialmente possível é conjugar as três. Ao dar a impressão de que esta possibilidade existe, o governo está a mentir aos portugueses. Ao exigir dos professores que a ponham em prática, culpando-os do inevitável fracasso, o governo está a cometer uma pulhice.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Bom senso e Valter Lemos

Senso comum: os alunos ficam retidos porque não sabem.
Valter Abécula Lemos: os alunos não sabem porque ficam retidos.

Paulo Guinote no Educação do Meu Umbigo

Imprescindível este post de Paulo Guinote, do qual deixo aqui um excerto:


No entanto, parece-me que o PR terá pensado durante algum tempo - erradamente, como muitos outros e nem sempre mal-intencionados - que estava a dar os necessários instrumentos ao Governo para instituir uma cultura de rigor e mérito na Escola Pública e que isso deveria ser exemplificado pelos docentes, os primeiros modelos a ser seguidos pelos alunos.

Claro que quem anda por dentro disto sabia que essa era só uma fase inicial destinada a cortar gastos. Mérito e rigor não são conceitos muito familiares a alguns dos actores políticos que intervieram neste processo. Resultados e estatísticas, números e gráficos, talvez.

Mas até acredito que alguns ingénuos pensassem isso e não percebessem que a fase seguinte passaria por fazer pressão, por via legislativa, sobre os professores para distorcerem a avaliação dos alunos em nome do “sucesso”. Aqui no Umbigo discutiu-se isso, bastando consultar os arquivos.
Até pode ser que Cavaco Silva pensasse que, depois de sanado (?) o diferendo em torno do ECD tudo ficasse mais calmo e o ambiente nas escolas voltasse ao normal.

Errou na sua avaliação. O ambiente nas escolas é de desânimo entre a maioria dos docentes, aposentando-se muitos dos mais antigos e dedicados, enquanto outros, com hipóteses de saída para outros ambientes (sector privado, outras actividades profissionais) começam a ponderar essa hipótese, depois de terem optado pela docência há uma ou duas décadas.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Encontrado em «The Onion»

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

A má moeda expulsa a boa

Demorou, mas os governos lá acabaram por se convencer que não se cria riqueza imprimindo notas de banco. Falta agora convencê-los de que não se cria conhecimento emitindo certificados.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

A alegria de ensinar

A única antepara entre um professor e a morte é a alegria de ensinar. Tirem-lhe isso e ele morre por dentro, como as putas.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Não é preciso ensinar, basta certificar.

Para o senso comum, os professores ensinam; e um bom professor é um professor que ensina bem.
Mas o senso comum não abunda lá para as bandas do Ministério da Educação. Nem o senso comum, nem sequer a mais elementar racionalidade.

Para o governo português, ensinar não é preciso. Um bom professor não é o que ensina bem. Para se ser considerado oficialmente um bom professor, o que é preciso antes de mais é ser um bom palhaço, para manter os meninos entretidos; um bom burocrata, para preencher dentro do prazo todas as grelhas, relatórios e formulários que a tutela inventa; e é preciso ser, sobretudo, um burlão talentoso, para colaborar sem problemas de consciência nas manigâncias certificadoras com base nas quais se simula o sucesso educativo.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Se eu fosse Ministro da Educação

Não, não me estou a candidatar. Nem sequer (abrenúncio) a sonhar acordado. Chamemos-lhe uma hipótese retórica e passemos ao assunto.

Se eu fosse Ministro da educação, a primeira coisa que faria a seguir à tomada de posse seria aquilo que todos os políticos têm que fazer: identificar aliados e adversários. Faria essa identificação tendo em conta os três problemas principais do sistema a que me referi noutros posts: incivismo, burocracia, delírio pedagógico.

Para combater estes males procuraria aliar-me aos pais e aos professores, e logo aqui encontraria um obstáculo difícil: se é certo que há uma importante zona de intersecção entre os interesses dos dois grupos, também é verdade que há uma zona de contenda inevitável que resulta da dificuldade cada vez maior que as famílias têm em desempenhar cabalmente a sua função educativa e da tendência a exigir da escola que as substitua em detrimento da função específica de ensinar. Como Ministro da Educação não teria poder para influenciar, nem as condições de trabalho dos portugueses, nem os níveis salariais, nem as consequências da globalização - e portanto, não podendo eliminar esta zona de conflito entre os meus dois aliados principais, teria que a gerir. Não ficaria refém, nem das associações de pais, nem dos sindicatos de professores. Procuraria os meus interlocutores, quer no que respeita um dos grupos, quer o outro, num leque de organizações tão diversificado quanto possível. Daria atenção à representatividade sem fazer dela fetiche. Promoveria, em vez de combater, a instituição duma Ordem dos Professores.

Identificados os aliados, teria que identificar os meus adversários. Ao contrário do que têm feito os outros Ministros da Educação, elegeria como adversários principais a burocracia do meu Ministério e sobretudo a caterva de especialistas em pedagogia que o infesta. Isto, por várias razões: os recursos materiais e financeiros são escassos e fazem mais falta nas salas de aula do que nos gabinetes; o Estado não tem que ter teorias pedagógicas, tem que permitir que as escolas as tenham; e se a escola não existe para servir os professores (que em todo caso são parte constitutiva dela a título tão legítimo como os alunos), muito menos existe para servir gestores, burocratas, assessores e políticos.

Faria a vontade, temporariamente, ao Professor Nuno Crato e a todos os que exigem exames nacionais no fim de cada ciclo. Temporariamente, repito: esta seria uma medida de emergência e não uma solução definitiva. Os exames nacionais têm duas enormes desvantagens: pressupõem um currículo único pormenorizado, quando o necessário seria a coexistência de um currículo mínimo nacional com vários currículos definidos a nível local ou mesmo escola a escola; e implicam, já hoje, um verdadeiro pesadelo logístico e um enorme gasto de tempo que seria bem melhor empregue em mais aulas e mais férias. Seria necessário livrar a época de exames da obsessão securitária que a caracteriza, com duplos e triplos anonimatos, aparato policial, o diabo a quatro, com centenas ou milhares de pessoas a trabalhar por Agosto dentro a corrigir, a rever, a instruir recursos, a elaborar estatísticas, a formar e desfazer equipas, etc.

