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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Trabalhar menos, ensinar mais

Já antes deste governo tomar posse e de esta ministra entrar pelas escolas dentro como Bush pelo Iraque os professores trabalhavam demais.

Não era essa a percepção popular: era apenas a verdade. Trabalhavam demais; e apesar disso, ou por causa disso, alguns ensinavam de menos.

Também havia os que ensinavam muito - e que por isso pagavam o preço de trabalhar, não só demais, como para lá de demais. Eram os que não tinham vida própria e existiam apenas para a escola.

Quando Maria de Lurdes Rodrigues entrou em funções sabia que a situação era esta. Podia, se quisesse, ter adoptado como prioridade o ensino. Podia ter proposto aos professores um programa de acção muito simples, muito eficaz, que se poderia resumir na frase «trabalhar menos, ensinar mais». Teria com isto ganho os professores, não teria perdido a população, e teria talvez começado a tirar Portugal da cauda das estatísticas educativas.

Mas a prioridade de Maria de Lurdes Rodrigues nunca foi o ensino: foi, e é, tirar poder e prestígio a um grupo social que em ambas as vertentes faz sombra à classe política. Por isso não se esforçou por corrigir a percepção popular de que os professores trabalham pouco. Pelo contrário, alimentou-a, recorrendo para tal à primeira das muitas mentiras descaradas que são hoje a sua imagem de marca. Baixa política, guerra suja.

Trabalhar menos, ensinar mais: teria sido tão simples, não teria? Bastaria que por uma vez tivesse tomado assento num governo português um ministro que fosse realmente da Educação. Mas em vez disso a palavra de ordem é trabalhar mais, trabalhar muito, trabalhar demais, trabalhar sem se saber para quê. Mesmo que para isso os professores deixem de todo de ensinar.

3 comentários:

Anónimo disse...

Gostei desta explicação bem fundamentada.
Olinda

LA disse...

É muito difícil para uma pessoa normal compreender que um professor, que trabalhava 22 horas por semana e que tinha montes de férias, trabalha muito.
As novas políticas da educação são completamente ridículas, na maior parte das vezes, acho que devia haver mais profesores no gabinete do ministro da educação, a dar conselhos, porque será muito difícil a um normal professor chegar a ministro!, e um professor universitário não sabe o que se passa lá em baixo nas escolinhas. Só com mais pessoas experientes em coisas da educação se poderia mudar alguma coisa. E também não será muito bom ter no ministério pessoas da área das ciências da educação porque eles também não sabem do que falam!
Como te interessas por estas coisas, aqui vai um artigo do The Times, acho interessante, eu sempre detestei escolas porque as acho desligadas da realidade, embora não esteja certo sobre estas experiências que se vão fazer no UK.
http://www.timesonline.co.uk/tol/life_and_style/education/article3261485.ece
Bons posts!

José Luiz Sarmento disse...

la:
«É muito difícil para uma pessoa normal compreender que um professor, que trabalhava 22 horas por semana e que tinha montes de férias, trabalha muito.»

Com efeito é muito difícil. Para uma pessoa normal, é difícil imaginar que se os testes aparecem elaborados é porque alguém os elaborou, se aparecem corrigidos é porque alguém os corrigiu.

Uma pessoa normal não sabe, nem tem que saber, quantas reuniões de Conselho de Turma tem cada professor no fim de cada período. Se essa pessoa normal for um aluno, sabe que o seu professor tem uma turma: a sua. Das outras, tem uma vaga ideia. E muito menos sabe da existência de reuniões intercalares.

Não sabe das reuniões de Área Disciplinar, de Grupo ou de Disciplina. Não sabe da infinidade de actas, obrigatoriamente escritas à mão, a que essas reuniões dão origem. Não sabe das grelhas que é preciso preencher, das matrizes que é preciso elaborar e arquivar, dos relatórios que é preciso redigir, das estatísticas que é preciso entregar já prontas à tutela, das fichas personalizadas(uma por aluno), da informação redundante que é preciso registar, muitas vezes, em meia-dúzia de suportes diferentes.

Não sabe das centenas de páginas de livros, de revistas, de sites da net que é preciso consultar para elaborar um textinho de meia página para dar aos alunos, textinho este que depois é preciso adaptar, transcrever e fotocopiar na quantidade necessária.

Uma pessoa normal não sabe nada disto, porque não vê. Só vê as aulas. Uma pessoa normal está para os professores como um adepto de futebol que imaginasse que os jogadores trabalham hora e meia por semana, aos domingos, que é o tempo que dura um jogo.

Uma pessoa normal acha que quando os alunos estão de férias os professores também estão. Nem lhe passa pela cabeça que o mês de Julho seja o mais trabalhoso no calendário de qualquer professor - devido ao pesadelo burocrático que é a época de exames e à logística paranóica que os sustenta.

E não sabe que mesmo no tempo já longínquo em que os professores tinham «montes de férias», essas férias eram mais que merecidas. Acredite-me: eram mais que merecidas.

Por serem mais que merecidas é que em todos os países que conheço - e conheço bastantes - as férias dos professores são bastante mais longas do que em Portugal, para além de serem bastante mais longas do que as dos outros trabalhadores. Não lhe direi que isto não suscita invejas: Portugal é um país de invejosos, mas este vício não está totalmente ausente de outras sociedades. Mas Portugal é, que eu saiba, o único país em que o Governo cedeu a essa inveja em vez de explicar às pessoas que essas longas férias são justas, racionais e, no cômputo geral, úteis para toda a gente.

Isto, quanto às pessoas normais. As que estão dentro dos assuntos sabem há muitos anos que os professores trabalham mesmo muito: mais ou menos o mesmo que as «pessoas normais,» se se resignarem a não ensinar ou a ensinar pouco; muito mais do que as pessoas normais se quiserem ensinar alguma coisa.

Sempre foi assim. Os professores nunca protestaram muito contra o excesso de trabalho porque em Portugal protestar contra o excesso de trabalho é mal-visto - e porque de um modo geral tinham e têm brio na sua profissão.

O que mudou com esta ministra? Mudou que sobrecarregou de tal maneira os professores com tarefas inúteis que não só lhes tirou o pouco tempo livre que tinham, como lhes roubou o tempo de ensinar. Os ministros anteriores tinham contra si muitos professores; esta tem contra si quase todos, e especialmente os melhores.