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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Nas escolas da Europa

Nas escolas da Europa adoptam-se manuais escolares feitos de forma a que seja possível estudar por eles.
Nas escolas da Europa os manuais são fornecidos aos alunos no início do ano lectivo: se no fim do ano estiverem escritos ou danificados, há que os pagar.
Nas escolas da Europa fornecem-se os cadernos, os lápis, as borrachas, as esferográficas, os compassos; aos alunos é exigido que façam uma gestão cuidadosa do material escolar.
Nas escolas da Europa há aquecimento central.
Nas escolas da Europa o chão está sempre limpo.
Nas escolas da Europa os alunos podem (em algumas é obrigatório) andar descalços de Verão e de Inverno.
Nas escolas da Europa lêem-se os clássicos.
Nas escolas da Europa ensina-se gramática.
Nas escolas da Europa fazem-se ditados.
Nas escolas da Europa as calculadoras só são permitidas quando o objecto de estudo é o seu uso.
Nas escolas da Europa decoram-se poemas.
Nas escolas da Europa fazem-se traduções e retroversões.
Nas escolas da Europa os professores são respeitados.
Nas escolas da Europa os professores são avaliados: os que ensinam bem são bons e os que ensinam mal são maus.
Nas escolas da Europa os pais pagam multas quando os alunos faltam; em alguns países, se a infracção se repete, podem ser presos.
Nas escolas da Europa combate-se o bullying.
Nas escolas da Europa os pais respondem perante a lei pelos actos de indisciplina ou violência dos filhos.
Nas escolas da Europa há currículos diferentes para projectos de vida diferentes.
Nas escolas portuguesas redigem-se actas, elaboram-se grelhas e preenchem-se formulários. Quando as coisas correm mal redigem-se mais actas, elaboram-se mais grelhas e preenchem-se mais formulários. Os professores agora também são avaliados: se redigirem muitas actas, elaborarem muitas grelhas e preencherem muitos formulários, serão bons; se não, serão medíocres. E se para cúmulo tiverem a prepóstera veleidade de ensinar, serão considerados maus.

9 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

É verdade: nas escolas portuguesas é só actas e mais actas... e as aprendizagens ficam ausentes. Um bom retrato do ensino.
Um abraço

alf disse...

Eu posso ser um grande ingénuo, um utópico, mas faz-me confusão os professores em Portugal agirem como se não tivessem nada a ver com o ensino. É tudo culpa do ministério.

Não caberá aos professores influenciar o sistema? Não deveriam ter uma organização de classe que tivesse uma palavra a dizer sobre o assunto?

É que o sistema de ensino compoe-se quase exclusivamente de professores. Não se trata de apenas um de muitos grupos profissionais no sistema - são o único grupo!!!

Os professores têm o monopólio do ensino! Isso dá-lhes muita força - e isso vê-se nas suas condições salariais, bastante melhores que muitos outros funcionários publicos com identicas habilitações. E não as contesto, acho muito bem. Só não percebo porque não surgem como um parceiro em questões relativas ao ensino.

O primeiro ministro até já falou em multar os pais. Os maus comportamentos não podem ficar impunes. Os professores fizeram algo para apoiar?

Os professores já reinvindicaram alguma das medidas apontadas neste post? Ou só reinvindicam o fim das aulas de substituição?

Por falar nisso: na europa os professores também faltam e não querem aulas de substituição?

Não vejam nestas minhas palavras uma agressão gratuita. Tenho conhecido extraordinários professores. Quero apenas deixar um alerta: melhorar o estado das coisas depende de todos nós. Punhamos os neurónios a funcionar para descobrir o que podemos fazer.
Doutra forma, os bons professores estão só a fazer o jogo dos maus, que o querem é contestar, contestar, quanto pior melhor para eles. Chateia-me colaborar com os maus.

E outra coisa: ninguém fora do ensino é capaz de entender que os professores possam achar que não têm nada a ver com o estado do ensino e que a culpa é toda do ministério. Por isso, a não ser que estes lamentos sejam apenas conversa caseira, importa que clarifiquem as responsabilidades do professor, que não são certamente a de dar educação a crianças que cresceram selvagens ou a de se substituir aos pais.

Um pai é um pai, um professor é um professor. A cada um a sua responsabilidade.

Eu sei que isto são palavras duras, mas a intenção é de amigo. Será possivel mobilizar os professores para que passem a assumir-se como parceiros em matéria de ensino, com uma palavra a dizer nestas questões?

perguntava ao autor deste blogue: como estão os professores organizados na Europa? Será que uma diferença entre a europa e nós em matéria de organização de professores pode ser geradora da diferença na maneira como as coisas funcionam?

