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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Futuro Passado e o Futuro Futuro

Quem atingiu a idade adulta antes ou durante a década de 70 do século passado recorda-se, por certo, da enorme carga semântica então associada à expressão "ano 2000." O ano 2000 era o futuro, e era nele que projectávamos todas as nossas esperanças e os nossos medos; e praticamente ninguém resistia à tentação de fazer as suas previsões para essa data. Foi nessa altura que apareceu a profissão de "futurólogo", hoje parcialmente desacreditada, e foi nesta altura que as grandes empresas começaram a financiar think tanks mandatados para reflectir sobre aquilo a que se poderia chamar, com a devida vénia a Vieira e a Heinlein, a História do Futuro. Tão presente estava a ideia de futuro na década de setenta, e tão associada ao número mágico do fim do milénio, que ainda hoje algumas pessoas sofrem, como eu, duma espécie de dissociação cognitiva: o ano 2000 já pertence ao passado, mas apesar disto ainda simboliza vestigialmente o futuro.

Lembrei-me disto ao ler o que escreveram sobre o futuro - o futuro de hoje, e não o de há quarenta anos - dois reputadíssimos economistas: Gregory Clark e Paul Krugman. Nenhum deles é mais imune que qualquer de nós à tentação de fazer futurologia, embora ambos resistam a estabelecer como data mágica o ano 2100.

O que achei curioso nos dois textos, mas não surpreendente, foi o facto de preverem dois futuros quase opostos. Previsões contraditórias não são nada a que eu não estivesse habituado: a diferença, para mim, está em que agora sou mais velho e não me sinto na obrigação intelectual de arbitrar entre as duas.

Clark leva-se mais a sério que Krugman. O seu artigo parece dizer nas entrelinhas que, ou as coisas se passam como ele prevê, ou a alternativa é demasiado horrível para se imaginar. E o que prevê Clark? Basicamente, o fim do trabalho. Neste futuro só uma minoria qualificada terá acesso ao emprego. A maioria, inútil do ponto de vista económico mas não negligenciável do ponto de vista da sua capacidade disruptora, terá que ser subsidiada (outros diriam subornada) pelos que têm acesso ao trabalho ou à riqueza. Isto implicará um aumento inexorável dos impostos a que nem a sociedade americana, fundada sobre a resistência a estes, poderá resistir. Deste modo caberá ao capitalismo realizar, de um modo faseado e subreptício, a promessa comunista: de cada um conforme as suas capacidades, a cada um conforme as suas necessidades.

O artigo de Krugman, supostamente escrito em 2096, apresenta-nos um futuro radicalmente diferente deste, desde logo porque se apresenta como um exercício lúdico, relevante do puro prazer da especulação intelectual. O Século XXI, para Krugman, caracterizar-se-á por um crescente aumento do preço das matérias primas e pela crescente privatização e mercantilização de bens até agora comuns, como o ar e a água. Os governos venderão às empresas, e as empresas umas às outras, direitos sobre a poluição e sobre as externalidades negativas da sua actividade. As receitas desta venda tornar-se-ão tão vultuosas que o imposto sobre o rendimento acabará por ser abolido - exactamente ao contrário do que prevê Clark.

O preço da mobilidade individual crescerá tanto que as pessoas terão de novo necessidade de viver perto do lugar de trabalho. Consequentemente, as cidades voltarão a crescer.

Não haverá "sociedade da informação" nem "economia do conhecimento": a informação será tão fácil de produzir, manipular e distribuir que perderá a maior parte do seu valor de mercado e dará lugar, como hoje a agricultura, a muito poucos empregos. Este facto, conjugado com o facto de os seres humanos concretos não consumirem directamente informação, mas sim bens materiais, levará a uma perda de estatuto social e económico para os académicos e os letrados (incluindo os economistas) e ao correspondente ganho de estatuto para o trabalho manual qualificado, como o de canalizador, prestador de serviços domésticos ou auxiliar de lar de idosos.

Haverá, sim, uma "economia da celebridade". Os criadores culturais e científicos não derivarão os seus rendimentos dos seus direitos de autor - a facilidade da cópia tornará isto impossível - mas dos seus direitos de imagem, que utilizarão para vender produtos que não terão nada ou quase nada a ver com o que produziram directamente. (Não podemos deixar de pensar, a propósito desta previsão, no papel de Cristiano Ronaldo como vendedor de T-shirts.) Nem todos, é claro, terão acesso à celebridade, mas este facto desagradável será mitigado pela enorme diversidade social que levará à formação de inúmeras micro-sociedades dentro das quais muitas pessoas poderão ser célebres.

Qual é a probabilidade de a previsão de Krugman, ou a de Clark, se tornar realidade? Diminuta, direi eu. E aqui volto ao tema do "futuro passado" com que iniciei este texto: em que medida se cumpriram as previsões dos futurólogos e dos think tanks?

