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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Excerto:

"Not far away from that palace room where no bird is singing, a man is as high in the air as birds might fly, working from a scaffold under a dome. The exterior of the dome is copper, gleaming under moon and stars. The interior is his.

There is light here in the Sanctuary; there always is, by order of the Emperor. The mosaicist has served tonight as his own apprentice, mixing lime for the setting bed, carrying it up the ladder himself. Not a great amount, he isn't covering a wide area tonight. He isn't doing very much at all. Only the face of his wife, dead now two years, very nearly.

There is no one watching him. There are guards at the entrance, as always, even in the cold, and a small, rumpled architect is asleep somewhere in this vastness of lamplight and shadow, but Crispin works in silence, as alone as a man can be in Sarantium.

If anyone were watching him, and knew what it was he was doing, they would need a true understanding of his craft (of all such crafts, really) not to conclude that this was a hard, cold man, indifferent in life to the woman he is so serenely rendering. His eyes are clear, his hands steady, meticulously choosing tesserae from the trays beside him. His expression is detached, austere: addressing technical dilemmas of glass and stone, no more.

No more? The heart cannot say, sometimes, but the hand and eye - if steady enough and clear enough - may shape a window for those who come after. Someone might look up one day, when all those awake or asleep in Sarantium tonight are long dead, and know that this woman was fair, and very greatly loved by the unknown man who placed her overhead, the way the ancient Trakesian gods were said to have set their mortal loves in the sky, as stars."

domingo, 18 de outubro de 2015

Diálogo ficcional entre um engenheiro de há 77 anos e um economista de daqui a 71 anos

Em 1939 um jovem engenheiro acabado de desmobilizar, por problemas de saúde, da Marinha norte-americana escreveu um livro de ensaios sobre as suas opiniões em matéria de política e economia. E opiniões possuía ele em abundância: em tal abundância e variedade, e tão fora do comum, que não encontrou editor para o livro.

Chamava-se este jovem engenheiro Robert A. Heinlein; e ninguém previa, nem ele, que as décadas seguintes fariam dele o mestre indisputado de um género literário nascente, a ficção científica. Perante a rejeição do seu livro de ensaios, resolveu rescrevê-lo sob a forma de um romance, uma "história do futuro" a com o título "For Us, The Living".

Como romance, é fraquito. As personagens são planas e o enredo quase inexistente. Mas é fascinante para três categorias de leitores: aqueles que, conhecendo a obra posterior de Heinlein, encontram aqui condensados quase todos os tópicos que ele desenvolveu durante o meio século em que se tornou uma lenda viva; aqueles que tiram prazer da comparação entre as sua previsão da história do Mundo desde 1939 e o que realmente aconteceu até agora (prever, em 1939, a constituição e posterior desintegração de uma estrutura em tudo semelhante à União Europeia não é façanha pequena); e aqueles que julgam que algumas ideias políticas e económicas que hoje consideramos de vanguarda eram impensáveis há 76 anos.

O enredo é rudimentar. Um engenheiro recém desmobilizado da marinha, Perry, tem um acidente de automóvel em 1939 e acorda em 2086, num corpo jovem em tudo idêntico ao seu. Há um sub-enredo amoroso, como não podia deixar de ser, mas o essencial do livro é uma sucessão de conversas com várias personagens que lhe permitem compreender a América de 2086 e, por comparação com esta, a do seu próprio tempo.

O excerto que traduzi consiste numa conversa entre "Perry" e um professor de Economia, "Master Davis", sobre aquilo a que hoje chamaríamos "Rendimento Básico Incondicional".

"Sobre o que me está a incomodar,” [disse Perry,] “parece-me que já entendo o actual sistema financeiro e vejo bem que funciona melhor que o do meu tempo, mas há coisas nele para que não encontro justificação. Especialmente este dividendo ou cheque-herança. Por que carga de água há-de toda a gente receber dinheiro, quer trabalhe, quer não? Concedo que é justo para as viúvas e os órfãos, os doentes, os cegos e os aleijados, mas porquê sustentar no ócio um matulão que é preguiçoso demais para se sustentar a si próprio? A minha ideia é esta: aumentar o subsídio se necessário, e dar um dividendo maior a quem não se pode sustentar a si próprio, mas se um zângão não quer trabalhar, que morra à fome. Não o vamos deixar viver à custa de todos nós."

"Estou a ver. Incomoda-te que seja permitido a alguém que é capaz de trabalhar viver sem trabalhar. Mas porque é que consideras o trabalho uma virtude?"

"Bom, essas pessoas consomem bens e serviços que podem fazer falta a outras pessoas."

"Sabes de alguém que não tenha tudo o que quer das coisas boas do Mundo?"

"Bem, não."

"Então como é que podes dizer que os ociosos consomem bens que pertencem de justiça aos trabalhadores?"

"Parece-me óbvio."

