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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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sexta-feira, 5 de junho de 2020

Peer Gynt

As suites Peer Gynt 1 e 2 de Edvard Grieg são habitualmente gravadas em versão instrumental. Versões vocais como esta são menos comuns. 

No quarto andamento da suite nº 1, Na Corte do Rei da Montanha, intervem o Conjunto Vocal Gösta Olin e o Coro de Câmara Pro Musica. No segundo andamento da suite nº 2, Dança Árabe, intervêm estas formações juntamente com a mezzo-soprano Marianne Eklöf. No quarto andamento, a conhecidíssima Canção de Solveig é mesmo uma canção e tem como intérprete a soprano Barbara Bonney. 

A orquestra é a Sinfónica de Goteburgo sob a direcção de Neeme Järvi.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Traduções

Nunca percebi muito bem que mosca terá mordido a Eça de Queirós para traduzir As Minas de Salomão (produzindo, como que por acidente, um texto melhor que o original). Apertos financeiros, arrisco. Já não me custa a entender que Aquilino Ribeiro tenha querido traduzir o D. Quixote, embora ainda me esteja entalado na garganta aquele "cujo nome vos direi amanhã."

O que acho delicioso é que Fernando Pessoa tenha traduzido The Scarlet Letter. Traduzindo "scarlet", como bom lisboeta, por "encarnada" e não, como mau literato que não era, por "escarlate." São coisas que consolam um bocadinho em tempos de confinamento. 

domingo, 31 de maio de 2020

Why Brownlee Left


Why Brownlee left, and where he went,
Is a mystery even now.
For if a man should have been content
It was him; two acres of barley,
One of potatoes, four bullocks,
A milker, a slated farmhouse.
He was last seen going out to plough
On a March morning, bright and early.

By noon Brownlee was famous;
They had found all abandoned, with
The last rig unbroken, his pair of black
Horses, like man and wife,
Shifting their weight from foot to
Foot, and gazing into the future.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

David Graeber, 'Debt: The First 5,000 Years'

Se há uma pergunta na ciência económica para a qual toda a gente pensa que tem uma resposta óbvia, é esta: "O que é o dinheiro?" E quanto menos sabemos o que é o dinheiro mais pensamos que sabemos. Quem sabe, porém, sabe sobretudo que não sabe. A natureza do "dinheiro" (como a de "riqueza", que não é a mesma) é uma das questões mais intratáveis e complexas no debate entre economistas; e já esteve na raiz de não poucas guerras, e das mais mortíferas.

Há hipóteses mais plausíveis do que outras. Uma delas, bastante consensual, é que a definição de "dinheiro" está ligada à de "dívida." Isto, numa primeira abordagem, parece óbvio: se forneço a alguém um bem ou serviço e recebo em troca um papel que não serve para nada a não ser para obter outro bem ou serviço, então o que tenho em meu poder não é em si mesmo riqueza, mas apenas o título de uma dívida em que estou na posição de credor.

Mas não há consenso sobre todos os eixos de articulação entre o dinheiro e a dívida. Pior: também não há consenso sobre uma definição exacta de "dívida" nem sobre uma definição exacta de "riqueza." Sabemos que as três noções não são sinónimas, presumimos fundamentadamente que estão ligadas, mas não sabemos exactamente como estão ligadas.

Para discutir estas matérias, David Graeber recua 5.000 anos até à Idade do Bronze e viaja por toda a Terra, examinando as mais diversas formas de organização social e económica que os historiadores, os sociólogos e os antropólogos têm estudado. E centra-se na noção de "dívida", provavelmente aquela que se presta a uma definição mais plausível. "Dívida" será então a obrigação - moral, religiosa, legal, ritual - de compensar um benefício recebido mediante uma contrapartida. Sendo que nem o benefício nem a contrapartida são necessariamente objectivos ou facilmente quantificáveis.

Juntamente com mais duas ou três obras canónicas (não serão muitas mais), 'Debt' obriga-nos a pensar por fora das vulgatas cássica e marxista sem por isso termos que renunciar ao que há de mais frutífero nas respectivas teorias. E obriga-nos a dar pelo menos o benefício da dúvida às tão negligenciadas abordagens anarquistas da economia, da sociologia e da história.