Os telefones portáteis, considerados uma impossibilidade física devido às limitações do espectro rádio-eléctrico, estão aí. Os computadores pessoais também: não custam fortunas, não ocupam enormes salas climatizadas e não são operados por técnicos de bata branca. A semana de trabalho de oito ou dez horas, prevista quase como uma inevitabilidade, não se materializou (ainda hoje não compreendo porquê). A União Soviética implodiu (talvez seja esta uma das razões). O petróleo e as outras matérias-primas não se esgotaram como previa o Clube de Roma. A percentagem de seres humanos com fome ainda é escandalosa, mas diminuiu em vez de aumentar. Não só ainda não chegámos a Marte, como nem sequer voltámos à Lua. A Aldeia Global de McLuhan está atomizada por clãs que se desconhecem e odeiam, e a Terceira Vaga de Toffler parece que afinal não dispensa a continuação da segunda.

Olhando para trás, vemos que os economistas, os cientistas sociais e os participantes nos think tanks erraram em quase tudo. Quem errou muito menos foram os romancistas, e no caso deles estamos a falar em previsões feitas, não nos anos 70, mas nos 40. Arthur C. Clarke previu, num conto de Ficção Científica, o satélite de comunicações geoestacionário; e quem hoje olhar à sua volta não terá dificuldade em encontrar no mundo actual numerosos elementos, quer do Nineteen Eighty-Four de Orwell, quer do Brave New World de Aldous Huxley. Menos óbvia, porém presente, é a realização parcial doutras distopias menos conhecidas, como Facial Justice de J. P. Hartley ou 1985 de Anthony Burgess. É estranho que nem Orwell nem Huxley tivessem previsto as armas nucleares ou a Guerra Fria, quando dispunham de elementos para isso; mas esta omissão é menor comparada com o muito em que acertaram.

Hoje, as melhores previsões do futuro (o que não significa as mais acertadas) podem talvez ser encontradas em narrativas cyberpunk como as de Neal Stephenson.

Quer isto dizer que não compensa ler os artigos de Clark e Krugman? Nem por sombras: como previsões, falharão quase de certeza; mas enquanto não falham são extremamente gratificantes de ler. De entre os dois, apostaria mais facilmente no de Krugman: não por ele ser necessariamente melhor economista, mas por ser, pelo menos neste texto, mais escritor.

Àqueles que mesmo assim ainda querem ter uma ideia do que nos espera, atrevo-me a dar este conselho: não percam tempo a ler os futurólogos; leiam antes os poetas.

(Reformulado às 22:25)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Trabalhar muito, trabalhar pouco

Vemos um homem num banco do jardim a ler o jornal. Estará a trabalhar? Claro que não, está a gozar o seu tempo livre. Pode ser que esteja reformado e a gozar o ócio a que quarenta anos de trabalho lhe deram direito; pode ser que seja Sábado e ele esteja a aproveitar o fim da manhã, enquanto a mulher acaba de cozinhar o almoço; pode ser que estejamos num dia útil e que aquele homem seja um trabalhador que faz uma pausa entre o seu trabalho da manhã e o da tarde. Em todo o caso: aquela leitura de jornal não é o que normalmente se considera tempo de trabalho. É tempo de ócio.

Façamos um zoom e olhemos com atenção para o jornal. Não está, como tínhamos imaginado, escrito em português: está em alemão. O título é Die Zeit ou Die Welt. Pela pasta que o homem tem ao seu lado, no banco de jardim, e pelos papéis espalhados ao lado, concluímos que é professor de alemão nalguma escola secundária.

E é aqui que a nossa perspectiva se complica: o homem está a trabalhar ou está a gozar o seu tempo livre? A avaliar pela expressão do rosto, a leitura está a dar-lhe o mesmo gozo que a do Diário de Notícias daria ao reformado da nossa primeira hipótese; mas por outro lado sabemos que, com prazer ou sem ele, está a treinar capacidades que na sala de aula lhe competirá ensinar. Lembramo-nos dos jogadores de futebol: só estão a trabalhar enquanto jogam? Ou também trabalham quando treinam? A certa altura vemo-lo estender a mão para a pasta, pegar numa esferográfica, descrever um círculo à volta de um artigo: terá encontrado um texto para utilizar mais tarde num teste, ou numa aula? Não sabemos. Só sabemos que não sabemos se o homem está ou não está, naquele momento, a trabalhar.

Admitamos agora que o nosso professor de alemão anda a ser seguido por um perito em eficiência ao serviço do Ministério da Educação, que anota todos os seus actos com o fim de apurar a sua utilidade. Como classificará este inspector taylorista esta actividade a que assistiu? Se ela durou meia hora, será classificada como meia hora de ócio, ou como meia hora de trabalho? Ou optará o nosso inspector por distribuir estes trinta minutos pelas duas classificações? E neste caso, em que proporção? Em partes iguais? Dez minutos de trabalho e vinte de ócio? Vinte minutos de trabalho e dez de ócio?

