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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Ensinar a norma culta da língua

(Este texto foi revisto e modificado às 17:09)

Há algumas semanas, o cronista do New York Times (e prémio Nobel da economia) Paul Krugman teve que negociar com a direcção do jornal a grafia duma palavra. Tinha escrito "
alright" no título duma crónica quando no livro de estilo do jornal se consagra a forma "all right". O editor, no uso legítimo das suas competências, substituiu a forma usada pela forma consagrada; e Krugman, em vez de se irritar ou de puxar pelos galões, explicou-se: o seu título aludia a um outro título noutro jornal, e se usasse a forma a que estava contratualmente obrigado a alusão perder-se-ia.

Chegou-se a um compromisso: na edição impressa do jornal apareceria "all right", na edição online permaneceria o "alright".

Os jornais de referência britânicos e americanos levam muito a sério as respectivas normas cultas da sua língua. E ainda bem que assim é: na ausência duma Academia com poderes públicos que fixe a norma culta, esta tem que se basear na autoridade dos grandes lexicógrafos, no rigor dos principais dicionários e nos livros de estilo dos jornais mais prestigiados. Seria impensável um acordo ortográfico entre o Reino Unido e os Estados Unidos da América; mas é inegável a existência de duas normas cultas que se influenciam reciprocamente sem que para isso intervenha qualquer autoridade pública.

O editor, o revisor de texto, defende a liberdade dos homens e a humanização do mundo mesmo que não se dê conta disto. Merece o nosso apreço e a nossa gratidão. A degradação da linguagem é uma estratégia de tiranos. Para saber isto não é preciso ter lido Nineteen Eighty-Four: basta olhar para o nosso canto do mundo e ver a hegemonia do marketing (que é a profissionalização da ambiguidade) nas campanhas eleitorais; ou analisar as duas langues de bois gémeas a que se convencionou chamar "politiquês" e "eduquês", que fazem do vazio de sentido a sua razão de ser.

Ao contrário dos revisores de texto, as autoridades públicas portuguesas parecem apostadas, à semelhança das britânicas, das americanas e das dos outros países da OCDE, em subverter a norma culta da língua e proibir o seu ensino nas escolas.

As justificações apresentadas para isto não escolhem ideologia nem opção política; tanto podem ser "de esquerda" como "de direita". O ensino da norma culta é "elitista"; as pessoas "normais" não falam assim; o uso da norma culta constitui uma crítica implícita aos modos de expressão que os alunos trazem de casa, o que tem efeitos nefastos na sua auto-estima; as variantes "populares" podem ter uma grande riqueza expressiva (o que até é verdade; mas a norma culta é perfeitamente capaz, nestes casos, de integrar estas expressões no seu processo de evolução); o contacto precoce com os jargões profissionais prepara os alunos para o mundo do trabalho (totalmente falso: os jargões profissionais são tantos que é materialmente impossível mostrá-los todos aos alunos; nenhum deles pode ser ensinado sem que se ensine concomitantemente a profissão que lhe corresponde; e por outro lado são fáceis e rápidos de aprender fora da escola para quem una o conhecimento especializado ao domínio da norma culta); as "competências comunicativas" têm que ser ensinadas uma a uma (o que não só é impossível, como inútil: a norma culta engloba uma variedade enorme destas competências e, no que respeita as que não engloba, fornece uma base sólida para a sua aquisição).

Tudo isto tem sido dito e repetido pelos críticos dos programas de Português nos ensinos básico e secundário, mas aplica-se com igual propriedade aos programas de línguas estrangeiras. Num manual de Inglês do 10º ano, o primeiro texto apresentado aos alunos é a letra duma canção, supostamente interessante para todos os adolescentes, escrita num jargão urbano que já estará desactualizado quando os alunos terminarem o seu percurso escolar. Será possível imaginar algo de mais inútil? Mas não viria daqui grande mal ao mundo se fosse possível encontrar, mais adiante neste manual ou em qualquer outro dos manuais oficialmente aprovados, um poema de Tennyson, um conto de Hemingway ou um ensaio de Updike.