"Quer dizer que te parece lógico. Mas, se não consegues encontrar no mundo real um caso que a confirme, pode a tua lógica estar correcta? Parece-me que encontraste o teu cisne negro [falácia lógica, discutida anteriormente, que consiste num silogismo em que a premissa maior é desmentida pelos factos observados]."

"Talvez sim. Mas como se pode justificar que homens saudáveis vivam na ociosidade?"

Davis estendeu os lábios. "A ética é mais uma questão de opinião do que de ciência. A moral tem mais a ver com os costumes que com a lei natural. Contudo, se quiseres um argumento moral para justificar a situação, eu posso dar-to. Havia alguém no teu tempo que vivesse sem trabalhar?”

“Oh, havia os que estavam a receber subsídio.”

“Não estou a falar desses. Presume-se que esses quisessem trabalhar e não encontrassem emprego, e lembras-te que provámos matematicamente que não lhes era possível encontrá-lo. Refiro-me àqueles que podiam trabalhar mas não queriam, e viviam bem.”

“Bem, não.”

“De certeza? E os que viviam dos rendimentos, e os proprietários de terras, e os detentores de capital que não participavam na gestão?”

“Ah, sim, claro. Uns poucos milhares, talvez. Mas tinham o direito de viver na ociosidade se quisessem. Ou eles ou os pais tinham ganho o dinheiro. Um homem tem com certeza o direito de providenciar para os seus filhos.”

“Todos os ociosos de hoje são filhos ricos de pais trabalhadores.”

“Estás a tentar brincar comigo?”

“Não foi uma piada, mas é verdade que falei em linguagem figurada. Diz-me, quais são os factores que intervêm na produção da riqueza real?”

“Bom, o trabalho, claro – e as matérias-primas e a terra.”

“Quais eram os factores quando jogámos o nosso jogo de produção e consumo?”

“Ah, sim – e também o capital, e o empreendimento e a gestão, e a inovação e a técnica, e o governo também estava no tabuleiro, mas não tenho a certeza que ele seja um factor na produção.”

“Mas é, como vais ver. Vamos examinar esses factores e tentar fazer uma estimativa aproximada da sua importância. O trabalho é básico, com certeza. Só nas mais paradisíacas ilhas dos Mares do Sul é que o Homem pode viver sem trabalhar. Marx errou ao considerar que o trabalho era único factor a considerar por ser o mais imediato, embora nos seus textos esteja implícita a existência de outros. A iniciativa é mais importante que o trabalho. Sem iniciativa, gestão, capacidade de direcção, e imaginação, a nossa cultura actual, altamente produtiva, seria impossível. A iniciativa é uma forma de trabalho criativo, mais difícil que o trabalho rotineiro, e absolutamente necessária a um alto nível de produção. O capital, ou melhor, a capitalização consiste essencialmente na disposição por parte de um possuidor de riqueza acumulada de a arriscar na esperança de adquirir mais. A sua recompensa é o juro. Hoje já não lhe damos muita importância. O capital é abundante, e, por meio da concorrência exercida pelo Banco dos Estados Unidos, fizemos o juro descer até um ponto em que é proporcional ao risco. […]

“Disse-te há bocado que o governo é um factor na produção. E é um factor, se não por outra razão, porque através dos seus poderes de policiamento cria um ambiente seguro para trabalhar. Sem ele, ninguém poderia acumular riqueza e a criação de riqueza em larga escala não seria viável. O que é outra maneira de dizer que os indivíduos só adquirem riqueza pela permissão da comunidade e a comunidade pode exigir-lhes qualquer tributo necessário à promoção do bem comum. O governo desempenha outras funções, numerosas demais para mencionar, mas estás a ver o meu ponto.

“A terra e as matérias-primas são outro factor óbvio na produção de riqueza. Mesmo na economia mais simples, o trabalhador tem que ter algo sobre que actuar e um lugar para o fazer a fim de produzir riqueza.

“O último factor é a inovação e a técnica. Não me refiro apenas às invenções modernas, protegidas por patentes, mas também a toda a acumulação de conhecimento útil desde a idade da pedra até ao presente. Embora se possa criar riqueza sem inovação, ou com muito pouca, ela é o mais importante de todos os factores. Basta que penses numa mercadoria qualquer para te convenceres disto. Por exemplo, um par de sapatos. Numa fábrica moderna, a produção anda à volta de seiscentos pares de sapatos por trabalhador por dia. Se deduzirmos a matéria-prima e os custos de capital, ficaremos ainda com quatrocentos pares por trabalhador por dia. Há algum homem capaz de fazer quatrocentos pares de sapatos num dia? Põe um homem a uma banca de sapateiro e assume que se trata de um sapateiro experiente, e já será muito bom que ele consiga fazer um par de sapatos num dia. Será então a gestão? A gestão é importante, uma vez que uma má gestão reduzirá a produção, digamos, em 50%, mas apesar disso a fábrica ainda produz muito mais do que produziria um número de sapateiros artesanais igual ao número dos seus trabalhadores. É óbvio que o que permite esta produção é o conhecimento técnico, a contribuição do inventor e do artista criativo. É por isso que os recompensamos tão bem hoje em dia. Há uma característica única do inventor-criador: é que o seu trabalho lhe sobrevive e é cumulativo no seu efeito. Devemos mais ao génio desconhecido que inventou a roda e o eixo do que a todos os trabalhadores que vivem hoje sobre a terra. Além disso, cada inventor está de pé sobre os ombros dos seus antecessores. Nenhuma invenção moderna seria possível sem o trabalho prévio de Bacon, Da Vinci, Watt, Faraday, Edison, et cetera sem número.”