Numa segunda fase instituiria exames à entrada de cada ciclo, elaborados pelas próprias escolas de acordo com os seus próprios projectos. A partir do diferencial entre os resultados obtidos pelos alunos nestas provas e os resultados testados por amostragem no fim do ciclo seria possível fazer uma avaliação objectiva e simples da eficácia de cada escola enquanto estabelecimento de ensino.

Se eu fosse Ministro da educação exigiria às escolas que fossem estabelecimentos de ensino. Nada mais do que isto, mas também nada menos.

Instituiria quatro modelos principais de escola, e a partir destes quatro tantas variantes quantas fossem necessárias e quantas a iniciativa local fosse capaz de criar: escolas base que teriam por função principal tirar do «lumpen» as crianças que vivem nele; escolas gerais que dariam uma educação de qualidade, incluindo algumas competências profissionais de banda larga, a quem não tivesse especial vocação, capacidade ou apetência académica; escolas profissionais de altíssima qualidade, das quais os alunos saíssem realmente preparados (e não só formalmente) para o exercício duma profissão, sem prejuízo de poderem prosseguir estudos superiores de cariz técnico; e liceus (não tenhamos medo das palavras) orientados para o prosseguimento de estudos superiores nas Ciências, nas Humanidades e nas Artes.

Instituiria mecanismos de migração entre estes modelos de escola, de modo a que fosse possível aos alunos passarem de um para outro conforme os seus projectos de vida se fossem definindo ou alterando e conforme as suas capacidades e talentos se fossem revelando. Um aluno que não tivesse aproveitamento num dado modelo de escola não repetiria, regra geral, o ano: frequentaria o ano seguinte numa escola mais de acordo com as suas capacidades e com os seus projectos.

Daria tudo por tudo para que os professores fossem cada vez mais uma elite social e profissional e cada vez menos uma reserva proletarizada e humilhada de «recursos humanos». Não contaria o esforço financeiro do Estado com o ensino em pontos percentuais do Orçamento de Estado, mas sim em Euros por aluno; e não me contentaria com ficar, a este respeito, ao nível da média dos outros países, porque quem parte de trás tem que andar mais depressa.

Penalizaria com multas, cortes de subsídios e até, em casos extremos, com penas de prisão os pais que não contribuíssem minimamente para melhorar o desempenho escolar dos seus filhos. Penalizaria os professores que não ensinassem ou ensinassem mal e recompensaria os que ensinassem bem, independentemente do seu desempenho nas vertentes acessórias da sua profissão (nomeadamente as de índole burocrática, administrativa, psicológica e de animação social). Penalizaria severamente os alunos que desrespeitassem o direito/dever dos outros alunos a aprender, e o direito/dever dos professores a ensinar.

Reduziria o Ministério da Educação e as Direcções Regionais a uma pequena fracção do que são hoje. Diria aos especialistas em pedagogia que arranjassem emprego nas escolas, se estas os quisessem e lhes pudessem pagar, porque não o teriam mais nos gabinetes.

Mas é claro que nunca vou ser Ministro da Educação. Nem eu, nem ninguém que faça a mais pequena ideia do que é o ensino.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Duas coisas que nunca ouvi ao vivo

A primeira vez que suspeitei da existência do Quarteto Opus 132 de Beethoven foi no fim da minha adolescência, ao ler o Contraponto de Aldous Huxley. Era tão jovem que ainda lia traduções de livros escritos originalmente em inglês, mas neste caso não perdi muito, já que a tradução era de Erico Veríssimo. No romance de Huxley, uma personagem põe a tocar na grafonola, na presença de alguns amigos, o 3º Andamento deste quarteto e exprime a sua convicção de se estar perante o mais belo trecho musical jamais composto.

Isto intrigou-me, como não podia deixar de ser; como também me intrigou, confesso, o longuíssimo e excêntrico título do andamento: Molto Adagio (Heiliger Dankgesang eines Genesenen an die Gottheit; in der lydischen Tonart) Andante (Neue Kraft fühlend) Molto Adagio (Mit innigster Empfindung).

Nesse tempo não se comprava um LP com o mesmo à vontade com que hoje se compra um CD, e passaram-se meses até que eu pudesse ouvir esta música. À primeira audição não compreendi muito bem o que é que ela tinha de assim tão especial, mas com o tempo acabei por me apaixonar e por ficar quase convencido que estava ali o culminar da arte musical de todos os tempos.

Passaram os anos e as décadas. Ouvi muita música durante esse tempo: em cassetes, em LP's, em CD's, ao vivo. A Grosse Fuge, que também faz parte do disco que vêem por cima aqui ao lado, ouvi-a pela primeira vez numa sala de concertos em Milão; mas nunca ouvi ao vivo o Opus 132. No primeiro ano de funcionamento da Casa da Música foi programada a integral dos quartetos de cordas de Beethoven e Shostakovitch, pelo mítico Quarteto Borodin: comprei a assinatura, ouvi-os todos - mas uns meses antes do último espectáculo, em que se havia de tocar o Opus 132, um dos membros do quarteto partiu um pulso e o espectáculo foi primeiro adiado e depois cancelado. Não cheguei a ouvir o Heiliger Dankgesang.

Também nunca cheguei a ouvir ao vivo o Concerto de Violino Opus 61. Espero ainda ter essa oportunidade. A Sonata «Primavera», último elemento do meu trio mágico, essa já a ouvi ao vivo; e estou a ouvi-la agora nos auscultadores enquanto componho este post, interpretada por Takako Nishizaki ao violino e Jenö Jandó ao piano. Será impressão minha, ou esta sonata é melhor que Prozac? O facto é que nunca falha: ouvi-la deixa-me sempre sereno e feliz.

E é assim: quando me perguntam pelo meu compositor preferido, hesito sempre entre Beethoven e Mozart; mas quando me perguntam pelas minhas composições preferidas, as que ponho em primeiro lugar são sempre de Beethoven. Claro que há a Flauta Mágica e o Don Giovanni de Mozart, mas para mim a ópera é teatro antes de ser música. E para vocês que me lêem como é que tudo isto funciona?

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Resultados do PISA

Os alunos portugueses com 15 anos, considerados na globalidade, têm resultados abaixo da média da OCDE. Má notícia, é claro.

