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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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sábado, 22 de março de 2008

Autoridade, respeito e poder

A autoridade do professor tem duas pernas: a relação de respeito mútuo que se estabelece entre ele e os alunos e o poder que lhe é conferido pela lei ou pelos regulamentos.

A autoridade dos professores tem que se equilibrar nas duas pernas: se for baseada no poder bruto será autoritarismo e opressão; mas se o professor não tiver poder suficiente a sua autoridade será uma utopia, porque pode sempre acontecer que lhe apareçam pela frente alunos com quem é impossível estabelecer, por mais talentoso e dedicado que seja o professor, uma relação de respeito mútuo.

O respeito conquista-se respeitando os alunos: isto é uma coisa que todos os bons professores sabem e praticam quase por instinto. Conquista-se também pelo saber: um professor ignorante, sobretudo se for arrogante na sua ignorância, nunca será respeitado. Conquista-se ainda pela justiça: não será respeitado o professor que dê mostras de arbitrariedade na avaliação ou de favoritismo na sua relação com os alunos. Conquista-se pela paciência e pelo empenho em que os alunos aprendam. E a isto tudo há que acrescentar todas aquelas subtilezas de comportamento e postura que dificilmente se podem definir mas que são elementos importantes dessa qualidade a que chamamos talento.

Mas este talento não garante só por si, mesmo no seu grau mais elevado, a autoridade do professor. Esta depende também da sua relação de poder com os alunos. Se esta lhe for adversa, pode ser que em muitas turmas lhe seja possível manter a autoridade, mas é estatisticamente impossível que a mantenha em todas. Os alunos são diversos; as suas circunstâncias são muitas vezes, além de diversas, incontroláveis pelo professor; há alunos que nunca na vida foram respeitados por ninguém e que por isso não entendem quando o professor os está a tratar com respeito.

Nas escolas portuguesas é dado demasiado poder aos alunos e não é dado poder suficiente aos professores. Todas as leis do sistema educativo, todos os regulamentos, estão feitos no pressuposto de que o professor é automaticamente suspeito. Não devia ser assim. Uma escola não é uma democracia, e não o é, sobretudo, se quiser ser democrática. Nesta escola democrática que não é uma democracia o pressuposto tem de ser que até prova em contrário o professor tem sempre razão. Isto confere-lhe, é claro, poder. Este poder presta-se, é claro, a abusos. Mas a solução não é tirar poder ao professor, é responsabilizá-lo pelo uso ou abuso que faça dele.

O que a sociedade não pode continuar a fazer, se quer que as escolas funcionem, é a dar cada vez mais responsabilidade a quem não tem poder e cada vez mais poder a quem não tem responsabilidade.

10 comentários:

brit com disse...

Gostei muito desta análise. permite-me, no entanto, discordar de uma frase: "Nesta escola democrática que não é uma democracia o pressuposto tem de ser que até prova em contrário o professor tem sempre razão."
Esta máxima também tem contribuído para piorar algumas situações, especialmente quando é o aluno que tem razão e ainda é gozado por certos professores e "despachado" pelo CE. Gosto mais da frase: É preciso ouvir sempre os dois e depois decidir.

brit com disse...

hehehe Sabia que não ias resistir ao carimbo...
Sim, tens razão nessa perspectiva.
Mas também é complicada para alguns alunos produzirem as tais provas. Mas pensando bem, para alguns professores também...

José Luiz Sarmento disse...

Eu sabia que essa frase ia chocar e provocar discordâncias. Mas repara que tive o cuidado de dizer «até prova em contrário». E se o professor de facto não tiver razão, a prova, em princípio, até nem é difícil de fazer.

Difícil de fazer é a prova de que o aluno não tem razão. É por isso que eu propugno que se faça recair sobre o aluno o ónus da prova.

Além disso, se um dado professor se envolver em muitos casos em que seja a palavra dele contra a do aluno, toda a gente na escola vai começar a perguntar-se o porquê desta coincidência.

Ou seja: parece que o aluno, pela própria natureza das coisas, está mais protegido à partida; e se assim é convém que o sistema dê mais crédito ao professor. A contrapartida disto, é claro, é que a sanção por falsas declarações seja muito mais severa para o professor do que para o aluno.