Da última vez que procurei, este livro não tinha sido editado em português. Havia outros do mesmo autor, porventura menos importantes; fica a hipótese de os editores portugueses se terem assustado com a extensão do texto. Entretanto pode ser que já tenha sido publicada uma tradução em português. É uma leitura que se recomenda, quando mais não seja para evitarmos pronunciamentos taxativos sobre noções como dívida privada e dívida pública e sobre as implicações políticas e estratégicas do que sabemos, ou julgamos saber, sobre a matéria.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Aldous Huxley, Point Counter Point

Quando participei num desafio em que era convidado a publicar no Facebook as capas de dez livros que me tivessem marcado, um dos títulos em que pensei foi 'Nineteen Eighty-Four' de George Orwell. E como este livro é frequentemente emparelhado com a distopia de Aldous Huxley 'Brave New World', pensei em incluir este título na lista.

Não o fiz, porém. É certo que Nineteen Eighty-Four' me marcou, é igualmente certo que 'Brave New World' também, e que a conjunção ou oposição das duas distopias me marcaram ainda mais. Nenhuma das duas me serviu de grelha de leitura única para compreender o meu tempo porque - lá está -existia também a outra.

Mas a obra mais ambiciosa de Huxley é 'Point Counter Point', e marcou-me mais do que me pareceu à primeira leitura. O romance foi publicado em 1928 e grande parte das suas personagens podem ter sido inspiradas em contemporâneos de Huxley. O mundo em que a acção decorre é o das elites artísticas, jornalísticas, literárias e científicas da época. E políticas, também: o líder fascista Edward Webley chefia um movimento que é, na Europa dos finais dos anos Vinte, perfeitamente respeitável.

Porquê falar deste romance e não de outro mais imediatamente relevante - como 'Brave New World' - para as perplexidades da era em que vivemos hoje? Em parte porque os pares de opostos que determinam a organização do texto - natureza e artifício, racionalidade e intuição, espectáculo e acção, ponto e contraponto - continuam a ser úteis para podemos ler o nosso tempo. Mas principalmente porque se trata, não de um panfleto nem de um 'roman à clef', mas de literatura. O autor não ignora a economia, a política ou a história - se as ignorasse nem literatura seria capaz de fazer - e não se abstém, longe disso, de produzir crítica social. Produz esta crítica de um ponto de vista que não é o do seu contemporâneo D.H. Lawrence; mas, ao retratar Lawrence na personagem Mark Rampion, e dando-lhe amplamente voz, cria o contraponto crítico para o seu ponto. Já é obra de monta.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Contos de Grimm: Edição Completa

As edições habituais dos contos de Grimm, como as dos contos de Andersen, obedecem a escolhas. Um dos critérios é desde logo a presumida adequação a um público infantil, outro será a purga do que neles houver de mais cruel, outro a preocupação de evitar repetições e redundâncias. Mas são precisamente as repetições e as redundâncias que fazem a riqueza da obra completa (que foi sendo construída, ao longo de sucessivas edições, durante várias décadas).

Há personagens recorrentes: o rei, a rainha, o "filho de rei", a "filha de rei", os três irmãos, as três irmãs, a madrasta (mas não o padrasto), a bruxa, o alfaiate, o sapateiro, o moleiro, o soldado demobilizado (mas não o no activo), o mestre e o aprendiz, o Diabo, S. Pedro (mas não os outros santos). Fadas há poucas: na Gata Borralheira não é  uma fada madrinha que calça e veste a protagonista, mas sim uma ave; e esta vive na árvore que ela plantou junto à campa da mãe.

Há cenários recorrentes: palácio e floresta, cidade e campo. E nomes recorrentes: Branca de Neve (Schneewittchen, em dialecto, que é a da história mais conhecida, e outra, Schneeweisschen, noutra história). Há um tempo recorrente, que é o do mito: o tempo em que "desejar ainda servia de alguma coisa", o tempo em que "todos os sons tinham sentido e significado."

A repetição, a recorrência, as variações sobre uns poucos temas criam escalas harmónicas: o significado conjunto é maior que a soma dos significados parciais. Quem quiser entender a Alemanha e os alemães tem aqui uma ajuda. 