Decompondo-se este universo entre os que estão e os que não estão no nível correspondente à sua idade, vê-se que os do primeiro grupo até obtêm resultados superiores à média: logo, a média é puxada para baixo pelos do segundo grupo.

Entende o Secretário de Estado que se os do segundo grupo fossem incluídos no primeiro por via do carácter excepcional da retenção, os resultados médios melhorariam. Não vejo como é que ele chega a esta conclusão: um aluno que não sabe baixa os resultados médios do conjunto, independentemente de estar retido no sétimo ano ou de estar já a frequentar o nono ou o décimo. Se não sabe, não sabe.

Atrevo-me até a especular que, a fazer-se o que exige o secretário de estado, os resultados não só não melhorariam, como haviam de piorar: a presença numa turma de um aluno que, por não acompanhar a matéria, se torna disruptivo prejudica a aprendizagem de todos os outros.

Acho bem que se reduzam as retenções, mas não enquanto estiver vigente a escola de modelo único que temos em Portugal. Se um aluno não aprendeu o suficiente no sétimo ano de escolaridade, deve passar para o oitavo - mas não para o mesmo oitavo, na mesma escola, para que transitaram os seus colegas.

Por mais que a lei queira obrigar os professores a estabelecer «estratégias de diferenciação» que obviem a necessidade de reter alunos, eles nunca o farão, e não o farão porque é materialmente impossível. Não se pode fazer de cada aluno uma turma, fazendo para cada um uma planificação diferente, uma leccionação diferente e uma avaliação diferente. Nenhum professor poderia ter a seu cargo 120 turmas unipessoais. Se se exigir diferenciação aos professores, eles vão fazê-la, sim - mas só no papel. Vão inventar um paleio qualquer para pôr nas actas e nos relatórios, e vão continuar a trabalhar como podem - isto é, e ressalvando uma ou outra diferença cosmética, como sempre fizeram.

A diferenciação não pode ser feita aluno a aluno, tem que ser feita escola a escola. Só assim será possível reduzir as retenções sem agravar ainda mais um problema que já é grave.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Vou-me repetir

Os problemas do ensino em Portugal são legião, mas a montante deles todos estão apenas três: incivismo endémico, burocracia gigantesca, pedagogia delirante.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Duas peças de música que nunca foram executadas ao vivo como está na partitura


Todos os anos, na Maia, durante as festas da Senhora do Bom Despacho, são armados dois coretos em frente à igreja, onde se exibem ao despique duas bandas (muito boas, diga-se a talhe de foice) de duas freguesias do concelho.


Uma peça que quase sempre é tocada é a "Abertura 1812" de Tschaikovsky - adaptada para banda de metais, é claro. Mas o que nem todos sabem é que as versões que ouvimos nas salas de concerto, executadas por orquestras sinfónicas, também são adaptadas, como também tem que ser adaptada a "Vitória de Wellington" de Ludwig van Beethoven.

A peça de Tschaikovsky destinava-se a ser executada em frente ao Kremlin e da sua instrumentação constava uma orquestra sinfónica completa, uma banda militar, uma bateria de canhões que dispararia dezasseis tiros, e todos os sinos das igrejas circundantes, incluindo alguns monstros de várias toneladas. A de Beethoven exigia três orquestras sinfónicas dispostas em triângulo, duas baterias de tambores e clarins, vários canhões e uma grande quantidade de mosquetes.

Nenhuma destas peças foi alguma vez ouvida ao vivo com a sua orquestração original, mas podem ser ouvidas em CD. Recomenda-se uma boa aparelhagem. Um home-cinema que toque CD's é uma possibilidade: ao ouvir a Abertura 1812 tem-se a sensação de estar rodeado por todos os sinos de Moscovo.

Também convém escolher um dia e uma hora que não incomode os vizinhos, de modo a poder pôr o som bem alto.

Para gravar este disco foram usados quatro canhões de finais do séc. XVIII pertencentes à Academia Militar de West Point, um carrilhão de 74 sinos, dos quais um pesa cerca de vinte toneladas, duas orquestras sinfónicas, sete mosquetes e uma banda militar. Os diferentes elementos foram gravados separadamente e posteriormente misturados.

O CD, comprei-o na Amazon. Boa audição!

O direito a ser avaliado

Não há nada pior nem mais desgastante para um profissional do que não saber se é bom ou mau. Numa profissão como o ensino, em que os efeitos do que fazemos só se fazem sentir, muitas vezes, anos depois, este desgaste é especialmente notório, principalmente numa cultura em que os responsáveis são avaros tanto nos elogios como nas críticas.
A pergunta que qualquer professor digno desse nome faz a si mesmo é esta: eu ensino bem, ou ensino mal? Muitos, suspeitando (às vezes sem razão) que ensinam mal, gastam o melhor do seu tempo e do seu esforço com tarefas que são acessórias mas que têm resultados imediatamente visíveis.
Para estes, vêm aí bons tempos. É com base nestas tarefas que o Governo se propõe avaliar os professores. Para os que se preocupam com os alunos e com o ensino, e gostariam de ser avaliados por esta ordem de competências, o futuro já não se afigura tão risonho.

Passatempo

Your IQ Is 125

Your Logical Intelligence is Below Average

Your Verbal Intelligence is Genius

Your Mathematical Intelligence is Genius

Your General Knowledge is Above Average

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Entrevista de Naomi Klein a Keith Olberman

"Guns beat Green: The Market Has Spoken"

"In other words, solving real problems is hard, but turning a profit from those problems is easy."

Esta frase vem quase no fim do artigo publicado ontem em The Nation por Naomi Klein. O título é o mesmo deste post. Para quem acha que os mecanismos do mercado vão resolver os problemas ambientais recomenda-se a leitura.

