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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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terça-feira, 14 de outubro de 2008

Cenas do meu casamento com a escola

A história toda é impossível de contar. O que vou fazer é pegar em alguns episódios desgarrados mas significativos e contá-los aqui por ordem mais ou menos cronológica.

Quando se deu o primeiro, teria eu talvez oito ou nove anos. No meu livro de leitura vinha aquele poema de Guerra Junqueiro: Pela estrada fora, toc toc toc /Guia um jumentinho uma velhinha errante... Estão a ver que poema é, não estão? Eu na altura gostei dele e acho que até o aprendi de cor. Não é que compreendesse palavras como "errante", "rol" ou os diversos sinónimos de burrinho; mas não fazia mal: o que não compreendi na altura, vim a compreender mais tarde. O que não me aconteceu foi ficar traumatizado ou perder a auto-estima por ler um texto em que havia palavras ou frases que eu não entendia.

Passemos adiante, até aos meus catorze anos. Por essa altura eu e um colega meu decidimos construir uma espécie de canoa para andar na Barrinha de Mira. Dispunhamos de uns planos para um caiaque, mas exigia materiais e ferramentas que não estavam ao nosso alcance, além de não ter as dimensões necessárias para nos transportar aos dois. Era necesario modificar os planos. Decidimos então fazer o cavername, a quilha e o resto da estrutura em madeira de pinho, que era a que conseguíamos arranjar; cobrir tudo com lona; e impermeabilizar o conjunto com uma tinta fabricada por nós à base de óleo de linhaça e alvaiade. Para calcular a altura da amurada, tínhamos de ter em conta o nosso peso, o peso da embarcação e o princípio de Arquimedes - que por sorte nossa tínhamos aprendido na escola. Tínhamos também que calcular o volume do barco, o que fizemos decompondo-o em sólidos geométricos e calculando o volume de cada um deles - cálculos que a escola também nos tinha ensinado a fazer. A coisa funcionou, e a mais importante lição que aprendi nessa altura é que o conhecimento abstracto não é sinónimo de conhecimento inútil.

Mais ou menos por essa altura tive um professor de Francês a quem nunca ninguém tinha dito que as aulas devem ser interessantes, motivadoras e apelativas. Não tenhamos medo das palavras: o homem era um chato. Mas chato mesmo: ainda hoje me lembro duma aula dele que durou como as outras cinquenta minutos e a mim me pareceu que tinha durado cinco horas. Era tão chato que, se fosse preciso passar toda uma aula a corrigir um aluno que não pronunciasse correctamente a palavra plume, ele passava toda a aula a fazer isso mesmo. Chato, chato, chato. Mas também tão bom professor que ao fim do quinto ano eu dominava a língua francesa (e ainda a domino hoje, graças a ele) muito melhor do que alguns professores de francês que vim a conhecer mais tarde. Estava convencido, o pobre, que um bom professor é aquele cujos alunos aprendem: vejam lá o descoco!

Mais um salto de vários anos. Era eu um jovem professor e já se tinha dado o 25 de Abril. Os meus orientadores de estágio só me ensinavam coisas que me pareciam sem sentido - entre elas que o conhecimento abstracto é inútil e só o conhecimento "concreto" (seja lá isso o que for) é que interessa. O "construtor naval" que havia dentro de mim sabia que isto era falso: tinha sido com base em conhecimentos abstractos que eu e o meu amigo tínhamos construído um barco e tínhamos passado com ele umas ricas férias em Mira. Ou então ensinavam-me que as línguas têm que ser ensinadas pelo método natural (como se o cérebro dum bebé de um ano funcionasse da mesma maneira que o duma criança de doze anos) ou pelo método nocional, ou pelo método funcional - por qualquer método desde que não fosse o método gramática-tradução. Eu era muito jovem, as pessoas que me ensinavam estas coisas eram mais velhas e reputadas do que eu - provavelmente quem estava errado era eu e não elas.

Outro salto no tempo: uma acção de formação para professores de Inglês em Lisboa. No palco, um especialista em pedagogia pago pelo Ministério a dizer que não podia ser, que os alunos saiam do sistema a saber ler um romance de Jane Austen no original mas incapazes de ler um documento profissional em inglês. Nessa altura pedi a palavra para dizer que quem foi ensinado a ler Jane Austen está a duas semanas de aprender a ler seja o que for, mas que quem foi ensinado apenas a ler relatórios ou folhetos de instruções nunca dará daí o salto para Jane Austen. Tive alguns aplausos, mas os especialistas fizeram como se eu nem sequer tivesse falado.

Outra cena: eu a folhear o livro de leitura da terceira ou quarta classe do meu filho. A certa altura descobri um poemazeco que alguma esforçada professora tinha feito a partir do poema de Guerra Junqueiro acima citado. E o que é que a senhora tinha feito ao poema? Tinha-se ido a ele e cortado tudo o que ela (e os especialistas em pedagogia) achavam que os meninos não iam entender. O jumentinho e o burriquito tinham desaparecido para dar lugar apenas ao burrinho. A velhinha já não era errante, e os oitenta anos já não eram um bonito rol. O resultado era um horror literário, uma papa sem sabor que nenhuma criança que se prezasse se daria ao trabalho de ler, e muito menos de decorar.

