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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Produção e predação

Todas as ideologias precisam dos seus mitos para se poderem impor. O mito do neoliberalismo é a história do empreendedor: o homem ou mulher que mercê de muito trabalho, muita criatividade, muita inspiração, muito gosto pelo risco, muita inteligência, muita energia, muito carisma e alguma sorte conseguiram obter aquilo a que se chama "sucesso" (normalmente medido em termos de riqueza adquirida).

Este mito, como todos os mitos, baseia-se na realidade: se os neoliberais não nos citarem casos em que esta história realmente aconteceu, nós próprios os poderemos testemunhar com base no que observamos à nossa volta. Mas precisamente porque olhamos à nossa volta, vemos que esta não é a história toda, mas apenas uma parte dela.

Há duas maneiras de enriquecer: a produção e a predação. Os neoliberais gostariam de nos fazer acreditar que só existe a primeira; mas a segunda, infelizmente, também existe.

E não só existe, como predomina. Por cada Bill Gates que há no mundo, há dez ou cem Josés Eduardos dos Santos. Por cada Américo Amorim, há dúzias de Valentins Loureiros.

O que nos põe a nós, sociedade política, perante um problema: como restringir a liberdade dos predadores sem restringir a dos produtores?

A resposta de Reagan e Thatcher, da qual estamos agora a sofrer as consequências, foi dar toda a liberdade aos produtores sem cuidar de a estar a dar também aos predadores. E estes encontraram três habitats especialmente favoráveis: as cúpulas políticas dos Estados mais pobres, o sistema financeiro globalizado, e a zona de intersecção entre o mundo dos negócios e o mundo da política.

Num mundo perfeito, conseguiríamos manietar completamente os predadores sem comprometer minimamente a liberdade dos produtores. Mas o mundo não é perfeito: os predadores nunca serão completamente manietados e os produtores nunca poderão ser completamente livres. Podemos sempre aspirar ao melhor compromisso possível; e tendo-o conseguido, podemos aspirar a um compromisso ainda melhor. Mas em todo o caso tratar-se-á sempre de um compromisso.

É por isso que precisamos da política. Mas não da política como hoje a conhecemos, tão promíscua em relação aos negócios como a política do Antigo Regime o era em relação à religião. Para separar Igreja e Estado foi precisa a Revolução Francesa; será precisa outra convulsão de proporções idênticas para separar Economia e Estado?

2 comentários:

Range-o-Dente disse...

Em jeito de rapidinha,

"Por cada Bill Gates que há no mundo, há dez ou cem Josés Eduardos dos Santos. Por cada Américo Amorim, há dúzias de Valentins Loureiros."

Você sabe quantas empresas já comprou o Bill Gates apenas para fechar e anular a concorrência?

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José Luiz Sarmento disse...

Também nunca pensei que o Bill Gates fosse um santo, mas sempre é menos mau do que o outro, não é?