Espero que Maria de Lurdes Rodrigues não leia isto

Nas escolas da Europa

Nas escolas da Europa adoptam-se manuais escolares feitos de forma a que seja possível estudar por eles.
Nas escolas da Europa os manuais são fornecidos aos alunos no início do ano lectivo: se no fim do ano estiverem escritos ou danificados, há que os pagar.
Nas escolas da Europa fornecem-se os cadernos, os lápis, as borrachas, as esferográficas, os compassos; aos alunos é exigido que façam uma gestão cuidadosa do material escolar.
Nas escolas da Europa há aquecimento central.
Nas escolas da Europa o chão está sempre limpo.
Nas escolas da Europa os alunos podem (em algumas é obrigatório) andar descalços de Verão e de Inverno.
Nas escolas da Europa lêem-se os clássicos.
Nas escolas da Europa ensina-se gramática.
Nas escolas da Europa fazem-se ditados.
Nas escolas da Europa as calculadoras só são permitidas quando o objecto de estudo é o seu uso.
Nas escolas da Europa decoram-se poemas.
Nas escolas da Europa fazem-se traduções e retroversões.
Nas escolas da Europa os professores são respeitados.
Nas escolas da Europa os professores são avaliados: os que ensinam bem são bons e os que ensinam mal são maus.
Nas escolas da Europa os pais pagam multas quando os alunos faltam; em alguns países, se a infracção se repete, podem ser presos.
Nas escolas da Europa combate-se o bullying.
Nas escolas da Europa os pais respondem perante a lei pelos actos de indisciplina ou violência dos filhos.
Nas escolas da Europa há currículos diferentes para projectos de vida diferentes.
Nas escolas portuguesas redigem-se actas, elaboram-se grelhas e preenchem-se formulários. Quando as coisas correm mal redigem-se mais actas, elaboram-se mais grelhas e preenchem-se mais formulários. Os professores agora também são avaliados: se redigirem muitas actas, elaborarem muitas grelhas e preencherem muitos formulários, serão bons; se não, serão medíocres. E se para cúmulo tiverem a prepóstera veleidade de ensinar, serão considerados maus.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

É proibir, não, é permitir, não, é obrigar, não, afinal vamos lá ver se nos entendemos...

No Arte da Fuga encontrei esta pérola, assinada por um senhor que eu não conhecia chamado Adolfo Mesquita Nunes. Deixo a azul, como no original, o texto de AMN; o que está em itálico é meu.

Tenho para mim, e foi esse o sentido da minha intervenção no Grupo de Missão [do PP], que a decisão de ter um filho se inscreve num irredutível espaço de intimidade dos pais, devendo eles ser livres de escolher ou não ter um filho. Nesta medida, o Estado não é nem pode ser tido nem achado. A ele não lhe cabe aplaudir ou condenar qualquer uma destas decisões.

«Nesta medida», porquê? O Estado só intervém para limitar opções? Não é ao menos concebível que intervenha para alargar opções que se encontravam limitadas por terceiros ou pelas circunstâncias?

Por isso, não cabe ao Estado fomentar a natalidade (ou sustê-la). Cabe ao Estado, isso sim, avaliar as suas políticas no sentido de surpreender efeitos extravagantes que, de alguma forma, estejam a limitar esse espaço de liberdade dos pais.

Por isso? Que «isso» é esse? O facto de os pais deverem ser livres? Ou a proibição de o Estado se meter no assunto, quer para limitar essa liberdade, quer, presumivelmente, para a assegurar? E já agora, o que é isso de «surpreender efeitos extravagantes»?

Ora, uma rápida análise de um conjunto de políticas públicas que vão da educação às relações laborais passando pelo enquadramento fiscal permite, desde logo, concluir que o Estado tem vindo a dificultar, de forma muitas vezes sistemática e até inadvertida, a natalidade.

Factos, caro senhor, factos. Quais são exactamente as políticas educativas do Estado que dificultam a natalidade?

Que as relações laborais dificultam a natalidade, todos sabemos; mas em que práticas concretas, dificultadoras da natalidade, se concretizam essas relações? E quem são os autores destas práticas: em maior grau o Estado, ou em maior grau as empresas?


Qual é o peso do enquadramento fiscal na política de natalidade? Determinante? Negligenciável? Entre um e outro destes extremos? E neste caso, em que posição?

Mas o que mais me intriga neste parágrafo é isto: como é que uma política pode ser ao mesmo tempo sistemática e inadvertida?

Esse deve ser, por isso, o esforço do Estado no que à natalidade diz respeito, impedindo que gerar um filho seja convertido em privilégio, em vez de andar a distribuir subsídios por cada filho que nasça.

Santa paciência. Por onde é que vou pegar nesta confusão? Talvez começando por procurar o referente daquele «esse». «Esse» esforço? Qual esforço? De que esforço está o senhor a falar?

Depois diz que o Estado deve impedir que ter um filho seja um privilégio. Como? Não distribuindo subsídios. Está-se mesmo a ver, não está? Sem subsídio, ter filhos é um direito: só os tem quem quer. Com subsídio, transforma-se num privilégio: fica o país cheio de infelizes que querem ter filhos e não podem por causa do malvado do subsídio.


Não se trata de criar nos pais um qualquer direito social à natalidade, como que estando o Estado obrigado a promover todas as condições para que os pais possam ter filhos. Na realidade, tratando-se de uma decisão com tantas variáveis, que é motivada por tão diversos fundamentos, nunca poderia o Estado estar verdadeiramente apto a fazê-lo.

Nunca poderia o Estado estar verdadeiramente apto a fazer o quê, exactamente? A promover todas as condições para que os pais possam ter filhos? O homem aqui parece quase racional. Mas se o Estado não está apto a promover todas, que tal promover algumas?

Mas ainda que estivesse, e não está, os pais não são titulares de um direito social à família. São, isso sim, detentores de uma essencial liberdade de constituir família, segundo o suporte que entenderem, sendo de todo em todo intoleráveis ou ilegítimas todas as políticas que resultem numa limitação dessa liberdade.

São de todo intoleráveis as políticas que resultam numa limitação da liberdade de constituir família. Muito bem. Mas pelos vistos já são toleráveis as práticas de terceiros que limitem essa liberdade: só assim se compreende que constituir família não seja um «direito social».

Tudo isto é muito triste e muito pobre. No palco em que AMN vê o seu Teatro do Mundo só cabem dois actores: o indivíduo desejoso de liberdade e o Estado desejoso de lha tirar. Tudo o resto está ausente: não há colectivos fora do Estado. Não há empresas, nem igrejas, nem seitas, nem quadrilhas de ladrões, nem instituições de beneficiência, nem partidos políticos, nem clubes de futebol.