“Sim, isso é evidente, mas e daí? Não vejo como é que o trabalho desses homens possa justificar a preguiça de hoje.”

“Estes homens são os nossos antepassados. Deixaram a cada um de nós a herança mais valiosa que é possível imaginar com excepção da terra e da própria vida. A cada um de nós, nota bem, tanto aos preguiçosos como aos trabalhadores. Recusar ao nosso irmão que prefere não trabalhar a sua parte da produção por razões moralistas que nós próprios inventámos seria exigir para nós aquilo que não ganhámos e a que não temos direito.”

Perry parecia desconcertado mas não convencido. “Admitindo que o que estás a dizer é verdade – e é, suponho – apesar de tudo é preciso trabalho para aplicar essa herança de conhecimento técnico. Porque não há-de cada homem capaz ser obrigado a contribuir para esse trabalho?”

“Mas, Perry, com certeza que vês que não há neste mundo trabalho suficiente para todos. As máquinas libertaram-nos da maldição de Adão. Como caberíamos todos nos postos de controlo das máquinas? Trabalhamos poucas horas, é verdade, e a maior parte dos operadores das máquinas reformam-se jovens, mas não é prático fazer mudanças de turno de quinze em quinze minutos nem treinar novos trabalhadores de poucas em poucas semanas. Havíamos de pôr as pessoas a cavar buracos e a enchê-los de novo para criar trabalho por amor do trabalho? Havíamos de destruir as máquinas e substituí-las por bancas de sapateiro? Há sempre trabalho criativo para fazer; não há limite para ele, mas também não há maneira de o sujeitar a horários. Se um homem tem em si a capacidade de criar, tudo o que podemos fazer é dar-lhe o ócio necessário para a desenvolver.” 


sábado, 25 de outubro de 2014

As Minhas Leituras: Ensaio em Louvor da Nudez

As Minhas Leituras: Ensaio em Louvor da Nudez

Ensaio em Louvor da Nudez




1. A nudez é o grau zero.

Não nos despimos: vestimo-nos. É um lugar comum que todos nascemos nus, mas é menos frequente observar-se que quase a primeira coisa que se faz ao recém-nascido é vesti-lo - acto tão precoce que quase transforma o estar vestido em natureza, naturaliza o pudor de estar nu e torna quase impensável o pudor de estar vestido.

"Quase" é aqui a palavra-chave. Só dispensa esta palavra quem se esqueceu do trabalho que dá habituar uma criança pequena a não se despir - e, em maior grau, a não se descalçar - sempre que lhe apetece.

Todos nós estamos nus por defeito e qualquer peça de vestuário é sempre um acrescento. Por isso me intriga tanto a pergunta que se faz a actores, modelos e actrizes: "Seria capaz de actuar nu?" Intriga-me mais ainda a resposta convencional: "Sim, mas só com a devida justificação." Em certas artes performativas, sobretudo a dança, parecer-me-ia mais natural que se perguntasse ao entrevistado se seria capaz de actuar vestido e que a resposta fosse "sim, se se justificar." O que necessita de razão e motivo não é o corpo, mas sim aquilo que se acrescenta ao corpo.

Intriga-me também que exista um substantivo - "nudez" - para designar o estar nu, que é um estado neutro, e não exista um termo para designar o estar vestido, que é um estado positivo e tem um conteúdo. É como se a própria língua se aliasse aos pudibundos, permitindo-lhes dizer que a nudez os ofende, ao mesmo tempo que dificulta a expressão a quem se sente moral e esteticamente ofendido ao ver roupas que de inconguentes se tornam grotescas.

2. Andar descalço

Um dia, em Maiorca, uma adolescente portuguesa saía da praia. Preparava-se para seguir descalça para o hotel, a exemplo de muitas outras jovens, quando o pai interveio, numa fúria. Nem pensar! Ia já, ali mesmo, comprar umas havaianas novas. Descalça na rua é que nunca - nem mesmo para percorrer cem metros.

Fiquei a pensar nas razões por que uma jovem alemã pode andar descalça na rua e uma jovem portuguesa não pode. Ocorreu-me a distinção antropológica entre as culturas da vergonha ligadas ao catolicismo e as culturas da culpa ligadas ao calvinismo. Se bem que Portugal seja cada vez menos uma cultura da vergonha - já ninguém se suicida por ter ido à falência, e as elites comportam-se publicamente da maneira que sabemos - a presença de uma plateia continua a influír nos comportamentos como não influi no Norte da Europa e na costa Leste dos Estados Unidos.