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Álvaro Cunhal, Tradutor de Shakespeare



Não falta reflexão política em Shakespeare. Stephen Greenblatt, em "Tyrant", elabora mesmo uma taxinomia do despotismo na sua obra: Ricardo III é capaz de qualquer fraude ou crime para chegar ao poder mas não sabe o que fazer dele depois de o alcançar. Leontes enlouquece e exerce o poder como um psicopata, crescendo em crueldade no decorrer da acção. Coriolano, um aristocrata cujo desdém pela plebe o torna incapaz de se sujeitar aos contrangimentos duma campanha política, torna-se um traidor. Macbeth, roído pelo remorso, vê ameaças e conspirações em tudo excepto naquilo que acaba por vencê-lo. No ciclo Henrique VI, o populista John Cage convoca as massas rurais contra as elites letradas e enforca quem sabe ler.

Porque escolhe então Álvaro Cunhal o "Rei Lear" para a sua única tradução de Shakespeare? Lear não é tão obviamente um tirano como o são as filhas Goneril e Regan; a máquina inexorável da tragédia, que põe em marcha, não tem a marca da vontade de poder mas sim a de se despojar dele. Mas Lear acaba por ser tanto mais protagonista da Tragédia e da História quanto menos se quer protagonista duma vontade política.

Escreve Cunhal na sua nota introdutória que o Rei Lear é o admirável exemplo da obra de um grande artista assente no espírito criador do seu povo, da fusão do génio individual com o génio popular. Mas para estabelecer o nexo entre o génio do indivíduo e o espírito criador do povo, para mostrar como se opera esta fusão, Cunhal não se pode ficar por uma mensagem política superficial. A sua abordagem tem que ser a de um erudito e a de um poeta.

O erudito segue as raízes de Lear na tradição popular e literária que antecede o texto de Shakespeare; compara as diferentes versões e edições de modo a chegar à mais idónea; data o período em que foi escrito (entre 1603 e 1606); interpreta-o no contexto cultural da sua época; e refere mesmo, caracterizando-as, algumas das deturpações, falsificações, "emendas" e "aperfeiçoamentos" que outros autores menos talentosos lhe introduziram entre a segunda metade do século XVII e o final do século XVIII. Todo este trabalho aparece documentado nas notas finais.

O poeta faz esta coisa espantosa: apresenta-nos um texto que poderia, aos olhos de qualquer leitor, ter sido escrito originalmente em português. E isto sem nunca o trair.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

O Deslaçar

Estou a ler "The Unwinding" de George Parker, em que o autor procura explicar a crescente disfuncionalidade da sociedade americana. O livro deve ter dado uma trabalheira e custado uma fortuna a fazer porque a metodologia do autor consiste em relacionar as biografias de muitas dezenas de pessoas com os desenvolvimentos políticos, económicos, tecológicos e sociais - numa palavra, históricos - entre os anos 60 do século passado e a actualidade.

As personagens são de todas as classes sociais, de todas as religiões ou de religião nenhuma e de todas as origens étnicas e geográficas. As suas opções políticas cobrem todo o espectro americano, desde a direita libertária à ala mais à esquerda do Partido Democrático. Muitas são anónimas, outras são nomes que todos conhecemos, como Jay-Z, Colin Powel ou Elizabeth Warren.

Entre elas conta-se Peter Thiel, o autor da ideia original do Facebook, a quem Mark Zuckerberg se juntou mais tarde. Depois de Zuckerberg comprar a posição de Thiel, este abandonou a empresa e passou a dedicar-se a outros negócios. Não é, como Zuckerberg, o homem mais rico do mundo, mas é mesmo assim fabulosamente rico.

Thiel está convencido que os sistemas político, económico, social e constitucional norte-americanos se tornaram radicalmente disfuncionais a partir de 1973. 