Nada. Não há nada. Nem sequer há indivíduos com poder sobre os outros. Neste universo paralelo só o Estado ameaça a liberdade. Vistas assim as coisas, é claro que a lei nunca liberta: quanto menos Estado, melhor.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

O Caminho para a Servidão

À medida que avança, o projecto vai ganhando contornos nítidos. No topo, os Senhores: uma aristocracia de empresários e políticos. Imediatamente abaixo virão os escudeiros: a aristocracia menor dos gestores e dos jornalistas.

Tudo o resto está destinado a ser plebe.

O problema, para os candidatos a Senhores, é que nesta massa imensa se incluem pessoas capazes, por formação cultural e conhecimento técnico, de lhes fazer frente e perturbar a ordem neo-feudal que pretendem construir. Não admira, portanto, que o esforço principal desta guerra se dirija de momento contra as «corporações»: trata-se de proletarizar primeiro, e de submeter a seguir, os juízes, os médicos, os professores, os técnicos - em suma, destruir a classe média e desarmar a sociedade civil.

Veja o leitor por si mesmo, atendendo ao que está a acontecer na sua profissão, se não é isto que se está a passar. E não só em Portugal: a nova Idade Média vai caindo sobre o mundo inteiro como um crepúsculo da democracia.

Como poderemos defender-nos? No ancien régime houve corporações que usaram como arma os conhecimentos técnicos de que dispunham e de que os Senhores necessitavam. Fizeram segredo dos seus saberes e organizaram-se em associações clandestinas, as quais com o tempo tempo vieram a dar origem às maçonarias. Receio bem que de futuro venha a ser esta a nossa única opção, se não conseguirmos agora derrotar a oligarquia.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O que todos devíamos saber de cor

Não mais, musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho,
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.

Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, Canto X

«Perdi os professores, mas tenho a população»

(Maria de Lurdes Rodrigues)

Primeiro: em democracia não há população, há cidadãos.
Segundo: também já está a perder os cidadãos.

domingo, 25 de novembro de 2007

Ser «anti-eduquês» e ser de esquerda

Perguntaram-me há tempos como podia eu subscrever as teses educativas «reaccionárias» de Nuno Crato, Maria Filomena Mónica, Carlos Fiolhais e outros, ao mesmo tempo que critico insistentemente neste blogue a direita neoliberal.

Esta crítica pôs-me a pensar. Estaria eu a ser reaccionário em matéria educativa quando em matéria moral e política sou aquilo que se pode designar por libertário de esquerda? Tanto tempo demorei a pensar nisto que acabei por perder o rasto do meu crítico e agora não lhe posso responder directamente.

Como ponto prévio direi que não sei, nem me interessa, se as pessoas acima mencionadas são «reaccionárias» ou «progressistas». De todos eles, só conheço pessoalmente o Nuno Crato, e mesmo assim superficialmente. De Maria Filomena Mónica, creio ter lido numa entrevista qualquer que não se considera de direita - e o que uma pessoa pensa de si mesma deve, parece-me, ser levado a sério. Carlos Fiolhais defende a racionalidade contra a superstição - e isto, para mim, é uma posição progressista independentemente de quaisquer opções partidárias, que no caso dele não sei quais são.

Mas isto, repito, não vem ao caso. O que vem ao caso é saber quem define e executa as políticas educativas, e no interesse de quem.

Não ignoro que uma certa esquerda tontinha e politicamente correcta tem graves responsabilidades no delírio educativo que rege as políticas do nosso Ministério da Educação; mas daqui a considerar que estas políticas são de esquerda vai um passo que não estou disposto a dar. A esquerda tontinha parece dominar as políticas educativas porque se deixou acantonar nelas, mas quem a pôs de quarentena nas escolas foi a oligarquia, que não é nem ingénua, nem de esquerda. Se as esquerda tontinha não quer exigência no ensino público (porque cria «desigualdades»), a direita oligárquica também não a quer porque cria mecanismos de mobilidade social ascendente; e quem já está no topo não quer competição.

A esquerda quer uma escola que transmita »atitudes» e «valores»; e a direita reaccionária, encantada, concorda entusiasticamente: o que é preciso é que a escola não transmita à plebe ideias perigosas sobre o seu lugar no esquema das coisas, nem conhecimentos que possam ser convertidos em liberdade ou poder.

A sociedade ideal, para mim, seria aquela em que competisse às instituições conservar e às pessoas inovar (o inferno é, muito provavelmente, o inverso). À escola, instituição vocacionada para fazer a ponte entre o passado e o futuro, competiria ser conservadora sem ser totalitária. Mas o que acontece é o contrário: a escola que o poder político nos impõe é totalitária - no sentido em que se arroga o direito de intervir na globalidade da pessoa - mas não procura conservar o património cultural, científico, artístico, literário e simbólico sem o qual nenhuma sociedade pode evoluir ou sequer sobreviver.

De todas as instituições públicas portuguesas, a escola é provavelmente aquela em que se encontrou o modus vivendi mais confortável entre a esquerda inócua e a direita eficaz. Desta promiscuidade resultam, para quem está de fora, três equívocos sobre a actual Ministra: a de que Maria de Lurdes Rodrigues está contra o «eduquês» quando na realidade tem o «eduquês» na massa do sangue; que está com o progresso e com a inovação, quando na realidade está com a encenação vazia destes valores; e que está com a «população» contra os professores, quando na realidade está com a oligarquia contra o ensino.

Que sobre estes equívocos assente ainda hoje uma imagem democrática das escolas é a mais amarga das ironias.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Propriedade pública, propriedade privada e domínio feudal no Portugal do Séc. XXI: a REN, a Lusoponte e a Estradas de Portugal

Estaremos a assistir a um processo de refeudalização na política e na economia em Portugal? A esta pergunta de Manuel Alegre tenho várias vezes respondido "sim", tanto neste blogue como no extinto Leviathan.

Num tempo em que muito do debate político se centra na contraposição entre propriedade privada e propriedade pública - como se ainda estivéssemos no tempo e nas circunstâncias de Adam Smith - esta questão tende a ficar fora do campo de observação. É pena, porque do ponto de vista da cidadania, da liberdade e da prosperidade individual o que condiciona as nossas vidas é cada vez menos a questão da propriedade, seja ela estatal ou privada, e cada vez mais a questão do domínio, por parte de entidades privadas ou públicas subtraídas à soberania do Estado, sobre as vidas individuais e sobre o espaço público.

