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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Monstros, burocratas, pensadores e dandies

Hannah Arendt escreveu algures que não há monstros, há burocratas. A frase, assim lapidar e concisa, e fora de contexto, poderia ser vista como uma mera boutade, não a tivesse a autora desenvolvido, matizado e qualificado em quase tudo o que escreveu.

Como, não há monstros? E então Hitler? E então Estaline? E então Cheney e Rumsfeld? Mas Hannah Arendt tem razão. Pudéssemos nós entrar na alma destes homens, talvez deparássemos nela com o Mal. Ou talvez deparássemos apenas com um enorme vazio. Mas não podemos: nem na deles, nem da dum qualquer serial killer que visto de dentro talvez fosse mais monstruoso, ou menos, do que qualquer tirano - mas que nós só podemos ver de fora.

Não sei o que faria o lojista da esquina, que há décadas remói a sua zanga com o mundo, se as peripécias da História lhe tivessem dado o poder sobre milhões de seres humanos - mas não deram.

Aonde eu quero chegar com isto é que talvez haja monstros, mas se os há, pouco interessa, porque o que de monstruoso acontece talvez acontecesse sem eles. Os tiranos que conhecemos não teriam passado de homenzinhos amargos e insignificantes sem as burocracias que os rodearam. Eichmann nunca compreendeu o que tinha feito de mal: sempre se limitara a fazer o seu trabalho, das nove às cinco; a guerra não lhe dizia nada; irritava-se quando lhe tiravam os guardas dos campos de concentração para os enviarem para a frente de combate.

Sim, mas... só burocratas? As redes de que dependem os tiranos são feitas só de burocratas? Em sentido restrito, no sentido de gente cinzenta e conformista, é claro que não. Todos os tiranos tiveram os seus intelectuais e os seus propagandistas - gente por vezes bem original e vistosa: os filósofos do romantismo tardio alemão, os teóricos do marxismo, os poetas do modernismo que se extasiaram com Mussolini. Goebbels e Leni Riefenstahl.

Mais próximos de nós, também Thatcher, Pinochet, Cheney e Rumsfeld se apoiaram em Hayek, em Fukuyama, no laureado Milton Friedman... Por trás de cada monstro (que, repito, talvez não seja um monstro) há quase sempre um pensador.

Mas só isto não basta. Os pensadores são poucos. Os divulgadores ajudam a fazer número, mas ainda assim não são suficientes. Mesmo os burocratas, numerosos como são, não chegam para perfazer uma maioria. É aqui que entram os dandies: a multidão daqueles para quem o que conta, sobretudo, é serem do seu tempo. Estarem à moda. Estarem com o que "está a dar".

Houve os dandies do comunismo, houve os dandies do fascismo: hoje há os dandies do neoliberalismo. Estão com o que está. Desdenham o passado e acreditam que o futuro é propriedade sua. Revêem-se na modernidade, como já na modernidade se reviam, há cem anos, os seus antecessores. Não sabem nada. Abundam nos quadros das empresas e dos partidos. Alguns dizem-se socialistas. Alguns são Primeiros-Ministros.

5 comentários:

Pedro Tomás disse...

Ooops!

Não percebi se o texto e em especial a conclusão do mesmo tem alguma coisa a ver com a foto associada...

:)

José Luiz Sarmento disse...

Caro Pedro Tomás:

É claro que não considero José Sócrates um monstro, nem acho que seja um pensador ou sequer um propagandista da ortodoxia neoliberal. Um burocrata, em parte; mas o que eu o considero certamente é um dandy.

Um dandy caracteriza-se pela convicção de que que as circunstâncias e acidentes do tempo em que vive são a marca duma superioridade absoluta sobre tudo o resto. A isto chama ele modernidade.

Entre as circunstâncias e acidentes do nosso tempo avulta a ortodoxia neoliberal - a ponto de tapar toda a linha do horizonte e de dar a ilusão de que mais nada existe.

Sócrates, como "socialista moderno" (mais "moderno" que socialista, em todo o caso) não tem nem a vontade, nem o equipamento conceptual, para fazer outra coisa que não seja aceitar acriticamente uma circunstância que para ele é um dado.

O mesmo se passa com vários outros membros do Governo e com a facção actualmente dominante do Partido Socialista.

O perigo do "dandyismo" é esse: fazer-nos confundir o mero presente com uma espécie de eternidade da qual não há fuga e em relação à qual não há alternativa. Daqui ao "não vale a pena" e ao desespero vai um passo muito curto.

Pedro Tomás disse...

Ora aí está um texto e uma crítica brilhante! E ainda mais explícito que o post que lhe deu o origem!

Um abraço e continue com a boa escrita!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Belo texto.
Abraço

F. Penim Redondo disse...

Gosto bastante do texto.
Só tem uma falha, não menciona os dandies do "políticamente correcto".