Um exemplo: suponhamos que a lei institui de novo as faltas disciplinares a vermelho, com a diferença, em relação ao antigamente, que um certo número dessas faltas deixa de determinar a reprovação automática do aluno e passa a determinar uma sanção pecuniária em relação aos pais. Faria sentido que se partisse do princípio de que o professor, se marcou a falta, teve razão para a marcar. Como antigamente.

Mas, ao contrário do antigamente, hoje o aluno teria o direito de recorrer. Se o fizesse, e só nesse caso, haveria lugar a um processo de averiguações e a um processo disciplinar, que seria contra o professor ou contra o aluno, ou contra os dois, conforme o que tivesse sido averiguado.

É como o tal carimbo vermelho que se aplica na Alemanha quando o aluno não fez o trabalho de casa: se o professor aplicou o carimbo parte-se do princípio que o fez devidamente e não se fala mais nisso. Se o aplicou indevidamente, então sim, é caso para que caia o Carmo e a Trindade.

brit com disse...

É óbvio que o meu segundo comentário é resposta ao teu último... São os problemas da moderação... lol

António Chaves Ferrão disse...

A prazo, o colapso do poder dos professores só poderá conduzir ao colapso do poder do Estado. Nem a transformação da em curso da missão das forças militares em forças de segurança interna conseguirão compensar os efeitos nefastos.

Anónimo disse...

Haverá sempre quem ponha em absoluta igualdade o professor e o aluno, o adulto e a criança, os pais e os filhos. Essa aberração intelectual e educacional que embebe uma parte da população permite-nos observar em lugares públicos miúdos a porem os pais "em sentido" e a incomodarem toda a gente. Por isso, surgiram nalguns países restaurantes onde não podem entrar crianças. Há dias, num cinema, enquanto via Haverá Sangue, cerca de quinze crianças com mais ou menos treze anos, conversavam normalmente sobre os seus brinquedos. Foram postos na rua. Mas, antes, adultos saíram para não os aturar. É óbvio que os perigosos cultores do "eduquês" um dia também vão proibir a expulsão das crianças dos cinemas e de todos os locais onde se portarem mal. Tenho uma fortíssima cultura democrática, de debate de ideias, de tolerância e de compreensão. Não tenho a mínima pachorra para sistemas sem regras nem valores, onde quarenta ou cinquenta anos de vida têm o mesmo valor de doze ou treze. É só nas Novas Oportunidades que a vida dá experiência? ITO

brit com disse...

Há sim um ponto em que para mim é inconcebível professor e aluno, ou qualquer outro, não estarem em pé de igualdade: em caso de apresentação de queixas/reclamações tanto as de um com as de outro devem ser averiguadas de igual modo e com a mesma seriedade. Não parto do princípio que o professor tenha sempre razão pela simples razão de que algumas vezes não tem. Agora também não parto do princípio eduquês de que o aluno é centro de tudo e uma alma incompreendida.
Uma questão de bom senso. Cada caso e um caso.

José Luiz Sarmento disse...

Na minha proposta a razão do professor é apenas o princípio de que se parte, não é a conclusão a que se chega. É claro que algumas vezes o professor não tem razão, e se a conclusão a que se chega for essa as consequências têm que ser severas para ele. Ao presumirmos a razão do professor estamos a pôr-lhe nas mãos uma arma cujo uso tem, obviamente, que ser controlado.
Quanto à igualdade entre aluno e professor no que respeita a averiguação das suas queixas e reclamações, estou de acordo consigo. Mas muitos casos haverá em que o aluno, sabendo que não tem razão, não apresentará reclamação nenhuma contra o castigo que o professor lhe tiver aplicado.

Kaos disse...

Parece-me evidente que, à partida, a razão deva ser dada ao professor, a pessoa que é responsável por aquilo que se passa na aula. É a ele que cria as "leis de relacionamento" que tem com os alunos e por isso deve poder julgá-las. Nos casos em que o aluno se sinta alvo de uma injustiça deve ter quem o ouça e procure averiguar o que realmente se passou.

maria disse...

Parabéns pela excelente troca de ideias, feita com correcção na escrita e com civismo. Em muitos comentários a blogues só se lêem disparates, insultos e coisas do género.Maria Fernanda