«Foi a partir dessa data que os salários começaram a estagnar, a ciência e a tecnologia deixaram de progredir, o modelo de crescimento colapsou, as instituições políticas deixaram de contar com a confiança dos cidadãos e o modo de vida das classes médias começou a fragilizar-se. Durante os anos oitenta esta tendência pareceu inverter-se: foram os anos de Reagan e do optimismo, os anos em que tudo parecia possível. E nos anos noventa a Internet substituiu o Paraíso. Foram feitas enormes fortunas, e a vida sem um computador tornou-se quase inimaginável. No início do século deu-se o crash das dot-com e tudo começou de novo a regredir - a presidência de Bush, o recrudescer da guerra e da violência. Uma economia anémica - excepto em Wall Street - resultou nos eventos sísmicos de 2008 e numa nova depressão. Quatro décadas para baixo, para cima, para cima, para baixo.

Mas a tendência sistémica era para a regressão e para a entropia. Isto não era muito visível no período intermédio entre as duas depressões, e especialmente difícil de ver a partir do Silicon Valley, onde a vida depois do crash das dot-com continuou a correr bem graças sobretudo às redes sociais. Mas trinta milhas mais a Leste a vida não estava a correr bem às pessoas comuns, especialmente nos casos em que o seu único património - a casa onde viviam - tinha perdido metade do seu valor. Thiel começou a olhar para os anos oitenta e noventa como uma espécie de Verão de São Martinho que durou cerca de vinte e cinco anos, começando com o fim da recessão de Reagan em 1982 e acabando com o colapso da habitação em 2007. Mas mesmo durante este Verão de São Martinho as instituições-chave continuaram a desgastar-se, e abundaram as recessões e os pânicos financeiros. Com tantas bolhas - tanta gente a correr atrás de promessas efémeras, todas ao mesmo tempo - era claro que as coisas não estavam, ao nível mais fundamental, a funcionar.


Na Primavera de 2011, Mitt Romney andou pelo Silicon Valley à procura de apoios para a sua candidatura contra Obama, e visitou Thiel na sua casa em S. Francisco para uma conversa ao pequeno-almoço. Thiel ficou muito bem impressionado com ele e deu-lhe um conselho: o candidato mais pessimista sera o vencedor, porque um optimismo excessivo seria interpretado como falta de ligação à vida concreta das pessoas. Por outras palavras, seria um erro para Romney argumentar que Obama era incompetente e tudo se resolveria automaticamente se ele, Romney, fosse presidente. Reagan tinha usado esse argumento contra Carter em 1980, mas em 1980 só 50% dos americanos pensava que a vida dos seus filhos seria mais difícil do que a sua; enquanto em 2011 esta percentagem tinha subido para perto de 80%. A melhor estratégia para Romney seria dizer que as coisas podiam melhorar muito, mas conseguir isso seria extremamente difícil e exigiria mudanças mais profundas do que simplesmente trocar de presidentes. Mas este era um ponto que Romney era incapaz de compreender. Romney partia do princípio que o candidato mais optimista seria sempre o vencedor. Partia do princípio de que as coisas, embora pudessem estar a funcionar mal nos pormenores e à superfície, no fundamental continuavam a funcionar bem.

Por exemplo, estava em curso a era da informação, não estava? Com tudo o que ela prometia, não era? Thiel, um dos pioneiros da era da informação, com a qual tinha enriquecido, já não acreditava nela. Reunido com Romney no Café Venetia em Palo Alto, no lugar exacto em que ele e Elon Musk tinham decidido fazer da Paypal uma empresa cotada em bolsa, a cinco quarteirões dos primeiros escritórios dessa mesma Paypal, que estavam mesmo em frente dos escritórios originais da Facebook e dos escritórios actuais da Palantir, a seis milhas do campus da Google, a menos de uma milha numa direção e a menos de um quarteirão noutra direcção desses templos seculares da nova economia que eram as lojas Apple, no coração do coração do Silicon Valley, rodeado de mesas ocupadas por pessoas magras, saudáveis e vestidas com elegância informal, muitas delas munidas de aparelhos da Apple enquanto discutiam a criação de ideias e os chamados investimentos angélicos, Thiel tirou um iPhone do bolso dos jeans, mostrou-o a Romney e disse que não considerava aquilo um avanço tecnológico de fundo. Comparado com o programa espacial Apollo ou com um jacto supersónico, um smartphone era um brinquedo. Nos quarenta anos anteriores a 1973 tinha havido de facto enormes avanços tecnológicos e os salários tinham sextuplicado. Desde então os americanos tinham-se deixado fascinar por meros gadgets e esquecido quanto custa o verdadeiro progresso.»