E muitos alunos aderem. Já vi os meus comer e pedir mais ao ser-lhes apresentado, por exemplo, o poema Dover Beach de Mathew Arnold. Os "góticos" e os "emos", então, até ficam em êxtase. É claro que isto exige uma aula muito bem preparada: uma coisa destas não pode ser despejada em cima duma turma desprevenida. E é certo também que os alunos mostram considerável relutância em aprender de cor um soneto ou um poema ainda mais pequeno. Mas do que eles estão fartos, mesmo fartos, é de se deparar, ano após ano, nas aulas de Português, Inglês e Francês, com os mesmos temas e as mesmas trivialidades incessantemente repetidas - e sobre as quais, de resto, já sabem mais que o professor ou os autores dos manuais.

Criticamos muito os alunos por dizerem "uma seca". Mas têm razão, é mesmo uma seca: de aula para aula, de disciplina para disciplina, de ano para ano, sempre a mesma coisa, sempre os mesmos temas, sempre a mesma doutrinação politicamente correcta mal embrulhada naquilo que os teóricos da Educação imaginam ser "os interesses dos jovens".

Não há jovens: há pessoas. Umas têm mais idade que outras, é tudo. Mas o que as interessa não depende da idade, ou pelo menos não só da idade. Já encontrei "jovens" que viviam para o Heavy Metal, para a religião Wicca ou para o futebol, e já encontrei quem se dedicasse (às vezes de modo bem efémero, a verdade seja dita) à dança do ventre ou à aprendizagem do Sâncrito. Os nossos alunos são todos diferentes. O estereótipo a que os burocratas da Educação os reduzem é uma mentira e um insulto. Têm uma coisa em comum: o direito ao melhor que esteja ao nosso alcance dar-lhes, e isto inclui a norma culta, não só do Português, mas também das outras línguas que lhes são ensinadas.

Para que de futuro possam exercer em liberdade o seu direito de escolher um ou mais interesses entre o futebol, o rock 'n roll, a filosofia, a dança do ventre, o folclore do Minho, a literatura, as artes, as ciências, as religiões esotéricas, as línguas clássicas, os desportos radicais - ou seja, tudo o que faz parte da vida mesmo que não faça parte do trabalho.

8 comentários:

Ramiro Marques disse...

Outro texto notável.

Anónimo disse...

Notável, sem dúvida!
Lucinda Fialho

jad disse...

Pontaria certeira. A sujeição à faacilidade e facilitação a que se submete a crença numa discutível actualidade merece e justifica que lhe dediquemos reflexão. Este texto é um bom exemplo. Parabéns.

Eduardo Miguel Pereira disse...

José Luiz, de novo um texo brilhante e com uma mensagem na qual me revejo na totalidade.

Nunca no meu blog fiz menção a posts de outros, mas neste caso gostaria de lhe pedir permissão para deixar um link no meu blog para este seu post.
Concorda ?

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Caro Eduardo, esteja à vontade. O que é preciso é ir passando a palavra.

Nan disse...

Já passou os olhos pelo novo programa de Língua Portuguesa que entrará em vigor no próxmo ano lectivo?

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Nan, já "passei os olhos" por esse programa. Pelos programas de Ingl~es, tenho feito mais que passar os olhos: tenho-os estudado em profundidade. A tragédia é que os disparates contidos nuns programas se repetem, muitas vezes ipsis verbis, nos outros.

Nan disse...

É, não é? Ao princípio, pensei que seria má vontade minha, ou que estaria a ver mal. Depois, tentei lembrar-me do princípio que diz que não devemos atribuir a maldade intencional o que pode ser atribuído à estupidez pura e simples. Mas começo a achar que é demasiado para ser SÓ estupidez.Acho que anda ali uma vontade intencional de nos impedir de ensinar seja o que for que possa pôr os nossos alunos a pensar.