José Luiz Sarmento disse...

Obrigado pela sua frontalidade, alf.
Vamos começar pela questão da organização profissional. Há coisa de vinte anos andei emprenhadíssimo na criação duma Ordem de Professores que tivesse como funções principais certificar competências e criar um código deontológico.

Esta tentativa mobilizou muitas pessoas, mas saldou-se numa derrota. O governo combateu-nos porque já nessa altura estava empenhado em reduzir o poder das profissões e da sociedade civil.

Os fazedores de opinião, traumatizados ainda pelo salazarismo, horrorizaram-se: mais uma corporação, nunca, jamais, em tempo algum.

Mas o nosso principal adversário foram os sindicatos. Se o governo queria os professores proletarizados, os sindicatos também, e de um modo ainda mais determinado.

Ora isto nunca chegou aos media, apesar de ter mobilizado muitas centenas de pessoas, algumas de grande talento e estatura, durante vários anos. Não passou; e o resultado é que você diz, cpm base na informação de que dispõe, que os professores «se põem de fora».

Não pôem. Quando quiseram assumir uma deontologia profissional que os responsabilizasse, foram impedidos de o fazer. E hoje os que querem assumir responsabilidades continuam a ter contra si a mesma santa aliança de há vinte anos: o governo, os sindicatos, a burocracia ministerial e a classe sacerdotal do eduquês.

E também por aqui já vê que os professores não são os únicos profissionais presentes no sistema, longe disso: estão enquadrados por uma caterva de juristas, economistas, gestores, assessores, especialistas em educação que nunca deram uma aula, etc. Toda essa gente defende ciosamente os seus feudos e o seu poder. E a ministra, que podia e devia estar com os professores contra eles, está com eles contra os professores.

José Luiz Sarmento disse...

Mas reparo agora que não respondi à sua questão sobre a organização dos professores na Europa. Não lhe sei responder em relação a todos os países, mas posso dizer que na Suíça - onde não há ministério da educação nem estrutura equivalente - a gestão do sistema compete a uma rede em que os professores desempenham um papel importante.

Como sabe, a Suíça está dividida em 26 cantões que gozam de considerável autonomia política. Cada cantão está devidido em várias comunas e é a nível da comuna que a política educativa se faz. Daqui resulta que não há uniformidade nos currículos - cada escola ensina mais ou menos o que entende - nem nas teorias pedagógicas - que variam entre o conservadorismo mais extremo e o mais extremo vanguardismo.
Em cada escola a gestão pedagógica incumbe a um reitor, que é sempre um professor. A gestão administrativa incumbe, em dada comuna, a uma espécie de provedoria (é a melhor tradução que encontro para Schulpflege), que é um órgão eleito pelos cidadãos e geralmente - embora não obrigatoriammente - presidido por um professor. As campanhas eleitorais para este órgão costumam ser bastante renhidas, uma vez que a posição dá prestígio social a quem a ocupa e, no caso dos professores, também prestígio profissional.

A Schulpflege contrata os professores e os funcionários (muito poucos) das escolas. Decide, juntamente com os reitores, sobre os regulamentos internos e as questões disciplinares. E negoceia com o governo cantonal as questões de financiamento.

A coordenação disto tudo, porém, compete só aos professores, que reúnem a nível de comuna, de cantão e de federação para acertar o que precisa de ser acertado.

Há legislação a que é necessário obedecer, mas pouca e simples, e que nunca passaria pela cabeça aos governos cantonais ou federal aprovar sem ser em concertação com as conferências de professores.

Não sei se reparou numa coisa curiosa: se por um lado os pais têm um poder enorme a nível de cada comuna - uma vez que elegem a estrutura que emprega os professores - por outro não têm poder nenhum a nível cantonal ou federal. Os interlocutores do poder político a este nível são os professores e não os pais. Talvez possamos ver nisto um sistema de checks and balances.

Os sindicatos são poderosos mas são obrigados a negociar localmente, o que é bom para os professores e bom para o sistema.Como as comunas competem pelos melhores professores, os salários tendem a ser elevados, assim como o nível de competência; e como a noção de competência é estabelecida a nível local, há a tendência de estar mais ligada à real capacidade de ensinar do que às fantasias pedagógicas em voga noutros países.

Sei menos em relação à França. Sei que os sindicatos dos professores são poderosos e combativos, mas também há associações muito activas que funcionam um pouco como em Portugal os Colégos de Especialidade da Ordem dos Médicos (foi com isto que eu sonhei um dia...).

