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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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sábado, 29 de março de 2008

Para quando a escola democrática?

Há-de haver por aí muita gente com saudades da escola salazarista. Uns porque a viveram e se deram bem com ela; outros porque, não a tendo vivido, a mitificam. Eu vivi-a como aluno e não tenho saudades nenhumas.

A escola salazarista era fortemente hierárquica. Os professores tinham poder efectivo sobre os alunos, os directores de ciclo sobre os professores, os metodólogos sobre os estagiários, o reitor sobre todos.

Esta distribuição de poder não era necessariamente um mal. Não era ela, só por si, que fazia da escola uma instituição autoritária e opressora. O mal estava na irresponsabilidade do poder e na consequente arbitrariedade. Quem estava na posição mais baixa na hierarquia não tinha recurso contra as decisões de quem estivesse em posição mais alta. Pelo contrário: qualquer protesto, por mais justificado que fosse, era visto como um delito e punido como tal.

Isto não significa que todos os professores fossem tiranos: pelo que me lembro, a maior parte não o era. Mas todos o podiam ser; e isto era intolerável para quem tivesse um mínimo de dignidade pessoal ou espírito de liberdade. E assim, com a irrupção dos Beatles e dos Rolling Stones nos anos sessenta, com o Maio de 68 em França, com as crises académicas de 62 e 69, com o 25 de Abril de 1974, agigantou-se a contestação a esta escola e quase se universalizou o desejo duma escola democrática que a substituísse.

E num certo sentido este desejo tornou-se realidade. Quem não podia ir à escola passou a poder ir. O ensino universalizou-se. Isto foi verdadeiramente um avanço democrático e é hoje uma conquista civilizacional irrenunciável. Quaisquer que sejam os problemas da escola actual, a sua solução não pode passar, nem pela exclusão dos mais desfavorecidos, nem pelo seu acantonamento num ghetto (que seria a escola pública por contraponto à privada) em que se desista do ensino e cuja única função seja tirar os jovens da rua.

Ao mesmo tempo que se democratizou em termos de acesso, a escola caminhou em sentido contrário em termos de filosofia educativa e de missão atribuída. A escola "moderna" é sob muitos aspectos totalitária, porque usurpa funções e competências de agentes educativos outros sem os quais não é possível uma sociedade livre.

Diz o ditado que é necessária toda uma aldeia para educar uma criança. Transposto este ditado para as sociedades urbanas do nosso tempo, mais verdadeiro ele se torna. Nas sociedades modernas opera uma variedade incontável de agentes educativos, desde os mais nocivos e perigosos, como os gangs, até aos mais naturais e necessários, como as famílias. Entre um extremo e outro temos as igrejas, os clubes desportivos, as associações culturais, as celebridades, as figuras de referência - e sobre tudo isto, omnipresentes e quase omnipotentes, os media.

Por mais nocivos que alguns destes agentes sejam, e por mais úteis que sejam outros, a sua variedade é em si mesma um valor, porque é ela que permite aos jovens fazer escolhas éticas e elaborar, com a liberdade possível, as suas próprias e diversificadas visões do mundo. A escola, que é um agente educativo entre muitos, não pode nem deve substituir-se aos outros, sob pena de formatar os seus educandos num pensamento único e numa ética única que talvez convenha ao poder, mas diminui os alunos na sua dimensão humana e na sua liberdade moral. Um projecto de educação global dirigido, a partir de um centro político, à pessoa total que é o aluno é necessariamente um projecto totalitário que ofende gravemente a liberdade e a integridade pessoal dos seus destinatários.

Não sei se a escola democrática, se alguma vez vier a existir em Portugal, será uma mini-democracia que reproduza, como uma parcela fractal, as instituições e os procedimentos do Estado democrático. Estou em crer que não. Mas será com certeza uma escola em que os professores terão poderes concretos comensuráveis com as responsabilidades que lhe são pedidas; em que os traumas do salazarismo estarão ultrapassados e não impedirão o exercício da autoridade por parte de quem a deve ter; será uma escola livre de escolher, de entre as várias teorias e práticas pedagógicas, a que reunir maior consenso entre pais e professores; será uma escola muito mais concentrada do que a actual na sua tarefa educativa específica, que é ensinar e instruir; e será sobretudo uma escola muito mais modesta e comedida do que a actual no poder que se arroga de intervir sobre a «globalidade» do aluno, de modo a não usurpar funções que a restante sociedade tem o dever e o direito de desempenhar.

PS.: Depois de ler, no Dragoscópio, este post, sou levado a reflectir que, enquanto a escola tenta, felizmente sem êxito, monopolizar a formatação das mentes, os media tentam, infelizmente com êxito, exactamente o mesmo.

3 comentários:

dissidentex disse...

"...Um projecto de educação global dirigido, a partir de um centro político, à pessoa total que é o aluno é necessariamente um projecto totalitário que ofende gravemente a liberdade e a integridade pessoal dos seus destinatários."

JLS: caminha-se exactamente para isto.

À partir do momento em que Filosofia foi"abatida" a ser considerada como disciplina que poderia ser escolhida pelos alunos como exame a efectuar para entrar na Universidade, qualquer "projecto de educação Global" MAS DEMOCRÁTICO, sofre logo um rude golpe.

E passa penas a ser o centro político a manipular e a desviar do que não interessa a esse centro político que se ensine.

Quanto à concorrência dos media ela existe.

O que não se pode fazer é tentar vender-se uma ideia segundo a qual a escola não oferece soluções atractivas aos alunos e querer transformar a escola em media...

Senão qualquer dia entra-se numa e em vez de salas de aula temos ecrans panorâmicos a transmitir MTV...

Range-o-Dente disse...

Eu sei que martelo muito no mesmo mas ...

http://fiel-inimigo.blogspot.com/2008/04/manifestao-por-autoridade.html


.

Anónimo disse...

Olá meu Caro JLS.

Não me canso de ler o que escreve e recomendo, com frequência, a leitura dos seu textos. Destaco sempre a belíssima prosa que intitulou de "intifada". No meu blog tem várias citações e links para os seu textos. Nunca lhe pedi autorização e espero que não se aborreça com o facto.

Gostava de ter o seu email. Pode ser? Sou o Paulo Prudêncio do correntes e encontra o meu email no topo do meu blogue.

Clique em

http://correntes.blogs.sapo.pt/

Abraço do Paulo Prudêncio.

PS: se isso não for possível, tudo bem na mesma. Voltarei sempre ao "as minhas leituras".