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Excerto:

"Not far away from that palace room where no bird is singing, a man is as high in the air as birds might fly, working from a scaffold under a dome. The exterior of the dome is copper, gleaming under moon and stars. The interior is his.

There is light here in the Sanctuary; there always is, by order of the Emperor. The mosaicist has served tonight as his own apprentice, mixing lime for the setting bed, carrying it up the ladder himself. Not a great amount, he isn't covering a wide area tonight. He isn't doing very much at all. Only the face of his wife, dead now two years, very nearly.

There is no one watching him. There are guards at the entrance, as always, even in the cold, and a small, rumpled architect is asleep somewhere in this vastness of lamplight and shadow, but Crispin works in silence, as alone as a man can be in Sarantium.

If anyone were watching him, and knew what it was he was doing, they would need a true understanding of his craft (of all such crafts, really) not to conclude that this was a hard, cold man, indifferent in life to the woman he is so serenely rendering. His eyes are clear, his hands steady, meticulously choosing tesserae from the trays beside him. His expression is detached, austere: addressing technical dilemmas of glass and stone, no more.

No more? The heart cannot say, sometimes, but the hand and eye - if steady enough and clear enough - may shape a window for those who come after. Someone might look up one day, when all those awake or asleep in Sarantium tonight are long dead, and know that this woman was fair, and very greatly loved by the unknown man who placed her overhead, the way the ancient Trakesian gods were said to have set their mortal loves in the sky, as stars."

domingo, 18 de outubro de 2015

Diálogo ficcional entre um engenheiro de há 77 anos e um economista de daqui a 71 anos

Em 1939 um jovem engenheiro acabado de desmobilizar, por problemas de saúde, da Marinha norte-americana escreveu um livro de ensaios sobre as suas opiniões em matéria de política e economia. E opiniões possuía ele em abundância: em tal abundância e variedade, e tão fora do comum, que não encontrou editor para o livro.

Chamava-se este jovem engenheiro Robert A. Heinlein; e ninguém previa, nem ele, que as décadas seguintes fariam dele o mestre indisputado de um género literário nascente, a ficção científica. Perante a rejeição do seu livro de ensaios, resolveu rescrevê-lo sob a forma de um romance, uma "história do futuro" com o título "For Us, The Living".

Como romance, é fraquito. As personagens são planas e o enredo quase inexistente. Mas é fascinante para três categorias de leitores: aqueles que, conhecendo a obra posterior de Heinlein, encontram aqui condensados quase todos os tópicos que ele desenvolveu durante o meio século em que se tornou uma lenda viva; aqueles que tiram prazer da comparação entre as sua previsão da história do Mundo desde 1939 e o que realmente aconteceu até agora (prever, em 1939, a constituição e posterior desintegração de uma estrutura em tudo semelhante à União Europeia não é façanha pequena); e aqueles que julgam que algumas ideias políticas e económicas que hoje consideramos de vanguarda eram impensáveis há 76 anos.

O enredo é rudimentar. Um engenheiro recém desmobilizado da marinha, Perry, tem um acidente de automóvel em 1939 e acorda em 2086, num corpo jovem em tudo idêntico ao seu. Há um sub-enredo amoroso, como não podia deixar de ser, mas o essencial do livro é uma sucessão de conversas com várias personagens que lhe permitem compreender a América de 2086 e, por comparação com esta, a do seu próprio tempo.

O excerto que traduzi consiste numa conversa entre "Perry" e um professor de Economia, "Master Davis", sobre aquilo a que hoje chamaríamos "Rendimento Básico Incondicional".

