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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Sétima Sinfonia

Escreve Bernard Chazelle, no seu maravilhoso blogue «A Tiny Revolution», que o culminar de todo o cânone musical ocidental é o segundo andamento, Allegretto, da Sinfonia nº 7, Opus 92 de Beethoven.

Ora isto é um perfeito disparate (aqui peço especial atenção a quem tem o detector de ironia a funcionar mal). Chazelle só acertou no Beethoven. Os meus perspicazes e sensíveis leitores sabem, como eu sei, que o píncaro absoluto do cânone musical ocidental é o terceiro andamento do Quarteto de Cordas, Opus 132, de Beethoven. Para se enterrar mais, Chazelle dá-nos a ouvir uma versão dirigida por Karajan, com uma duração de pouco mais de sete minutos, alegando que mesmo assim é mais lenta do que aquilo que mandam as indicações metronómicas do compositor.

Palavra que é caso para mandar todos os purismos para um lugar que eu cá sei! Ó meninos, este Allegretto quer-se lento, e deixem lá em paz o que o compositor escreveu na partitura porque os génios também se enganam. Carlos Kleiber, que não era homem para se vergar ao génio de ninguém que não fosse o seu, demora, na sua gravação de 1975 com a Filarmónica de Viena, uns generosos oito minutos e nove segundos; e Sir Simon Rattle, que me tem acompanhado em vinil e em CD desde os meus longínquos 16 anos de idade, espraia-se nuns sumptuosos oito minutos e vinte e cinco segundos.

Assim, sim. Comparado com isto, o Karajan parece que vai a fugir à polícia. Mas a quem insiste teimosamente que um Allegretto tem que ser um Allegretto, deixo uma sugestão: largue as sinfonias e ponha-se a ouvir os quartetos de cordas. Comece pelos últimos e vá regredindo em direcção aos primeiros. Quase no princípio da viagem deparar-se-á com o Opus 132 e com o seu terceiro andamento, que aqui designo, reverentemente, pelo seu nome completo: III. Molto Adagio (Heiliger Dankgesang eines Genesenen an die Gottheit; in der lydischen Tonart) Andante (Neue Kraft fühlend) Molto Adagio (Mit innigster Empfindung).

São os mais belos 16 minutos e 12 segundos de música (na versão do Melos-Quartett de Stuttgart) que o Cânone Ocidental jamais produziu.

5 comentários:

António Chaves Ferrão disse...

Até que enfim vejo alguém a utilizar a expressão adequada para Herber von Karajan: fugir à polícia.

José Luiz Sarmento disse...

Karajan não esteve tão comprometido com os nazis como por exemplo Furtwängler, que foi um dos grandes intérpretes de Beethoven.

Não deixa de ser curioso, no entanto, o relativo desinteresse dos nazis por Beethoven. Não é que Beethoven não fosse tocado nas grandes salas de concerto alemãs durante o período nazi, mas a verdade é que, sendo eles os primeiros grandes mestres da propaganda política nacionalista, nunca tenham feito de Beethoven o grande herói alemão que a sua estatura justificava.

Talvez se sentissem incomodados pelo amor de Beethoven à liberdade. Não estou a ver Goebbels e Himmler a gostar especialmente do autor da Eroica e de Fidelio.

Curioso, também, é o facto de um dos maiores intérpretes das sinfonias de Beethoven, Arturo Toscanini, ser um anti-nazi declarado. Seria esse apego à liberdade, partilhado por compositor e intérprete, que criou a afinidade entre eles que ainda hoje podemos ouvir?

Enredos da História...

abrasivo disse...

E que na versão do Medici String Quartet são 17 minutos e 49 segundos. Apesar de tudo, onde me perco mesmo é na Grande Fuga, opus 133, final original do Opus 130. São 16 minutos e 49 segundos na versão do mesmo quarteto e 15 minutos e 35 segundos na versão do Quator Végh. Nunca me sentirei só. Mesmo numa ilha deserta.

José Luiz Sarmento disse...

Ah, a Grande Fuga... Também me perco nela.

Beethoven nunca deixou de cultivar com mestria a arte da fuga. Até no acima mencionado Allegretto, para não ir mais longe...

Claro que quando nos pomos com esta história de qual é o píncaro do cânone estamos um pouco a brincar, até porque o nosso gosto também vai mudando com a idade. Para mim, às vezes, para continuar com Beethoven, o píncaro é o Concerto para Violino e Orquestra. Ou, para sairmos de Beethoven, o Concerto para Piano e orquestra nº 23 de Mozart... ou o nº 20, na versão de Brendel... ou o nºo 24, pelo mesmo intérprete...

António Chaves Ferrão disse...

Caro José Luis Sarmento
Não me referia às afinidades políticas de Karajan, que, confesso, até desconhecia. Mas à minha percepção que o homem despachava as partituras, como anotado no post: como se estivesse a fugir à polícia.