No Reino Unido as coisas estão mal. Thatcher fez mais ou menos o que Sócrates está a tentar fazer aqui, e o resultado é que a profissão se tornou tão penosa que já têm que recorrer à imigração para recrutar professores.

Espero ter respondido à sua pergunta, pelo menos em parte. Um abraço.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Muito interessante a intervenção de "alf". Merece ser pensada.

Carlos HP disse...

Portugal é o país mais atrasado da Europa. Somos constantemente ultrapassados pelos novos países aderentes à Comunidade Europeia. Temos os piores números em quase tudo, temos os piores empresários, os piores juizes, os piores políticos, etc. Porque é que os alunos haveriam de ser mais que isto? A culpa é dos professores, dizem muitos. Quando vejo na televisão abordarem universitários que não sabem a tabuada ou outras matérias elementares pergunto-me como é possível não ver o óbvio...

Carlos HP disse...

Gostaria que comentassem o seguinte paradoxo: os nossos fazedores de opinião consideram que é nas autarquias que se verificam maiores índices de corrupção. Porém, também consideram que a Educação deveria ser da responsabilidade das autarquias porque está mais próxima dos cidadãos e por isso é mais facilmente fiscalizável por eles...

José Luiz Sarmento disse...

Bom, Carlos, é claro que a atribuição de mais poderes às autarquias teria que ser acompanhada de um ataque mais eficaz à corrupção.

Não creio que esse ataque, para ser eficaz, deva passar por mais regulamentação ou por um controlo mais apertado. Pelo contrário: se por um lado há autarcas que são corruptos por ganância e desonestidade ingénita, outros há que são corruptos porque o sistema eleitoral e de financiamentos partidários não lhes deixa alternativa; e outros ainda acabam por se corromper porque os constrangimentos burocráticos a que estão sujeitos são tão apertados e complicados que só contornando a lei lhes é possível servir os cidadãos.

A solução não está, como é óbvio, em manter a corrupção retirando poderes ás autarquias. Está em dar-lhes ao mesmo tempo mais poder, mais autonomia e mais responsabilidade.

Ou então, no que respeita as escolas, fazer como na Suíça: entregar as responsabilidades sobre a administração do ensino, não às autarquias, mas a «provedorias» locais eleitas expressamente para o efeito.

Nos EUA há os «school boards», entidades sobre as quais sei pouco para além do facto de serem também órgãos eleitos - não sei se pela população total, como na Suíça, se pela população ligada especificamente à escola (pais e alunos).

Enfim, há por esse mundo muitas soluções diferentes que não passam pela existência de um Ministério da Educação.

E era bom que em Portugal esta estrutura também não existisse, porque tem inúmeras desvantagens - a começar no dispêndio de avultadíssimos recursos financeiros e humanos que fazem falta nas salas de aula, e a acabar na imposição, em matéria pedagógica, dum pensamento único que seca tudo à sua volta.

alf disse...

José Luis Sarmento

Desculpe mas não tive oportunidade de acompanhar esta discussão em tempo útil.

A sua resposta é muito esclarecedora e completa. Obrigado.

Não imaginava que já tivesse existido tal esforço para pôr de pé uma ordem dos professores; aqui há uns meses lancei essa sugestão e foi mal recebida - os professores parecem temer um novo "orgão de controlo"...

Os exemplos que deu dos outros paises são muito esclarecedores da dificuldade e da importancia da organização do sistema de ensino.

A verdade é que a questão é muito complexa, não há soluções simples nem perfeitas. Mas podemos, pelo menos, escolher o caminho; e em mim há uma atitude visceral, instintiva, muito forte: nunca voto em pessoas que se sabe serem vigaristas nem nunca me ponho ao lado das pessoas que não tomo para exemplo.

Ou seja, eu sei o que convem aos maus professores, conheço alguns, e sei que reinvidações ou atitudes que servem os interesses deles não servem os interesses dos outros, mesmo que, pontualmente, o pareça; se a atitude deles é de contestação sistemática, os outros devem procurar uma atitude mais positiva, podem pôr-se no papel de julgadores das decisões do ministério mas isso não é o mesmo que ser sistematicamente contra - há coisas boas e outras más. E devem ter a coragem de fazer propostas. Contestar por contestar é facílimo, propor alternativas é que já não para todos.

Um abraço e desejo que da sua acção, que já vem de longe, nasça a esperança de um ensino melhor para todos os abraçaram esta nobre profissão