Quando a REN invade, em contravenção aos tribunais e sob a protecção duma força militarizada do Estado, a propriedade dum cidadão, pouco interessa saber se os seus capitais são privados ou estatais: o comportamento da empresa seria o mesmo em ambos os casos. Quando a EP se transforma numa SA, pouco interessa saber se com isto se prepara ou não a sua privatização: mesmo que o capital continue a ser público, o facto é que a empresa já se subtraiu à jurisdição pública.

A Lusoponte não é proprietária do troço inferior do Tejo, mas não precisa de o ser para condicionar o direito dos cidadãos (cada vez menos cidadãos e cada vez mais súbditos) a atravessar o rio. Nem precisa de ser proprietária das pontes: o seu domínio exerce-se em relação a todos os atravessamentos construídos ou a construir, sejam eles propriedade sua, de outros privados, ou do Estado. Não precisa da propriedade, basta-lhe ter o domínio; e este foi-lhe outorgado pelo Governo, em representação do povo soberano, com a mesma largueza com que um monarca medieval distribuía condados.

Este fenómeno não é exclusivamente português. Se olharmos para os EUA, para a Halliburton, para a Blackwater, para a guerra privada, para as indústrias da segurança, teremos a sensação de estar perante uma ordem cada vez menos capitalista e cada vez mais feudal.

Na Europa, a apropriação do espaço político por uma oligarquia hermética, centrada cada vez mais na administração dos seus feudos e cada vez menos no interesse público, produz a mesma sensação. No Médio Oriente, no Norte de África, as sociedades só não se refeudalizam porque nunca deixaram de ser feudais. Na Rússia, a mesma coisa. Assim como no Paquistão, no Afeganistão, na América Latina com os seus regimes de compadres e coronéis.

Olho para os nossos media e para os blogues da direita; vejo-os a repetir ad nauseam o elogio da propriedade privada e a demonização da propriedade pública, sem se aperceberem que o que está em causa é a propriedade tout court; e fico com a sensação de que estamos todos a discutir o sexo dos anjos com o inimigo às portas da cidade.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Navegações

Navegando ao acaso, deparei-me com quatro blogues interessantes: o Cyberdemocracia de J. Francisco Saraiva de Sousa, o Kontrastes de João Ferreira Dias, o Ma-schamba de José Pimentel Teixeira e o Navegador Solitário de «agry».
Estão os quatro na minha lista de hiperligações.

O Eclipse da Democracia

Escreve J. Francisco Saraiva de Sousa no seu blogue:

Desde a queda do Muro de Berlim, as democracias ocidentais estão a converter-se em oligarquias, dominadas por novas classes políticas que, através de partidos de poder pouco transparentes e profundamente corruptos, açambarcam o poder político, de modo a garantir a salvaguarda dos seus «direitos adquiridos» e dos seus interesses privados, em detrimento dos interesses gerais do povo. Elas governam burocraticamente, abusando de uma linguagem técnica, recheada de estatísticas abusivas e falsas. Manipulam indecentemente o eleitorado e a «opinião pública» e comportam-se como «ordens feudais». O sistema político refeudalizado fecha-se em si mesmo, ignorando e desprezando o seu exterior, como se este fosse uma massa amorfa que pode ser facilmente moldada e manipulada, com a ajuda dos meios de comunicação social.

(Ler texto completo aqui)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Encadeado

O Igor d'O Reino dos Fins fez-me esta proposta:

1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica aleatoriedade, não tente escolher o livro;
2. Abra o livro na página 161;
3. Na referida página procurar a 5.ª frase completa;
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada;
5. Aumentar, de forma exponencial, a improdutividade, fazendo passar o desafio a mais 5 bloggers à escolha.

Faço um pouco de batota: transcrevo não só a quinta frase, mas também a sexta. O livro é Smoke and Mirrors de Neil Gaiman. A(s) frase(s) seria(m):

We just have to tell our bodies to go and recheck the RNA and the DNA - reread the program if you will. And then reboot.


Passo o desafio a:

Catarina do Já Tocou?
Helena do 2 Dedos de Conversa
Lutz do Quase em Português
Nuno Castro d'O Blogue Qualquer
ON do Prozacland

(Já agora: se em vez do livro mais à mão me tivesse sido pedido o meu livro favorito, a frase seria "Pinch him!" e o livro Alice's Adventures in Wonderland de Lewis Carroll).

sábado, 17 de novembro de 2007

The Science of Discworld: uma trilogia

As relações entre a Ciência e a Magia, ou entre a Ciência e a fantasia, sempre me fascinaram. Não é só a famosa boutade de Arthur C. Clarke segundo a qual toda a tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia: é também, por exemplo, o programa de escrita de Isaac Asimov que lhe exigia um conhecimento científico suficiente para que em cada história se admitisse uma e só uma violação das leis da natureza tais como são conhecidas à data. Enquanto se pensou que Mercúrio tinha sempre a mesma face voltada para o Sol era perfeitamente admissível escrever uma história que partisse desse princípio, mas não depois de se ter descoberto que assim não era; e era possível basear uma história na possibilidade de uma nave espacial se deslocar a uma velocidade múltipla da da luz desde que na mesma história não entrassem transmissores de matéria.

Pelo critério de Asimov, a série Star Trek não seria admissível: haveria que escolher entre a warp drive da nave Entreprise e o beam me up, Scotty, do capitão Kirk, mas no mundo de Asimov era proibido utilizar ambas as coisas.

Claro que a Space Opera sempre se esteve nas tintas para estas restrições. Esta liberdade permitia aos seus autores exibir uma ignorância científica muitas vezes cómica.

Até que Terry Pratchett entra em cena. Em vez de admitir uma impossibilidade cientifica em cada história, como Asimov (ou nenhuma, como Arthur C. Clarke), Pratchett compraz-se em inventar um mundo em que nenhuma lei da natureza, tal como as conhecemos, se aplica, mas que apesar disto seja tão coerente quanto a imaginação prodigiosa do autor, aliada a uma considerável cultura científica, o permita.

