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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Os bárbaros e a tecnologia

Quando eu era adolescente li uma história sobre a segunda grande guerra que me deu que pensar. Parece que os americanos tinham necessidade de construir uma grande quantidade de aeroportos em muitas ilhas do Oceano Pacífico e não tinham mão-de-obra para isso. Muitas dessas ilhas eram habitadas por tribos cujo desenvolvimento estava ao nível do Paleolítico. No entanto conseguiram facilmente, ao fim de poucos dias de treino, operar um bulldozer ou qualquer outra peça de maquinaria usada para construir aeroportos.

Vários anos e muitas leituras mais tarde, percebi que quando um bárbaro se confronta com a civilização, a primeira coisa que aprende dela, e mais facilmente, é a sua tecnologia. Muitas vezes nunca chega a aprender mais nada. Muitas vezes nem sequer chega a imaginar que haja mais nada.

Há trinta anos que o mundo em geral está a ser governado por bárbaros, que da civilização só vêem a tecnologia. Não compreendem que há mais mundo para lá da tecnologia, e que se esse mundo não existisse a tecnologia acabava.

Esta atitude assume muitas formas. Uma delas é o economicismo: a crença que a economia determina tudo na vida dos homens e que a ciência económica explica cabalmente toda a realidade.

Outra é a adoração bacoca da técnica como se fosse um fim em si mesma e não um meio. Quando o Primeiro-Ministro vai às escolas levar computadores, leva a cereja para pôr em cima do bolo. Mas o bolo, onde está? O Primeiro Ministro não sabe. Nem sabe que ele é preciso. Nem sabe que a cereja em cima do bolo precisa de um bolo por baixo.

E temos o caso de Maria de Lurdes Rodrigues a dizer que as escolas servem para as pessoas se qualificarem. Não servem: servem para as pessoas aprenderem. Pela simples razão, que nenhum bárbaro jamais entenderá, que quando o nosso propósito é ensinar estamos a qualificar; mas se o nosso propósito for apenas qualificar, nem qualificamos, nem ensinamos. Ou então damos uma qualificação que se esgota no momento em que o qualificado deixa de ser útil ao qualificador.

E assim voltamos aos construtores paleolíticos de aeroportos: lembremo-nos deles sempre que algum político ou algum yuppie (ou pior ainda, algum político yuppie) nos vier com a treta da qualificação. É que qualificar é fácil, o que é difícil é ensinar.

Quando a guerra acabou e os americanos se foram embora, deixaram atrás de si milhares de pessoas qualificadas para construir aeroportos. Nenhuma delas ganhou fosse o que fosse com isso.

8 comentários:

Moriae disse...

Se eles tivessem aprendido ...

José Luiz Sarmento disse...

Se os habitantes do Pacífico tivessem aprendido em vez de meramente se qualificarem, ter-se-iam tornado muito mais perigosos...

Joaquim Simões disse...

Excelente texto e excelente comentário.

Range-o-Dente disse...

Parece-me que se trata de garantir a existência de um massa acéfala a que se chamava até há pouco 'proletariado'.

Garantindo a existência um proletariado numeroso, garante-se a necessidade de timoneiros. Uma forma pós-moderna de escravatura, o formatar de uma nova raça sem tom de pele.

PS. Não esqueci que prometi comentar um outro comentário seu.

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Anónimo disse...

Continue a ensinar-nos dos perigos da qualificação.
Carlos Félix fernandes

quink644 disse...

Das melhores coisas que tenho lido, posso roubar, obviamente identificando a origem? Vou-te adicionar aos meus blogues amigos, espero que não leves a mal...

joshua disse...

Magnífica reflexão, que precisaria do megafone do levantamento geral em vez de esta morte lenta do ensino em favor do vazio qualificativo.

quink644 disse...

Como sou do tempo do quem cala consente...