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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Isabel Alçada

A câmara de televisão não perdoa: capta melhor que o olho nu todos os matizes de expressão e linguagem corporal daquele ou daquela a quem está apontada. Diz muitas vezes por imagens o que o jornalista não pode ou não quer dizer por palavras.

No dia em que tomou posse, Isabel Alçada deu uma imagem de si que não contradizia os seus propósitos anunciados nem os que lhe eram atribuídos pelos meios de comunicação social. O queixo erguido, os olhos brilhantes, o sorriso confiante (muitas das minhas colegas acharam-no artificial, mas eu confesso que não vi isto) - tudo nela exprimia uma maneira de estar na vida e prometia um estilo de actuação.

Há poucos dias a televisão voltou a mostrá-la, integrada na comitiva do primeiro-ministro. Não era a mesma mulher. O corpo encolhido, o rosto assustado, o olhar que não se fixava em lugar nenhum, tudo nela era a imagem dum animalzinho acossado.

O que teria operado uma transformação tão grande em tão pouco tempo? Só posso especular. É inteiramente possível, por exemplo, que se encontrasse doente ou exausta naquele preciso momento, ou que quaisquer circunstâncias da sua vida privada, que ignoro e não são da minha conta, expliquem o que as câmaras da televisão mostraram. Mas também é possível que Isabel Alçada tenha aprendido que género de criatura é o ministério que supostamente dirige e que se tenha dado conta das circunstâncias, até então inimagináveis para ela, que condicionam a sua actuação.

Não sei se a cultura humanística de Isabel Alçada é superior à de Maria de Lurdes Rodrigues. Provavelmente é. Mas a sua experiência em matérias de táctica política é certamente muito mais reduzida, e não a preparou para encontrar no ministério uma tecnoburocracia orientada para a imposição e manutenção duma determinada linha ideológica.

Destas estruturas, e da melhor maneira de lidar com elas, percebe Maria de Lurdes Rodrigues muito bem. Obrigada a tomar partido entre a vanguarda ideológica que encontrou no ministério - chamemos-lhe os "guardas vermelhos" - e os professores contra-revolucionários - chamemos-lhes os "intelectuais decadentes" - optou sem hesitar pelos primeiros.

Foi uma opção racional. Maria de Lurdes Rodrigues tinha todas as razões para acreditar que estava a alinhar com o lado mais forte: os sindicatos pareciam-lhe fracos ou acomodados, os professores passivos, e os movimentos de professores ainda não tinham surgido no terreno. Mas foi também uma opção convicta: o pedagogismo que os "guardas vermelhos" defendem-se articula-se perfeitamente com a sua visão do mundo e com a linguagem anti-intelectual e "anti-elitista" típica do PS de José Sócrates e dos gurus da "Nova Economia". Daí que a sua terminologia fosse a destes gurus: a inovação, a liderança, a trans-disciplinaridade, a flexibilidade, as competências, a mudança, a resistência à mudança, o futuro - e, quando tudo o mais falhava, a artilharia pesada deste discurso: a invocação explícita ou implícita da "inevitabilidade" disto tudo. A esquerda dos anos 60 e a direita dos anos 80 não só tinham feito as pazes, como falavam finalmente a mesma língua.

Igualmente racional foi a maneira como os instrumentos de aplicação desta ortodoxia - o Estatuto da Carreira Docente, o Estatuto do Aluno e o modelo de avaliação - se articularam entre si. O facto de a doutrina ser em si mesma irracional só levou a que os meios utilizados para a impor fossem mais violentos.

Isabel Alçada não tem passado político que a habilite a lidar com "guardas vermelhos" de nenhuma espécie. Se tem fé na Pedagogia de Estado que Maria de Lurdes Rodrigues quis impor definitivamente, esta fé pode não ser tão incondicional ou tão entusiástica como os seus mentores exigem a um ministro da pasta; os "intelectuais decadentes" têm, afinal, mais poder do que a sua antecessora julgava; mas qualquer cedência ou concessão, mesmo puramente formal, que lhes seja feita será lida pela tecnoburocracia do ministério como uma traição e como um desvio à "linha justa".

Isabel Alçada sabe que o essencial não pode ser negociado, nem sequer discutido. Sabe que o acordo de princípio a que chegou com os sindicatos foi como o limpar e coser duma ferida sem tratar da infecção que está por baixo. Descobriu quem são os contendores no conflito que lhe compete gerir; descobriu o que cada um deles quer; já tem uma ideia da relação de forças entre eles; e deu consigo em pleno fogo cruzado. Por isso tem medo.

4 comentários:

Paulo G. Trilho Prudêncio disse...

Viva.

Mais uma pérola; a ideia de "guardas vermelhos" é demasiado acertada para não me deixar bem-disposto para os tempos mais próximos.

Aquele abraço.

Ramiro Marques disse...

Notável texto.

luis tavares disse...

Também gostei muito dos guardas vermelhos...Muito a propósito da anti-ideologia do ps.

Anónimo disse...

Um post que ilustra na perfeição estas fotos ...

www.educar.wordpress.com/2010/01/16/e-nos-temos-reportagem-exclusiva/#comment-347741