Pratchett estipula um mundo em forma de disco, assente sobre quatro gigantescos elefantes que por sua vez estão de pé sobre a carapaça duma tartaruga de dimensões planetárias.

Como explicar que neste mundo haja anos e dias, Verão e Inverno, aurora, meio-dia, crepúsculo e noite, diferenças climáticas entre os vários continentes? Pratchett entrega-se a estas explicações com visível prazer: a velocidade da luz, por exemplo, é aqui mais ou menos a mesma que o som; a partícula básica constituinte do Universo não é o átomo, mas o «thaum» (palavra da família de «taumaturgia»: a unidade de magia mais pequena possível). No Departamento de Taumaturgia Aplicada da Universidade de Ankh-Morpork há um grupo de jovens investigadores dedica-se provocar a fissão do thaum e cria por acidente um universo auto-contido (numa esfera de vidro com o tamanho exterior aproximado duma bola de futebol e dimensões interiores muito maiores) em que as pessoas e as coisas ocupam, sem cair, a superfície de mundos esféricos.

Para além desta série de romances, Terry Pratchett foi co-autor, com Ian Stewart e Jack Cohen (um é biólogo e o outro, salvo erro é um químico), duma trilogia de divulgação científica: The Science of Discworld, The Science of Discworld II: The Globe e The Science of Discworld III: Darwin's Watch.

Vale a pena ler.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Monstros, burocratas, pensadores e dandies

Hannah Arendt escreveu algures que não há monstros, há burocratas. A frase, assim lapidar e concisa, e fora de contexto, poderia ser vista como uma mera boutade, não a tivesse a autora desenvolvido, matizado e qualificado em quase tudo o que escreveu.

Como, não há monstros? E então Hitler? E então Estaline? E então Cheney e Rumsfeld? Mas Hannah Arendt tem razão. Pudéssemos nós entrar na alma destes homens, talvez deparássemos nela com o Mal. Ou talvez deparássemos apenas com um enorme vazio. Mas não podemos: nem na deles, nem da dum qualquer serial killer que visto de dentro talvez fosse mais monstruoso, ou menos, do que qualquer tirano - mas que nós só podemos ver de fora.

Não sei o que faria o lojista da esquina, que há décadas remói a sua zanga com o mundo, se as peripécias da História lhe tivessem dado o poder sobre milhões de seres humanos - mas não deram.

Aonde eu quero chegar com isto é que talvez haja monstros, mas se os há, pouco interessa, porque o que de monstruoso acontece talvez acontecesse sem eles. Os tiranos que conhecemos não teriam passado de homenzinhos amargos e insignificantes sem as burocracias que os rodearam. Eichmann nunca compreendeu o que tinha feito de mal: sempre se limitara a fazer o seu trabalho, das nove às cinco; a guerra não lhe dizia nada; irritava-se quando lhe tiravam os guardas dos campos de concentração para os enviarem para a frente de combate.

Sim, mas... só burocratas? As redes de que dependem os tiranos são feitas só de burocratas? Em sentido restrito, no sentido de gente cinzenta e conformista, é claro que não. Todos os tiranos tiveram os seus intelectuais e os seus propagandistas - gente por vezes bem original e vistosa: os filósofos do romantismo tardio alemão, os teóricos do marxismo, os poetas do modernismo que se extasiaram com Mussolini. Goebbels e Leni Riefenstahl.

Mais próximos de nós, também Thatcher, Pinochet, Cheney e Rumsfeld se apoiaram em Hayek, em Fukuyama, no laureado Milton Friedman... Por trás de cada monstro (que, repito, talvez não seja um monstro) há quase sempre um pensador.

Mas só isto não basta. Os pensadores são poucos. Os divulgadores ajudam a fazer número, mas ainda assim não são suficientes. Mesmo os burocratas, numerosos como são, não chegam para perfazer uma maioria. É aqui que entram os dandies: a multidão daqueles para quem o que conta, sobretudo, é serem do seu tempo. Estarem à moda. Estarem com o que "está a dar".

Houve os dandies do comunismo, houve os dandies do fascismo: hoje há os dandies do neoliberalismo. Estão com o que está. Desdenham o passado e acreditam que o futuro é propriedade sua. Revêem-se na modernidade, como já na modernidade se reviam, há cem anos, os seus antecessores. Não sabem nada. Abundam nos quadros das empresas e dos partidos. Alguns dizem-se socialistas. Alguns são Primeiros-Ministros.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

António Marinho e Pinto, As Faces da Justiça

Deixo aqui, um pouco ao calha, um excerto do livro:


Pessoalmente, sempre tive muitas reservas em relação ao termo "terrorista", quer como pessoa, quer como advogado, quer sobretudo como jornalista. Se há coisa que muda com o tempo e/ou com as conveniências políticas é esse qualificativo. Nefandos "terroristas" de há alguns anos são hoje respeitáveis chefes de estado ou honradas figuras da cena internacional [...].

Por outro lado, heróicos combatentes e honrosos aliados de há algum tempo atrás são hoje hediondos terroristas (veja-se o caso mais paradigmático de todos que é Osama Bin Laden).


No entanto, é em relação aos "terroristas" que a questão dos direitos humanos se põe de forma crua e dura. Então um "terrorista" que põe uma bomba e mata dezenas ou centenas ou milhares de pessoas tem o direito de exigir que lhe reconheçam direitos que ele tão ignobilmente desprezou? Terá ele direito às prerrogativas pessoais de qualquer arguido - ao silêncio, a um defensor, a tratamentos que não o degradem na sua condição de pessoa humana e que respeitem a sua integridade física e moral, etc., etc.? Terá ele direito a um advogado pago pelo Estado que ele tão covardemente atacou? Pago, afinal, pelos dinheiros dos contribuintes, incluindo os impostos das vítimas que ele causou ou dos seus familiares?


Às vezes até me arrepio (porque me lembro: e se fosse comigo?), mas a resposta só pode ser uma: sim. Aqui reside a grandeza moral [...] dos Estados sobre os bandos, das democracias sobre as tiranias, da legalidade sobre o arbítrio, do direito sobre a força, da justiça sobre a vingança. Quando eu algum dia deixar de pensar assim então deixarei de ser advogado. Poderei ser tudo na vida, menos um advogado.