"Sobre o que me está a incomodar,” [disse Perry,] “parece-me que já entendo o actual sistema financeiro e vejo bem que funciona melhor que o do meu tempo, mas há coisas nele para que não encontro justificação. Especialmente este dividendo ou cheque-herança. Por que carga de água há-de toda a gente receber dinheiro, quer trabalhe, quer não? Concedo que é justo para as viúvas e os órfãos, os doentes, os cegos e os aleijados, mas porquê sustentar no ócio um matulão que é preguiçoso demais para se sustentar a si próprio? A minha ideia é esta: aumentar o subsídio se necessário, e dar um dividendo maior a quem não se pode sustentar a si próprio, mas se um zângão não quer trabalhar, que morra à fome. Não o vamos deixar viver à custa de todos nós."

"Estou a ver. Incomoda-te que seja permitido a alguém que é capaz de trabalhar viver sem trabalhar. Mas porque é que consideras o trabalho uma virtude?"

"Bom, essas pessoas consomem bens e serviços que podem fazer falta a outras pessoas."

"Sabes de alguém que não tenha tudo o que quer das coisas boas do Mundo?"

"Bem, não."

"Então como é que podes dizer que os ociosos consomem bens que pertencem de justiça aos trabalhadores?"

"Parece-me óbvio."

"Quer dizer que te parece lógico. Mas, se não consegues encontrar no mundo real um caso que a confirme, pode a tua lógica estar correcta? Parece-me que encontraste o teu cisne negro [falácia lógica, discutida anteriormente, que consiste num silogismo em que a premissa maior é desmentida pelos factos observados]."

"Talvez sim. Mas como se pode justificar que homens saudáveis vivam na ociosidade?"

Davis estendeu os lábios. "A ética é mais uma questão de opinião do que de ciência. A moral tem mais a ver com os costumes que com a lei natural. Contudo, se quiseres um argumento moral para justificar a situação, eu posso dar-to. Havia alguém no teu tempo que vivesse sem trabalhar?”

“Oh, havia os que estavam a receber subsídio.”

“Não estou a falar desses. Presume-se que esses quisessem trabalhar e não encontrassem emprego, e lembras-te que provámos matematicamente que não lhes era possível encontrá-lo. Refiro-me àqueles que podiam trabalhar mas não queriam, e viviam bem.”

“Bem, não.”

“De certeza? E os que viviam dos rendimentos, e os proprietários de terras, e os detentores de capital que não participavam na gestão?”

“Ah, sim, claro. Uns poucos milhares, talvez. Mas tinham o direito de viver na ociosidade se quisessem. Ou eles ou os pais tinham ganho o dinheiro. Um homem tem com certeza o direito de providenciar para os seus filhos.”

“Todos os ociosos de hoje são filhos ricos de pais trabalhadores.”

“Estás a tentar brincar comigo?”

“Não foi uma piada, mas é verdade que falei em linguagem figurada. Diz-me, quais são os factores que intervêm na produção da riqueza real?”

“Bom, o trabalho, claro – e as matérias-primas e a terra.”

“Quais eram os factores quando jogámos o nosso jogo de produção e consumo?”

“Ah, sim – e também o capital, e o empreendimento e a gestão, e a inovação e a técnica, e o governo também estava no tabuleiro, mas não tenho a certeza que ele seja um factor na produção.”

“Mas é, como vais ver. Vamos examinar esses factores e tentar fazer uma estimativa aproximada da sua importância. O trabalho é básico, com certeza. Só nas mais paradisíacas ilhas dos Mares do Sul é que o Homem pode viver sem trabalhar. Marx errou ao considerar que o trabalho era único factor a considerar por ser o mais imediato, embora nos seus textos esteja implícita a existência de outros. A iniciativa é mais importante que o trabalho. Sem iniciativa, gestão, capacidade de direcção, e imaginação, a nossa cultura actual, altamente produtiva, seria impossível. A iniciativa é uma forma de trabalho criativo, mais difícil que o trabalho rotineiro, e absolutamente necessária a um alto nível de produção. O capital, ou melhor, a capitalização consiste essencialmente na disposição por parte de um possuidor de riqueza acumulada de a arriscar na esperança de adquirir mais. A sua recompensa é o juro. Hoje já não lhe damos muita importância. O capital é abundante, e, por meio da concorrência exercida pelo Banco dos Estados Unidos, fizemos o juro descer até um ponto em que é proporcional ao risco. […]

“Disse-te há bocado que o governo é um factor na produção. E é um factor, se não por outra razão, porque através dos seus poderes de policiamento cria um ambiente seguro para trabalhar. Sem ele, ninguém poderia acumular riqueza e a criação de riqueza em larga escala não seria viável. O que é outra maneira de dizer que os indivíduos só adquirem riqueza pela permissão da comunidade e a comunidade pode exigir-lhes qualquer tributo necessário à promoção do bem comum. O governo desempenha outras funções, numerosas demais para mencionar, mas estás a ver o meu ponto.