A cena que quero contar a seguir é a das explicações. Os miúdos apareciam-me em casa porque tinham negativas a Inglês e não percebiam nada do que se passava nas aulas. Eu pespegava-lhes com o método gramática-tradução e as notas na escola subiam que era um gosto vê-las. Mas na escola não podia usar esse método porque era pedagogicamente incorrecto.

Cena seguinte: o meu filho, já adolescente, queria aprender a usar uma máquina fotográfica manual e precisava que eu lhe explicasse o que era aquilo da profundidade de campo. Queria saber porque é que quando a abertura era pequena as coisas próximas ficavam tão bem focadas como as distantes, e porque é que quando ela era grande a máquina só focava bem a uma determinada distância. Começo eu a explicar: "como aprendeste na disciplina de Física, quando estudaste a Óptica..." "Espera aí", diz ele. "Olha que eu não estudei óptica nenhuma!" Fui ver o programa, e com efeito: a Óptica tinha sido eliminada. Não se ensinava aos miúdos a diferença entre uma lente convergente e uma lente divergente ou entre um espelho côncavo e um convexo. Além disso também se tinham eliminado as roldanas, a máquina a vapor, o motor de combustão interna e sei lá que mais. Afinal, pensei eu, não é só o conhecimento abstracto que é considerado oficialmente inútil: muito do conhecimento concreto também é.

Por esta altura o meu casamento com a escola já não estava a correr nada bem. Mas tive alguns momentos felizes: o meu aluno de Alemão que me pedia os cinco minutos iniciais da aula para terminar a lição de Matemática que estava a dar aos colegas (cinco minutos esses que eram compensados no fim); e numa espécie de canto do cisne, a turma do 12º ano, só de raparigas, com quem subverti a "Área Projecto" (essa invenção sinistra) de modo que passámos um ano a estudar os estereótipos femininos na Literatura e na cultura ocidentais. Foi divertidíssimo: lemos desde a Odisseia a Madame Bovary, passando por Macbeth, comparámos a "Camila" da Eneida com Joana D'Arc, falámos em bruxas, olhámos por trás do fogão da Gata Borralheira, espreitámos por baixo das túnicas das Vestais, lemos uns tantos poemas de Santa Teresa de Ávila e outros de Maria Teresa Horta... No fim tudo terminou com lágrimas e abraços, e foi o último ano feliz do meu casamento com a escola.

Depois vieram as passagens administrativas, o "sucesso" obrigatório, o "facilitismo é chumbá-los"... Eu e a escola estamos em pleno processo de divórcio. Por absoluta incompatibilidade de carácter e de objectivos.

8 comentários:

Anónimo disse...

Genial. Não consigo escrever mais.
Abraço. Paulo Prudêncio.

Anónimo disse...

Adorei este texto e vieram-me as lágrimas aos olhos.
Parabéns colega!
Devias mandá-lo para o Público.
Olinda

Maria A. disse...

Que texto fantástico, penso que muitos de nós vivemos situações semelhantes, embora nem sempre as consigamos passar à escrita com a lucidez aqui presente. Obrigada pela divulgação.

Filipa disse...

Delicioso, verdadeiro, realista, acutilante, este texto... Parabéns! Identifico-me com tudo o que descreve, com a tristeza narrativa que tocamos ao ler os episódios ilustrativos dos momentos marcantes (positivos e negativos)de uma vida dedicada ao ensino. Revejo-me sobretudo no desencanto... Tanto, tanto desencanto...

setora disse...

Ainda bem que me deu para dar volta por aqui. Que belo texto, que bela relação! Faça como fez para a área de projecto e tente recuperar o casamento.

Anónimo disse...

Sou engenheiro, construtor naval por acaso, e, mais do que no liceu, foi a ler os livros técnicos do curso (e a falar com investigadores estrangeiros) que reforcei o meu inglês. Leio-os fluentemente, sem quaisquer dramas. Já quanto à capacidade de ler literatura em inglês...

Loca disse...

Fantástico texto. Adorei a forma como expressas o que todos nós sentimos de uma maneira ou de outra.
Obrigada.
:))

mercedes disse...

Como me sinto identificada consigo! Não só como professora de Inglês há cerca de 29 anos mas essencialmente como alguém que abraçou esta profissão por amor!Amor pelo saber, pela partilha de saberes , pela convivência e troca de emoções com os alunos, pela alegria de os estar a ajudar a crescer como seres humanos!
Como me revejo nos desafios e dificuldades do "crescimento" e como me dói sentir vezes demais o desalento em vez do prazer e entusiasmo de ensinar!
Continuo por amor mas...amar assim dói mesmo!
Parabéns pelo texto e pelo amor que ele transmite!