Pela minha parte, confesso que não gostaria de estar na pele deste hipotético inspector.

Tudo isto vem a propósito de um comentário feito por um leitor ao meu artigo «Trabalhar menos, ensinar mais»:

«É muito difícil para uma pessoa normal compreender que um professor, que trabalhava 22 horas por semana e que tinha montes de férias, trabalha muito.»

Com efeito é muito difícil. Se é difícil, como vimos, para um hipotético perito em eficiência, muito mais difícil será para uma «pessoa normal».

Para uma pessoa normal, é difícil imaginar que se os testes aparecem elaborados é porque alguém os elaborou, se aparecem corrigidos é porque alguém os corrigiu. Uma pessoa normal não sabe, nem tem que saber, quantas reuniões de Conselho de Turma tem cada professor no fim de cada período. Se essa pessoa normal for um aluno, sabe que o seu professor tem uma turma: a sua. Das outras, tem uma vaga ideia. E muito menos sabe da existência de reuniões intercalares.

Não sabe das reuniões de Área Disciplinar, de Grupo ou de Disciplina. Não sabe da infinidade de actas, obrigatoriamente escritas à mão, a que essas reuniões dão origem. Não sabe das grelhas que é preciso preencher, das matrizes que é preciso elaborar e arquivar, dos relatórios que é preciso redigir, das estatísticas que é preciso entregar já prontas à tutela, das fichas personalizadas (uma por aluno), da informação redundante que é preciso registar, muitas vezes, em meia dúzia de suportes diferentes.

Não sabe das centenas de páginas de livros, de revistas, de sites da net que é preciso consultar para elaborar um textinho de meia página para dar aos alunos, textinho este que depois é preciso adaptar, transcrever e fotocopiar na quantidade necessária.

Uma pessoa normal não sabe nada disto, porque não vê. Só vê as aulas. Uma pessoa normal está para os professores como um adepto de futebol que não soubesse o que é um treino e imaginasse que os jogadores trabalham hora e meia por semana, aos domingos, que é o tempo que dura um jogo.

Uma pessoa normal acha que quando os alunos estão de férias os professores também estão. Nem lhe passa pela cabeça que o mês de Julho seja o mais trabalhoso no calendário de qualquer professor - devido ao pesadelo burocrático que é a época de exames e à logística paranóica que os sustenta.

E não sabe que, mesmo no tempo já longínquo em que os professores tinham «montes de férias», essas férias eram mais que merecidas. Acreditem-me: eram mais que merecidas.

Por serem mais que merecidas é que em todos os países que conheço - e conheço bastantes - as férias dos professores são bem mais longas do que em Portugal, para além de serem bem mais longas do que as dos outros trabalhadores. Não direi que isto não suscita invejas: a inveja é um vício especialmente português, mas não é exclusivamente português. Mas Portugal é, que eu saiba, o único país em que vários governos ditos responsáveis cederam a essa inveja - mais do que isso, incentivaram-na - em vez de explicar aos cidadãos que essas longas férias são justificadas e úteis, no cômputo geral, para toda a gente.

Quem conhece as escolas por dentro sabe há muitos anos que os professores trabalham muito: num país em que geralmente se trabalha demais os professores, caso se resignem a não ensinar ou a ensinar pouco, trabalham mais ou menos o mesmo que as «pessoas normais»; e mais ainda se quiserem ensinar alguma coisa. Sempre foi assim. Os professores nunca protestaram muito contra o excesso de trabalho porque em Portugal protestar contra o excesso de trabalho é malvisto - culturalmente valoriza-se mais o trabalhar muito do que o trabalhar bem - e porque de um modo geral têm suficiente brio na sua profissão para não medirem tempo nem esforço.

O que mudou com esta ministra? Mudou que sobrecarregou de tal maneira os professores com tarefas inúteis que não só lhes tirou o pouco tempo livre que tinham, como lhes roubou o tempo de ensinar. Os ministros anteriores tinham contra si muitos professores; esta tem contra si quase todos, e especialmente os melhores - os que lêem Die Zeit, o Time Magazine ou o Nouvel Observateur; os que assinam revistas de Química, de Biologia ou de Informática; os que aproveitam quase todos os momentos de «ócio» para tirar notas mentais do género «isto é-me útil para as aulas, aquilo não».

Durante muitos anos os professores perdoaram aos vários ministros as centenas ou milhares de horas de trabalho excessivo, burocrático e inútil a que foram obrigados. O que não perdoam nem perdoarão a esta é que, surfando na inveja nacional, esteja a multiplicar este trabalho a tal ponto que impede os professores de ensinar.