É óbvio que me podem perguntar: "Mas se fosse um familiar teu a morrer, já não pensavas assim!" E eu respondo: claro, porque aí eu não queria justiça mas vingança. É que a justiça, enquanto postulado fundamental da ideia de direito, jamais será realizada pelas vítimas. Já há muitos séculos que os estados minimamente civilizados chamaram a si o exclusivo da administração da justiça, com proibição da chamada "justiça privada", que mais não é que vingança.


Leio isto e sinto um calor no coração. Um orgulho imenso de ser europeu. De no meu país não haver pena de morte, e muito menos execuções em que que estão presentes as famílias das vítimas. De viver num mundo em que o Estado não se arroga o poder nem o direito de exercer a vingança, mas apenas, modesta e civilizadamente, de proteger os cidadãos.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Desigualdade política

Esta mensagem corresponde a um comentário que fiz ao texto As desigualdades fazem mal ao desenvolvimento publicado por João Rodrigues no blogue Ladrões de Bicicletas. O meu comentário surge na sequência de outros e em resposta a uma pergunta que me foi dirigida pelo leitor Pedro Sá. Para aceder ao texto de João Rodrigues e respectivos comentários utilize a hiperligação contida nesta nota; para aceder à página inicial do Ladrões de Bicicletas, utilize a hiperligação aqui à direita.

Por desigualdade política entendo a desigualdade no acesso ao poder e a desigualdade na sujeição ao poder.

Verifica-se uma desigualdade no acesso ao poder quando para certas pessoas é mais fácil - por razões de etnia, fortuna, sexo, religião ou outras - exercer funções de soberania ou ser ouvidas por quem as exerce.

Verifica-se uma desigualdade na sujeição ao poder quando para certas pessoas é mais fácil do que para as restantes ficarem impunes pelo mal causado a terceiros ou obterem a punição de terceiros pelo mal de que foram vítimas.

Se só houvesse desigualdades económicas, por maiores que fossem, e não houvesse desigualdades políticas a funcionar em sinergia com aquelas, não teria cabimento falar em classes sociais. Mas isto é uma pura condição abstracta que não se pode verificar na realidade.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Choque cultural

Na noite de S. Martinho fui jantar a casa duma amiga, que por sua vez tem hospedada uma amiga sua, em férias, austríaca.
A sobremesa foi feita pela amiga: requeijão com compota de malaguetas.
Gostei.
E vocês, leitores, antes de começarem a fazer ruídos enojados como os do Calvin diante dum prato de espinafres, reflictam que tudo na vida se deve experimentar.

Mais dois livros

No War, com textos de Naomi Klein (autora do já aqui referido The Shock Doctrine), Bryan Mealer, Susan Watkins e Walter Laqueur, é um pequeno volume na melhor tradição do jornalismo investigativo norte-americano.

A Brief History of Neoliberalism de David Harvey é o que o título indica. Pensado para o leitor não especializado, relata concisamente o desenvolvimento daquilo que foi, nos últimos anos do século XX, um movimento económico e sobretudo político que hoje afecta, em tudo o que é importante, as vidas de todos nós.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Uma perspectiva de esquerda do neoliberalismo

(Clicar no título para aceder à página da Amazon.co.uk; clicar na foto para ampliar)

Conteúdo


PART I: THEORETICAL PERSPECTIVES


1. The Neoliberal (Counter-)Revolution

Gerard Dumenil and Dominique Levy

2. From Keynesianism to Neoliberalism: Shifting Paradigms in Economics

Thomas I. Palley

3. Mainstream Economics in the Neoliberal Era

Costas Lapavitsas

4. The Economic Mythology of Neoliberalism

Anwar Shaikh

5. The Neoliberal Theory of Society

Simon Clarke

6. Neoliberalism and Politics, and the Politics of Neoliberalism

Ronaldo Munck

7. Neoliberalism, Globalisation and International Relations

Alejandro Colas

PART II: SURVEYING THE LANDSCAPE


8. Neoliberalism and Primitive Accumulation in Less Developed Countries

Terence J. Byres

9. Neoliberal Globalisation: Imperialism without Empires?

Rugo Radice

10. Neoliberalism in International Trade: Sound Economics or a Question of Faith?

Sonali Deranyiagala

11. 'A Haven of Familiar Monetary Practice ': The Neoliberal Dream in International Money and Finance

Jan Toporowski

12. From Washington to Post- Washington Consensus: Neoliberal Agendas for Economic Development

Alfredo Saad-Filho

13. Foreign Aid, Neoliberalism and US Imperialism

Henry Veltmeyer and James Petras

14. Sticks and Carrots for Farmers in Developing Countries: Agrarian Neoliberalism in Theory and Practice

Carlos Oya

15. Poverty and Distribution: Back on the Neoliberal Agenda?

Deborah Johnston

16. The Welfare State and Neoliberalism

Susanne MacGregor

17. Neoliberalism, the New Right and Sexual Politics

Lesley Hoggart

18. Neoliberal Agendas for Higher Education

Les Levidow

19. Neoliberalism and Civil Society: Project and Possibilities

Subir Sinha

20. Neoliberalism and Democracy: Market Power versus Democratic Power

Arthur MacEwan

21. Neoliberalism and the Third Way

Philip Arestis and Malcolm Sawyer

PART III: NEOLIBERAL EXPERIENCES


22. The Birth of Neoliberalism in the United States: A Reorganisation of Capitalism

Al Campbell

23. The Neoliberal Experience of the United Kingdom

Philip Arestis and Malcolm Sawyer

24. European Integration as a Vehicle of Neoliberal Hegemony

John Milios

25. Neoliberalism: The Eastern European Frontier

Jan Toporowski

26. The Political Economy of Neoliberalism in Latin América

Alfredo Saad-Filho

27. Neoliberalism in Sub-Saharan Africa: From Structural Adjustment to NEPAD

Patrick Bond

28. Neoliberalism and South Asia: The Case of a Narrowing Discourse

Matthew McCartney

29. Assessing Neoliberalism in Japan

Makoto Itoh

30. Neoliberal Restructuring of Capital Relations in East and South-East Ásia

Dae-oup Chang