Como Nathaniel Hawthorne no século XIX, John Updike foi, no século XX, o cronista por excelência da Nova Inglaterra. Na sua colectânea de ensaios Hugging the Shore dedica um texto ao andar descalço - hábito típico dos white anglo-saxon protestants no Nordeste dos Estados Unidos a que o autor chama uma forma discreta de nudismo. E o nudismo é, paradoxalmente, uma decorrência indirecta da cultura calvinista que faz prevalecer a consciência individual sobre a opinião alheia mesmo quando faz desta critério daquela. O homem que dialoga individualmente com Deus está naturalmente nu perante ele.

Podemos encontrar a contraprova em Philip Roth. Poucas diferenças culturais serão tão marcadas como a que se verificava há poucas décadas entre um judeu nova-iorquino e um WASP de Boston; quando o protagonista judeu de Portnoy's Complaint se encanta por uma shiksa,* um dos motivos deste encanto é ela ser a primeira estudante a ir descalça para as aulas quando chega a Primavera. Esta desenvoltura, frequente nas chamadas culturas da culpa, é de todo inaceitável nas culturas da vergonha como as do Sul da Europa; e inaceitável por maioria de razão numa cultura que é ao mesmo tempo da culpa e da vergonha como a que se personifica em Portnoy. O medo da plateia é mais forte que o temor de Deus.

No Sul da Europa, andar descalço na rua é motivo de vergonha. Parece mal. Os outros olham para nós e pensam que somos malucos. Ainda há uma geração ou duas, era sinal de pobreza, e nada é mais vergonhoso que ser ou parecer pobre. Andar descalço na rua, só nas procissões ou nos santuários marianos, por penitência; e, neste contexto, quase só as mulheres.

3. Das fardas


O oposto da nudez não é o vestuário, é o uniforme. Nas artes plásticas e na fotografia, um nu nem sempre representa uma pessoa nua, mas sim uma pessoa uniformizada. Os sapatos de salto alto e a maquilhagem de um modelo de Helmut Newton criam um tipo que se interpõe entre quem vê a foto e a pessoa concreta que lhe serviu de modelo - e que provavelmente não seria reconhecida na rua por quem viu a sua imagem.

Uma pessoa nunca é mais reconhecível do que quando está nua - autenticamente, honestamente nua - e um uniforme é sempre uma máscara. É mais do que uma máscara, porém: é também, ostensivamente, uma protecção. E é uma marca de distinção entre nós e vós. A blindagem do polícia não é nem procura ser discreta: pelo contrário, é o mais ostensiva possível e remete especificamente para as imagens de robots, andróides e cyborgs veículadas pelos media de entretenimento.

A mensagem é clara: "Não procurem em nós humanidade. Nós estamos para além do humano."

A fraqueza desta mensagem está na discrepância entre a imagem e o real. Dentro do uniforme está sempre um polícia, um indivíduo, um ser humano nascido de uma mulher, e tão nu na sua armadura como estava ao nascer. Não admira assim que a mensagem oposta afirme muitas vezes a vulnerabilidade do corpo humano como uma forma superior de protecção.



4. Um corpo de mulher: Lady Godiva

Godiva, ou Godgifu, ou Godgyfu, viveu no século XI em Coventry. Foi casada com o Conde Leofric e depois de enviuvar sucedeu-lhe no senhorio de Mercia. Godiva foi um dos poucos nobres saxões que conservaram os seus domínios depois da invasão normanda. Isto é o que se sabe; para além disto é tudo lenda.

A lenda, na versão hoje corrente, surgiu no início do Século XIII. Godiva terá insistido junto do marido para que baixasse os impostos excessivos cobrados aos habitantes do condado, tendo ele finalmente acedido desde que ela cavalgasse nua através da cidade. Godiva assim fez, e Leofric baixou os impostos.

Sobre o que se terá passado no Século XI nada sabemos. Sugerem alguns estudiosos que "nua" pode significar "sem as suas jóias" - ou seja, num estado equivalente à nudez na medida em que o vestuário deixa de cumprir a sua função de identificador social. Mas o próprio facto de a lenda existir duzentos anos depois - e a palavra "naked", na acepção que lhe era dada no Século XIII, significa univocamente "sem roupas de qualquer espécie" - indicia que a nudez política era já pensável. Era ainda, porém, como na Antiguidade, a nudez da suplicante; pela nudez feminina como afirmação propositiva haveria ainda que esperar quase 600 anos.



