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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Será que Sócrates quer mesmo uma maioria absoluta?

Faço esta pergunta porque eu, no lugar dele, não queria. Mas José Sócrates é suficientemente ignorante para não se dar conta do enorme sarilho em que está metido: não sabe História, não sabe Filosofia, não sabe Economia, não sabe Sociologia, não sabe Psicologia, não sabe Direito, não sabe Ciência Política, e mesmo de Engenharia não deve saber grande coisa. Tem, provavelmente, umas luzes de marketing político, mas mesmo nisto deve depender mais dos conhecimentos dos seus conselheiros e assessores do que dos seus próprios. A única coisa de que ele deve saber verdadeiramente é táctica política: disto, deve ele saber realmente muito, provavelmente até o suficiente para obter um doutoramento em Ciência Política ao abrigo das Novas Oportunidades.

Qualquer político, ao chegar ao poder, tem que escolher os seus aliados e os seus inimigos. Esta escolha é sempre arriscada porque é sempre feita com base em informação insuficiente; mas é uma escolha a que não é possível fugir. Sócrates escolheu como aliados os barões do sector financeiro, do sector energético e da comunicação social. Foi uma escolha acertada à luz dos conhecimentos de que dispunha. Não podia adivinhar que hoje os barões da banca estivessem demasiado ocupados em salvar a sua própria pele para se preocuparem com a dele, que os da energia estariam suficientemente internacionalizados para já não precisarem dele, e que os da comunicação social estariam a ver onde param as modas para decidirem se hão-de continuar a apoiá-lo ou se hão-de passar a atacá-lo. Resta-lhe uma nova aliança: os barões da construção civil. Se, na próxima legislatura, José Sócrates ainda for Primeiro-Ministro e avançar com o programa de obras públicas que prometeu, poderá contar com a fidelidade canina desta gente; o único óbice é que vai ser um pouco constrangedor ter que se apresentar em público nesta companhia, mas a necessidade manda.

Se lhe podemos perdoar a má escolha de aliados, já é mais difícil perdoar-lhe a má escolha de inimigos, porque, quanto a estes, já dispunha, ou disporia se quisesse, de um pouco mais de informação. O cálculo é fácil de entender: tinha que ter inimigos para ter a quem culpar do que eventualmente corresse mal; o PSD estava de rastos (como ainda hoje está) e não servia para este fim; a história dos comunistas que comem criancinhas ainda funciona, mas muito pior do que funcionava noutros tempos; e o BE era um osso demasiado duro de roer.

Assim, Sócrates escolheu como inimigo principal as classes profissionais, a que chamou "corporações". A escolha fazia algum sentido: apelava à inveja ancestral dos portugueses; possibilitava o discurso dos "privilégios", que é sempre a arma mais eficaz dos convocadores de pogroms; atacava a parte mais organizada da Sociedade Civil, aumentando assim o poder, não só da classe política, mas também, e sobretudo, da oligarquia económica. Para concitar o ódio da populaça sobre as classes profissionais, Sócrates dispunha, não só do discurso dos "privilégios", como do discurso da "resistência à mudança": as classes profissionais tendem, por instinto deontológico, a opor-se à salada de modismos, chavões empresariais e experimentalismos idiotas que Sócrates confunde com a modernidade.

Esta guerra, que parecia ter todas as condições para correr bem, correu-lhe horrendamente mal. Os médicos e os magistrados tinham, afinal, mais força do que ele julgava; e os professores, em vez de se desunirem como ele esperava, uniram-se e, pior que isso, estão a organizar-se de dia para dia. E ainda pior: já vai havendo sinais que não só cada uma destas classes se está a organizar internamente, mas também que se estão a organizar entre si. É natural: não há nenhum professor que não tenha contactos com médicos, nenhum médico que não tenha contactos com magistrados, nem nenhum magistrado que não tenha contactos com professores; e todos estão a tomar rapidamente consciência de que têm um inimigo comum, inimigo esse que é tão implacável como destituído de escrúpulos ou limites éticos.

Estas novas formas de organização da Sociedade Civil foram possibilitadas pelas novas tecnologias: não admira que Fernanda Câncio se insurja contra a blogosfera. Não é que a blogosfera esteja em condições (por enquanto) de concorrer directamente com a Comunicação Social clássica: trata-se antes duma diminuição considerável do poder político dos jornalistas, que decidiam sozinhos quem tinha e quem não tinha voz, enquanto hoje tem voz quem quer. A blogosfera está aí, não só para ficar, como para crescer.

Errar na escolha dos aliados e dos inimigos é o pior erro que um político pode cometer. A factura terá sempre que ser paga, e será pesadíssima. A única esperança de Sócrates (caso tenha consciência do sarilho em que está metido) é conseguir aguentar o tempo suficiente para que não seja ele a pagá-la, mas sim o seu sucessor.

