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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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sexta-feira, 31 de julho de 2009

Para que serve a cultura?

Se esta pergunta me fosse feita por um gestor ou por um economista, eu responder-lhe-ia que estava feita ao contrário: não é a economia que pede contas à cultura, é a cultura que as pede à economia.

No entanto, a pergunta, feita num contexto que não seja estreitamente utilitário, faz sentido e merece resposta. Para que serve a cultura?

Uma resposta possível, implícita no que escrevi acima, é que não serve nem tem que servir para nada. A cultura é um fim em si mesma. A vida que não é examinada não é digna de ser vivida, dizia Sócrates: vivemos para filosofar, não filosofamos para viver. A vida sem cultura, depreende-se, pode ser vida, mas não é vida humana.

Outra resposta é que só a cultura permite a liberdade. Não a garante: apenas a permite. O homem ignorante, o homem primário, erige à sua volta uma prisão feita de convencionalismos, frases feitas, mitos urbanos, slogans e superstições. Não ousa dar um passo fora dela; por vezes nem se apercebe da existência de um mundo exterior. Não sofre com o seu cativeiro.

Mas se tem poder suficiente para obrigar outros a partilhá-lo, esses sofrem. A normalidade, que é a utopia dos medíocres, é a distopia de quem sabe que há mais mundo. Transmutada pelo jargão tecno-burocrático, a normalidade torna-se normalização: nem por isso é menos desumana.

A incultura de que falo não é só a dos iletrados. Pode ser a que resulta da hiper-especialização. O homem ou a mulher que detém um só saber tende a ver nele a explicação cabal do Mundo e do Homem: vemos isto hoje em muitos economistas, especialmente nos neoliberais, mas neste particular os economistas não são - longe disso - caso único.

Ou pode ser a incultura que resulta da mera erudição, que só sabe pensar o que já foi pensado.

O pensador, o cientista, o artista, o professor têm a seu cargo a liberdade de todos. A escola não serve para normalizar as pessoas (como a União Europeia faz à fruta): serve para as equipar com os recursos de pensamento e de percepção que lhes permitirão, se quiserem, fugir à norma. A política educativa não é subsidiária da política económica. É isto que nenhum burocrata da educação ou técnico da OCDE jamais entenderá.

4 comentários:

Austeriana disse...

A forma como os estudos ligados às Humanidades têm sido relegados para um patamar secundário dos saberes é vergonhosa. O que "está a dar" é Informática, Economia, Gestão e afins... Curiosamente, os discursos (com o objectivo de divulgar as políticas educativas e não só) acabam por utilizar como uma espécie de "prova" dos argumentos apresentados, tiradas colhidas nas áreas das Humanidades. O resultado é que essas tiradas acabam por ser o que permanece de toda a retórica demagógica...
A escola devia servir para fornecer "ferramentas" às pessoas que permitam compreender e orientar as vidas à medida de cada um. Conforme muito bem refere, os indivíduos não são fruta.
Do meu ponto de vista, as áreas das Humanidades ajudam-nos a compreender as idiossincrasias do Homem. Esta é uma verdade digna de La Palisse mas infelizmente tenho que concordar consigo: dificilmente algum burocrata da educação ou técnico da OCDE entenderá a necessidade de cultivar a diversidade... Excelente post.

Rui Herbon disse...

Muito bom. Não posso estar mais de acordo.

touaki disse...

Subsescrevo!
Pim!Pam!Pum!

Mário Machaqueiro disse...

Também subscrevo inteiramente. Mas com uma pequena reserva ou, melhor dizendo, uma adenda: a cultura não protege, por si só, da barbárie. Lembremos a imagem do comandante nazi de um campo de extermínio que, depois de um dia a supervisionar uma fábrica de assassinato de seres humanos, escutava calmamente no remanso do lar uma sinfonia de Beethoven (talvez a 9.ª, para que a obscenidade fosse maior). O facto de homens de cultura serem capazes de perpetrar os mais inomináveis crimes contra a humanidade (diria: contra a sua própria humanidade) obriga-nos a pensar melhor a essência da cultura - para usar uma expressão que Heidegger não desdenharia, ele que foi, ao mesmo tempo, um dos maiores filósofos do século XX e alguém que pagou as quotas de militante do partido nazi até 1945.