5. Os corpos das mulheres: Marianne e a República


Parece incompreensível que algumas mulheres descubram os seios para se manifestarem politicamente. É possível que algumas elas próprias não consigam sempre explicar articuladamente a razão por que o fazem.
E no entanto devemos-lhes, quando mais não seja a título de benefício da dúvida, a presunção de que o fazem por uma razão válida. Não podemos acusá-las a priori de exibicionismo e muito menos desse neologismo reaccionário - "protagonismo" - com que se deprecia a veleidade plebeia de intervir na vida da Res Publica

A Intervenção das Mulheres Sabinas de David contém já alguns dos significados políticos da nudez feminina. As mulheres que se interpõem entre os contendores estão mais nuas, vestidas, que o guerreiro nu em primeiro plano. O elmo  esboça o uniforme, mas a pose clássica completa-o. O gesto com que segura a linha horizontal do dardo tem a elegância impossível dos modelos de Helmut Newton




As Mulheres Sabinas prefiguram já a Liberdade de Delacroix. Não estão em pose estática, como o guerreiro clássico, mas em movimento livre. Os seios nus, o torneado do corpo, os bebés que erguem no ar, tudo se opõe à rigidez rectilínea das armas. O estilo do vestuário é o que ficou conhecido por Neoclássico ou Império, e que o mesmo David mostrou nos retratos de Madame Récamier: vestidos simples e soltos, cintura alta, nus os braços, os ombros e por vezes os pés; e os seios, muitas vezes, visíveis à transparência. No que respeita as élites, é uma moda revolucionária que se opõe às trabalhosas e incómodas complicações do barroco; é uma moda em que o eu íntimo transcende, porventura pela primeira vez desde a Antiguidade, a persona social e política construída a partir da roupa.

O Poder deixou, provisoriamente, de usar uniforme; a nudez nobre da Antiguidade pagã triunfou provisoriamente sobre o mais político e despótico dos movimentos artísticos e sobre a mais despótica das modas, que foram respectivamente o barroco e a estilo da corte de Luís XIV. Por um breve momento, antes que o vitorianismo repusesse os bons costumes com os espartilhos torturantes e as saias empecivas, a aristocracia coincidiu com a nobreza; e muitas mulheres das elites europeias puderam andar à-vontade em público.

E os homens? Também eles conquistaram com a Revolução o direito ao conforto e à simplicidade nobre no vestir. O Dandyism de Barbey D'Aurevilly e de Beau Brummel é também isto. E, ao contrário do que aconteceu às mulheres, não perderam a seguir a 1820 o que tinham conquistado. Nunca mais os homens se viram limitados pelos saltos altos ou pelas perucas do Ancien Régime.

A Liberdade que guia o povo na pintura de Delacroix não é tão irrealista como pode parecer. O vestido é de época, não causa estranheza. Quase se poderia tratar de Madame Récamier, movida pela paixão a levantar-se do divã neoclássico, pôr na cabeça uma boina frígia e vir para a rua sem se incomodar com a sujidade e o suor.

As Femen que hoje em dia se manifestam de tronco nu sabem, confusamente ou não, alguma coisa que os seus críticos não sabem. A actriz Fernanda Policarpo, ao figurar descalça a República, sabe o mesmo. A jovem que beija o polícia e assim revela o homem feito de carne que reside na carapaça oficial, também. E do mesmo modo as jovens que refutam com a brandura dos seios nus os elmos, os escudos high-tech e os bastões da polícia. O corpo humano é refractário à Razão de Estado. E são-no, por maioria de razão e révanche histórica, os corpos das mulheres.

6. Da nudez sagrada


Não são muitos os profetas nus no Antigo Testamento, nem numerosos os santos nus na hagiografia católica. Os que há, porém, chegam para traçar um perfil que os situa na tradição mística, na relação directa com Deus, ou seja: em pleno sagrado mas em larga medida fora da religião, que é a expressão social do sagrado. O profeta Isaías e Saul, pregando nus, descartam o uniforme da sua identidade social para melhor afirmar a inspiração divina que recebem sem a mediação de qualquer estrutura religiosa - leia-se, sem a mediação de qualquer autoridade humana. Do mesmo modo 
os eremitas dispensam a roupa. Para que precisa de roupas Santa Maria Egipcíaca no deserto? Melhor deixar apodrecer as vestes que levou consigo e deixar que o seu cadáver seja encontrado nu.
Diz-se que Santa Isabel de Turíngia professou nua, e há pinturas mais ou menos imaginativas desse momento. Lenda ou facto, esta narrativa articula-se bem com a mentalidade da Alemanha devota em inícios do Século XIII. Mais uma vez - poucos santos se deram tanto como Isabel à disciplina e à penitência - a nudez aparece associada, pelo menos na imaginação popular, a ascese extrema.

Esta associação não é exclusiva do cristianismo. É muito mais evidente no jainismo, por exemplo: a ponto de a religião contaminar o sagrado quando centenas de santos homens se juntam, nus e cobertos de cinzas, em cerimónias públicas. 