E portanto eu, se estivesse no lugar de Sócrates, estaria neste momento a considerar cuidadosamente três cenários quanto aos resultados das legislativas de 2009: uma derrota face ao PSD, uma vitória com maioria relativa e uma vitória com maioria absoluta.

Uma derrota face ao PSD seria um péssimo resultado (embora não o pior, como veremos). Para começar, seria humilhante: seria como o campeão nacional perder um jogo em casa contra uma equipa da segunda divisão. Em segundo lugar, poderia custar a Sócrates a liderança do partido e obrigá-lo a uma longa travessia do deserto. Felizmente para Sócrates, trata-se de um cenário muito improvável.

A maioria relativa seria o resultado ideal: permitiria a Sócrates sair de cena graciosamente, sem que ninguém o pudesse acusar de ter fugido, com a reputação praticamente intacta, com um currículo apresentável e com uma travessia do deserto bastante curta pela frente. A catástrofe económica, política e social que aí vem abater-se-ia sobre o seu sucessor, e não sobre ele. Poderia até talvez começar a sonhar com a Presidência da República.

A maioria absoluta seria para Sócrates um desastre horrendo: quatro anos de inferno em que as classes profissionais, que nunca lhe vão perdoar, lhe fariam a vida negra; em que esta hostilidade implacável correria o risco de despoletar a insurreição geral das classes médias, da qual já vai havendo sinais um pouco por todo o mundo; o empobrecimento geral dos portugueses (com excepção de uns poucos, com os quais a opinião pública associa Sócrates e continuará a associar, que continuarão a enriquecer); um aumento das desigualdades económicas, já não acompanhado, como até há pouco tempo, dum aumento da tolerância social a estas desigualdades, mas da diminuição dessa tolerância. No fim dos quatro anos, uma reputação ainda mais de rastos que a de George W. Bush; e, inevitavelmente, a morte política.

Dar-se-á José Sócrates conta disto tudo? Possivelmente. Mas o mais provável é que se lhe aplique a citação de Pope: Os tolos entram de rompante onde os anjos mal ousam pisar.

9 comentários:

Anónimo disse...

Grande texto, merece ir para os jornais.

Miguel Ângelo disse...

Este texto é... divinal.

brit com disse...

Excelente!

Mário Machaqueiro disse...

Análise inteligentíssima, como sempre (e fico a pensar quando é que movimentos como a APEDE vão ter o prazer de conhecer o Luiz Sarmento pessoalmente). Mas, aqui para nós, importante mesmo é que o PS não tenha maioria absoluta nas próximas eleições. Até pode ser, ironicamente, bom para o Sócrates. Mas será certamente muito melhor para todos nós.

Anónimo disse...

Parabéns. Está fabuloso.

Margarida disse...

José Sócrates é um político excelente neste contexto histórico, político, social, cultural e artístico. Não deve ser menosprezado.

José Luiz Sarmento disse...

Margarida, José Sócrates sabe muito bem fazer política, e neste sentido muito restrito é, de facto, um político excelente.
Quanto ao resto, estou em completo desacordo consigo: o homem é inculto e perigosamente ignorante; é um mentiroso compulsivo, que mente até quando não tem qualquer vantagem nisso; é um medíocre que se rodeia de medíocres para não lhe fazerem sombra; fala de "modernidade" sem fazer a menor ideia do que isso é; fala do futuro como se só houvesse um futuro possível e não uma infinidade deles (o que é um discurso característico de todos os tiranos); julga que a cultura está ao serviço da economia, quando é exactamente ao contrário; e, pior que tudo, é um traidor: em vez de servir a República, como jurou fazer, serve interesses particulares em detrimento da República.

wargarida disse...

José Luiz,

talvez não estejamos em desacordo total já que quando referi "é um político excelente neste contexto" estava a pensar no ponto a que se chegou ... nunca a cultura, os valores e direitos humanos etc - desde que ando neste planeta - estiveram tão mal ...
Que é mentiroso é mas pelos vistos, até aí se safa já que existe aquela coisa da imunidade parlamentar ou o que é ... :/
Abraço,
m.

visiense disse...

Excelente texto, muito lúcido, e a fazer uma análise clara que muitos comentadores políticos reputados não têm coragem de fazer. Concordo, e já o disse antes, que Sócrates (ou os seus assessores) tem visão para marketing político, e é isso (juntamente com a total inabilidade e desunião do PSD) que o tem mantido, e ao PS, numa posição confortável nas sondagens. No entanto, quando se diz que ele é bom político, tenho de discordar. Em Portugal não conheço nenhum político na verdadeira acepção da palavra. Todos eles colocam os interesses dos seus partidos (ou os seus próprios) em primeiro lugar...

No fim, apenas conta uma coisa: o PS não ter maioria absoluta. Isso resolveria alguns problemas, e no caso do ECD, acredito que muita coisa mudaria. Agora, é preciso não ir na cantiga do lobo, pois o PS continua perigosamente próximo da maioria!