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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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sábado, 22 de dezembro de 2007

Para que serve a escola

Desafia-me «alf», num comentário, a dizer qual é a função principal da escola. Não me parece que seja nada de transcendente: a função principal da escola é garantir que não se perde, em cada geração, o património artístico, cultural, científico, literário e técnico adquirido pelas gerações anteriores.
A escola poderá ter outras funções, desde que claramente subordinadas a esta. Se subordinar esta às outras, mais vale encerrá-la.

7 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Desejo-lhe um Bom Natal, bem como aos seus leitores.
A luta por uma nova educação continua!
Abraço

alf disse...

Meu caro José Luis Sarmento, temos aqui um amplo campo de discussão!

Para mim, a escola prepara as pessoas para a sociedade que vão encontrar qd crescerem. O passado e a cultura são irrelevantes enquanto tal, mas são muito importantes como ferramentas para se poder estar no futuro.

Preparar aas pessoas começa logo por ser desenvolver-lhes as capacidades intelectuais. O cérebro é extremamente plástico e vai desenvolver-se de acordo com as solicitações que tiver nos primeiros anos de vida.

Para a sociedade do futuro, o cérebro tem de começar a ser desenvolvido muuuito cedo! Aprender as letras aos 6 anos de idade? Credo!!! Tem de ser pelo menos um ano antes! Aprender as letras, fazer puzzles, desenhar, falar, comunicar, compreender, entender a organização social, são coisas a ser feitas antes dos 6 anos!

Na escola tem de se aprender hábitos de trabalho, sentido de responsabilidade, capacidade de trabalhar em grupo, gosto pelos desafios, desenvolver a autoconfiança, a curiosidade pelo mundo, o conhecimento dos outros, aprender a ver as coisas por outros angulos, desenvolver o raciocínio, aprender o que é a sociedade humana, como funciona, como chegamos até aqui, para onde queremos ir, como nos organizamos para isso, como podemos enquadrar a nossa iniciativa, o que podemos fazer qd formos "grandes"

E é preciso aprender a conhecer o Universo, desenvolver uma consciencia ampla do universo, só isso no spode começar a dar luzes sobre o nosso papel no universo

Enfim, estou a escrever sem qualquer preocupação sistemática, só com o intuito de mostrar como o sistema de ensino tem um complexo programa de objectivos que tem de atingir para formar pessoas capazes de construirem uma sociedade melhor.

Porque o papel da geração seguinte não é manter esta sociedade, é continuá-la, não é ser igual ao mestre, é ultrapassá-lo.

Que o sistema actual é um redondo falhanço vê-se por vários indicadores, o pior dos quais, para mim, é o facto de que quem estuda não quer ser empresário.

Bom, mas isto assim não é um programa, é preciso sistematizar as ideias, reduzir os objectivos que se sobrepoem, fazer um plano.

Sem isso, não sabemos ao que andamos. Como podemos discutir se os alunos devem chumbar ou não? Cada um dá a sua opinião baseado no seu entendimento do que é o objectivo da escola; mas cada um tem um entendimento diferente do que é o objectivo da escola.

Eu sou aqui apenas um passageiro ocasional, não tenho disponibilidade nem conhecimento para uma tarefa destas; mas o Luis Sarmento tem o conhecimento e a coragem para tal, por isso o desafio que lhe lancei! Creio que isso seria uma importante contribuição para sabermos o que fazer.

Bom Natal!

José Luiz Sarmento disse...

Caro alf:

Suponha que nos próximos 20 anos surge algures no mundo um génio literário da estatura de um Shakespeare, dum Cervantes ou dum Camões.

Isto será um bem em si mesmo, é claro, e uma boa notícia para a humanidade. Os homens e as mulheres que nessa altura forem vivos terão mais uma oportunidadede enriquecer as suas vidas a somar às que já tinham. Mas se não lhes tivermos dado a capacidade de apreciar Shakespeare, Cervantes e Camões, também não serão capazes de apreciar esse futuro génio.

Isto será assim mesmo que a arte em causa não seja já a literatura, mas outra qualquer, já existente ou ainda por inventar, que tenha a ver com a narrativa.

O passado não é importante em si mesmo, mas as coisas que ele nos legou são. Os bens do futuro só serão uma mais-valia se se somarem aos do passado. Se os do passado forem eliminados, se deixar de haver acesso a eles, ficaremos na mesma - ou a perder.

Permitir a criação desta mais-valia é, a meu ver, a função principal da escola. Como se articula isto com a questão das reprovações e das passagens? Creio que já dei uma pista para esta questão no post em que falei das escolhas que se nos pôem.

Um bom Natal para si também!

Range-o-Dente disse...

Alf:
"E é preciso aprender a conhecer o Universo,"

É preciso conhecer o universo.

Suponho que aprender a conhecer corresponde apenas a uma declaração de boas intenções.

.

José Luiz Sarmento disse...

Os «eduqueses» dizem que os alunos, em vez de aprender, devem «aprender a aprender». O erro desastroso dos eduqueses está no «em vez de». Se dissessem «além de» estariam certíssimos.

alf disse...

Cá venho eu fora de tempo... ando com pouco tempo, com pouco tempo..

Só uns detalhes.

Eu falei de objectivos e de forma vaga. Para atingir esses objectivos uma coisa fundamental é conhecer o ser humano, tanto afectiva como racionalmente.

Ora o desconhecimento que existe ácerca do ser humano é grande demais, e é especialmente grande entre as pessoas dedicadas ao estudo - porque se dedicam muito a outras coisas e dão por adquirido que o ser humano é coisa simples.

Só para dar um exemplo: a aprendizagem de ideias tem uma vertente limitativa: uma ideia que se aprende como "boa" instala-se no nosso fundo inconsciente e bloqueia qualquer ideia diferente que tente surgir no nosso cérebro.

De certa forma, pode-se dizer que a aprendizagem mata a criatividade.

As grandes personagens da história da humanidade normalmente desenvolveram as suas capacidades antes do seu conhecimento, só depois de terem ideias próprias
sobre um assunto é que foram ver o que é que outros pensaram sobre isso.

Shakespeare nunca leu ... Shakespeare, não é verdade? Amália não sabia música.

Ou seja, a aprendizagem de ideias deve ser feita com cuidado e numa base crítica, nunca de "adoração". Isto não significa "falta de respeito" pelas ideias dos outros, significa que temos de respeitar a nossa capacidade de ter ideias.

Muito complicado? O que eu estou a dizer é trivial para quem tem pensamento autónomo; se acham complicado é melhor começarem a prestar atenção a estas coisas.

O Universo não se conhece, vai-se tentando descobrir; qd falei de aprender a conhecer o universo não foi no sentido de aprender a aprender mas concordo que a frase pode ser confusa; mas há um sentido subtil nela para quem quiser entender.

A questão de chumbar resolve o problema dos professores mas não da sociedade. "chumbar=exterminar" para o professor, mas para a sociedade não é assim.

Um abraço, vou para o almoço de Natal!

alf disse...

Um esclarecimento: o meu comentário anterior, escrito à pressa, dá a ideia de que eu estou contra os chumbos e contra os professores quando reclamam capacidade de penalizar os maus alunos. Nada disso.

Como será um pouco extensa a análise do assunto, talvez faça em breve um post no meu blogue sobre isso, porque, embora fora da linha do meu blogue, este assunto é importante e pode dar uma achega à compreensão das caracteristicas do ser humano.