As religiões preferem, em geral, confinar a nudez sagrada aos desertos e às grandes solidões, tanto mais que pode ser substituída sem perturbação social pelos pés nus, que são ascese suficiente para o dia-a-dia e, por acréscimo, um símbolo de submissão a Deus. Moisés retirou as sandálias no Monte Sinai porque se achava em terreno sagrado; pelo mesmo motivo se descalçam os hindus nos templos, os muçulmanos nas mesquitas e católicos nas procissões.

Mas
 não foi só por ascese e submissão que Teresa de Ávila se descalçou. Estaria também a desnudar-se, como uma mulher apaixonada, perante o seu Senhor e Amante; e descalçar as freiras sobre quem tinha autoridade foi um acto de gestão e de política destinado a eliminar a segregação social entre monjas ricas e pobres, nobres e plebeias, senhoras e servas. Esta segregação exprimia-se nos hábitos que só se distinguiam de vestidos de corte pela cor e por algum discreto acessório. Mas nenhum trajo de corte sobrevive enquanto identificador social à remoção do calçado que lhe corresponde; e muito menos à remoção dos sapatos de salto alto que eram, no século XVI, prerrogativa ostentatória da nobreza. Privadas destes, as freiras ricas ficaram na mesma nudez a que já estavam habituadas as irmãs que as serviam: nuas sem os seus saltos altos como Lady Godiva sem as suas jóias.

7. Da nudez poética

Com a possível excepção de algumas seitas protestantes norte-americanas, nenhum cristão estará à espera de se apresentar perante Deus, no Dia do Juízo Final, de saia e casaco ou de fato e gravata. Muito menos eu, que não sou cristão e não levo à letra o Apocalipse. Se me alongo pelas regiões do sagrado é para chegar ao poético. Muitos poetas diriam, com efeito, que não só o poético é sagrado, mas também o sagrado é poético; e muitos ateus dirão, como eu, que é pelo sentimento do sagrado que se chega à criação - à poiesisE também que só pelo sagrado e pela poesia - no sentido mais amplo da palavra, que abrange a criação artística e a intuição filosófica - é hoje possível chegar a uma região a que podemos, tentativamente, chamar "verdade". Não se trata aqui da verdade factual - no âmbito dos juízos de facto contentamo-nos hoje, e bem, com a validade. Não era à verdade dos factos, porém, mas à da ficção, que Eça de Queirós se referia quando se propôs cobrir-lhe a nudez forte com o manto diáfano da fantasia; e não é a resposta autoritária, mas a pergunta desarmada, que Montaigne tem em mente quando deseja apresentar-se nu perante o leitor.



A nudez é nobre porque é poética e é poética porque é, enquanto símbolo, genésica e ambígua




A nudez - a do corpo todo, a dos seios femininos ou ainda, minimalista, a dos pés  - pode ser submissão e respeito, ou ascetismo, para indus, judeus e e católicos; crime para as agendas políticas do Islão fundamentalista e do protestantismo evangélico moderno; liberdade, desenvoltura e individualismo para as culturas mais sofisticadas de raiz calvinista; afirmação política e crítica social, ou controvérsia e transgressão, para rebeldes de todas as causas; afirmação estética para o artista plástico que contesta e interroga as modas.

Segundo Miguel Ângelo, o pé é mais nobre que o sapato. Nesta acepção, a nobreza não é uma função do poder, mas da excelência. Não é o aristocrata poderoso que é nobre, é o homem nu de Montaigne na sua humanidade plena, o artista ou o artesão da Renascença na sua pujança criadora. O sapato é rígido como uma armadura: com o uso continuado, a sua forma determina ou oculta a do corpo. Como as armaduras dos cavaleiros, o sapato figura a violência do poder. O vestuário é assim tanto mais aristocrático quanto mais rígido e incómodo, mas tanto mais nobre quanto mais solto. 

Descontada, por específica, a figuração hierática do poder - Isabel Tudor com as suas jóias e cosméticos, a variegada caterva de imperadores retratados nos seus elmos e armaduras - toda a figuração do corpo é figuração do nu. Os pintores ou os escultores sabem e mostram, mesmo quando se apaixonam pelas pregas livres da seda, da cambraia ou do linho, que por baixo do tecido está o corpo nu - e que é este que determina as formas exteriores que os fascinam. Desta mesma presença nos lembram explicitamente os mamilos que alguns pintores neo-expressionistas pintam por fora dos vestidos das mulheres. Quando não pintam, como Frida Khalo - nudez suprema! - o coração. 




7. Decência e pudor: do nudismo

Quase no início deste ensaio uso a foto de uma mulher com sapatos de salto alto para ilustrar a ideia de que a nudez pode ser o seu contrário: um uniforme. Dou agora a volta completa e uso a foto de um homem nu para mostrar a imagem inversa desta relação. As sapatilhas deste homem não simbolizam nada, e muito menos um estatuto: são um elemento funcional e não decorativo. Permitem-lhe andar sem desconforto sobre a areia quente ou sobre o cascalho cortante da praia. As sapatilhas deste homem acrescentam nudez à sua nudez.