“A terra e as matérias-primas são outro factor óbvio na produção de riqueza. Mesmo na economia mais simples, o trabalhador tem que ter algo sobre que actuar e um lugar para o fazer a fim de produzir riqueza.

“O último factor é a inovação e a técnica. Não me refiro apenas às invenções modernas, protegidas por patentes, mas também a toda a acumulação de conhecimento útil desde a idade da pedra até ao presente. Embora se possa criar riqueza sem inovação, ou com muito pouca, ela é o mais importante de todos os factores. Basta que penses numa mercadoria qualquer para te convenceres disto. Por exemplo, um par de sapatos. Numa fábrica moderna, a produção anda à volta de seiscentos pares de sapatos por trabalhador por dia. Se deduzirmos a matéria-prima e os custos de capital, ficaremos ainda com quatrocentos pares por trabalhador por dia. Há algum homem capaz de fazer quatrocentos pares de sapatos num dia? Põe um homem a uma banca de sapateiro e assume que se trata de um sapateiro experiente, e já será muito bom que ele consiga fazer um par de sapatos num dia. Será então a gestão? A gestão é importante, uma vez que uma má gestão reduzirá a produção, digamos, em 50%, mas apesar disso a fábrica ainda produz muito mais do que produziria um número de sapateiros artesanais igual ao número dos seus trabalhadores. É óbvio que o que permite esta produção é o conhecimento técnico, a contribuição do inventor e do artista criativo. É por isso que os recompensamos tão bem hoje em dia. Há uma característica única do inventor-criador: é que o seu trabalho lhe sobrevive e é cumulativo no seu efeito. Devemos mais ao génio desconhecido que inventou a roda e o eixo do que a todos os trabalhadores que vivem hoje sobre a terra. Além disso, cada inventor está de pé sobre os ombros dos seus antecessores. Nenhuma invenção moderna seria possível sem o trabalho prévio de Bacon, Da Vinci, Watt, Faraday, Edison, et cetera sem número.”

“Sim, isso é evidente, mas e daí? Não vejo como é que o trabalho desses homens possa justificar a preguiça de hoje.”

“Estes homens são os nossos antepassados. Deixaram a cada um de nós a herança mais valiosa que é possível imaginar com excepção da terra e da própria vida. A cada um de nós, nota bem, tanto aos preguiçosos como aos trabalhadores. Recusar ao nosso irmão que prefere não trabalhar a sua parte da produção por razões moralistas que nós próprios inventámos seria exigir para nós aquilo que não ganhámos e a que não temos direito.”

Perry parecia desconcertado mas não convencido. “Admitindo que o que estás a dizer é verdade – e é, suponho – apesar de tudo é preciso trabalho para aplicar essa herança de conhecimento técnico. Porque não há-de cada homem capaz ser obrigado a contribuir para esse trabalho?”

“Mas, Perry, com certeza que vês que não há neste mundo trabalho suficiente para todos. As máquinas libertaram-nos da maldição de Adão. Como caberíamos todos nos postos de controlo das máquinas? Trabalhamos poucas horas, é verdade, e a maior parte dos operadores das máquinas reformam-se jovens, mas não é prático fazer mudanças de turno de quinze em quinze minutos nem treinar novos trabalhadores de poucas em poucas semanas. Havíamos de pôr as pessoas a cavar buracos e a enchê-los de novo para criar trabalho por amor do trabalho? Havíamos de destruir as máquinas e substituí-las por bancas de sapateiro? Há sempre trabalho criativo para fazer; não há limite para ele, mas também não há maneira de o sujeitar a horários. Se um homem tem em si a capacidade de criar, tudo o que podemos fazer é dar-lhe o ócio necessário para a desenvolver.”