Um dos argumentos mais frequentes contra o nudismo é que seria compreensível que os jovens e belos se mostrassem nus, mas não os velhos e feios. Isto faz sentido vindo de quem nasceu e sempre viveu em contextos sociais em que tanto a roupa como a sua ausência são fardas, símbolos que exibimos para transmitir um conteúdo.

O mal-entendido reside em que o nudista não se mostra: o nudista está. Esta circunstância tão simples, mas tão raramente compreendida, dá ao nudismo o estatuto de uma filosofia moral - uma filosofia moral que dá o direito de estar tanto aos jovens como aos velhos, tanto aos belos como aos feios, tanto aos que têm bom-gosto como aos que o não têm. E é uma ética superior, no sentido em que se articula a partir de princípios inteligíveis, por oposição aos moralismos que decorrem automaticamente de proibições inexplicadas.

O facto de a ética nudista se articular racionalmente não assegura que detenha a verdade e muito menos a verdade única; e não impede que seja expressa, no plano individual, pela invocação de percepções subjectivas. É inteiramente subjectiva, por exemplo, a minha intuição de que há algo de indecente, de impudico, no uso de roupas para nadar no mar. Indecente, impudico, e incómodo; ou talvez indecente e impudico por incómodo.

Muitas pessoas já ouvi descrever, sem que nenhuma o conseguisse explicar, o prazer intenso que resulta de nadar nu. E é de facto inexplicável na medida em que é subjectivo.

Mas o que é inocente não carece de explicação ou justificação. Estar nu de frente ao mar, ver a onda, mergulhar nela e sair do outro lado - eis aqui um prazer tão inocente como intenso. Mais do que isso, é "um não a todos os nãos". E não um não pela via da morte
, como o poeta tinha em mente; mas sim uma afirmação da vida contra as carapaças mortas que a negam, comprimem e sujeitam.




*Nota: A Shiksa era em 1969 o terror das mães judias. A palavra designa um estereótipo: a rapariga protestante, alta, loira e esbelta, desenvolta e desinibida, que virava a cabeça aos rapazes judeus e os afastava das noivas judias - férteis e domésticas - que a boa ordem das coisas lhes destinava.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Da beleza das mulheres

Uma mulher não é amada porque é bela, é bela porque é amada. Numa mulher que é amada, qualquer pequena coisa é uma perfeição absoluta: o azul das veias à transparência duma pele clara, um reflexo dourado e fugaz numa pele escura, um secreto sorriso, a unha roída, a prega na cinta quando roda o torso, o mamilo molhado que o bebé largou.

Isto, quanto ao principal. Depois, muito depois, vêm as preferências: o gosto de andar descalça, a entrega do corpo à música, o gosto de cozinhar e de comer, a capacidade de comer sem culpa, a gargalhada franca, o cabelo livre, a pose coquette que já nasceu sabendo ou, pelo contrário, a ausência completa de pose.

E é claro: o ser mulher.




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sábado, 16 de novembro de 2013

As Esquerdas e a Soberania, ou: O Trilema de Rodrik no Debate Político Europeu


Acumulam-se os tratados internacionais - o Tratado de Lisboa é apenas um deles - negociados secretamente, sem o acordo dos povos soberanos e mesmo contra a sua vontade presumida ou expressa.


Alegadamente, as disposições destes tratados prevalecem sobre a ordem interna dos Estados signatários e mesmo sobre a sua ordem constitucional. Torna-se assim possível a uma empresa multinacional processar um Estado Soberano por lucros esperados e não realizados em consequência da aplicação das leis.

Apesar do esforço enorme por parte dos governos e dos seus juristas para dar a estes normativos internacionais uma aparência de legitimidade - mormente por meio duma desnecessária complexidade nos articulados e duma propositada ambiguidade dos conceitos - é perfeitamente evidente que nada disto é, ou pode remotamente ser, legítimo.

Em bom rigor, tudo isto é nulo desde a génese; se e quando os povos recuperarem, por via democrática ou de armas na mão, a soberania que lhes tem sido sistematicamente usurpada, poderão declarar esta nulidade com efeitos a partir da data da assinatura sem que com isto violem o princípio da não-retroactividade das leis.

A questão da soberania é hoje central no debate político. Infelizmente tem sido a extrema-direita nacionalista que a tem posto na ordem do dia (a isto devendo, atrevo-me a presumir, o seu espectacular crescimento em vários países europeus). Mas tem-na abordado, perversamente, em nome duma Nação sacralizada que disputa às empresas o direito de dispor arbitrariamente da vida das pessoas.

Cabe às esquerdas enfrentar a extrema-direita neste terreno. A questão da soberania é incontornável e tem que ser posta. Mas tem que ser posta em termos democráticos. A soberania nacional tem que ser defendida com denodo - mas na medida, e só na medida, em que decorre da soberania popular, e não, como quer a extrema-direita, de uma qualquer metafísica nacionalista.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

As máscaras caem


Os dois governos na vanguarda do neo-feudalismo financeiro - os EUA e o Reino Unido - já nem se dão ao trabalho de esconder a mão depois de atirar a pedra. Este artigo do PÚBLICO é elucidativo.

domingo, 11 de agosto de 2013

Ser Republicano - de "res publica," pois claro

O Republicanismo - no sentido original, hoje pervertido, que presidiu à criação do Partido Republicano dos Estados Unidos da América - é uma doutrina política que se define, não pela oposição à monarquia, mas pela defesa e aperfeiçoamento da "coisa pública". Pode haver um Republicanismo monárquico, mas não pode haver, sem fraude, um Republicanismo anti-democrático, nem tampouco um Republicanismo que não reconheça e valorize a existência de uma esfera pública na sociedade; esfera esta distinta, quer da esfera privada, quer da esfera estatal. O Republicanismo não se reconhece, nem nos Mercados Absolutos que sacralizam a posse, nem nos Estados Absolutos que sacralizam o poder.

Quem conheça a "Coisa" que hoje se faz passar por Partido Republicano nos Estados Unidos da América achará incompreensível que um partido com este nome se tenha batido no século XIX, contra o Partido Democrático, pela abolição da escravatura. Mas esta é uma luta perfeitamente compatível com a idiossincrasia Republicana, que não reconhece valor absoluto à propriedade privada que os esclavagistas invocavam como plataforma moral.

A mesma idiossincrasia é hoje avessa - mais ou menos em consciência e em maior ou menor grau - à mercantilização do trabalho, à quase obrigatoriedade do trabalho assalariado e à servidão daqueles, e somos quase todos, para quem o aluguer de si próprio é condição de sobrevivência. Já aqui o escrevi: o trabalho assalariado, tal como hoje o conhecemos, é demasiadas vezes uma prostituição como qualquer outra. Numa "Polis" funcional, numa República decente, numa Democracia liberal prostitui-se quem quer, mas ninguém deve ser compelido, pela força de outrem ou pela necessidade das circunstâncias, a prostituir-se.

A propriedade privada é, diz-se com razão, condição necessária da liberdade. Mas o mesmo se dirá, por maioria de razão, do rendimento incondicional. Não se trata de abolir o trabalho: trata-se de instituir, de acordo com o mais autêntico espírito Republicano, o trabalho livre.


sábado, 10 de agosto de 2013

Um dia alguém há-de pagar por isto

O neoliberalismo tem guerras permanentes. O neoliberalismo tem baixas colaterais. O neoliberalismo tem campos de concentração, como o nazismo. O neoliberalismo tem torcionários, presos políticos e gulags. O neoliberalismo tem prisões secretas e tribunais secretos, como o Antigo Regime. Tem homens com máscaras de ferro. O neoliberalismo tem leis secretas, como os imperadores chineses e os ministros de Henrique VIII. O neoliberalismo tem assassinos profissionais. O neoliberalismo tem uma aristocracia sem nenhuns deveres e com todos os direitos: as oligarquias financeiras e as corporações multinacionais.

O neoliberalismo tem até um clero: os economistas. O neoliberalismo tem o seu Santo Ofício, os seus Savonarolas e os seus Torquemadas. O neoliberalismo ainda se há-se sentar no banco dos réus.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Life of Pi (Excerto)

"I must say a word about fear. It is life's only true opponent. Only fear can defeat life. It is a clever, treacherous adversary, how well I know. It has no decency, respects no law or convention, shows no mercy. It goes for your weakest spot, which it finds with unerring ease. It begins in your mind, always. One moment you are feeling calm, self-possessed, happy. Then fear, disguised in the garb of mild-mannered doubt, slips into your mind like a spy. Doubt meets disbelief and disbelief tries to push it out. But disbelief is a poorly armed foot soldier. Doubt does away with it with little trouble. You become anxious. Reason comes to do battle for you. You are reassured. Reason is fully equipped with the latest weapons technology. But, to your amazement, despite superior tactics and a number of undeniable victories, reason is laid low. You feel yourself weakening, wavering. Your anxiety becomes dread.
    Fear next turns fully to your body, which is already aware that something terribly wrong is going on. Already your lungs have flown away like a bird and your guts have slithered away like a snake. Now your tongue drops dead like an opossum, while your jaw begins to gallop on the spot. Your ears go deaf. Your muscles begin to shiver as if they had malaria and your knees to shake as though they were dancing. Your heart strains too hard, while your sphincter relaxes too much. And so with the rest of your body. Every part of you, in the manner most suited to it, falls apart. Only your eyes work well. They always pay proper attention to fear.
    Quickly you make rash decisions. You dismiss your last allies: hope and trust. There, you've defeated yourself. Fear, which is but an impression, has triumphed over you."

terça-feira, 16 de julho de 2013

Mecânica quântica

O gato de Schrödinger Partido Socialista está simultaneamente vivo e morto. Estará vivo ou morto quando alguém abrir a caixa.