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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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domingo, 23 de março de 2008

Fazer o mal e a caramunha

João Amado, especialista em Ciências da Educação, questionou na televisão a preparação da professora que foi vítima de violência na escola Carolina Michaëlis. Permitiu-se fazer esta avaliação sem conhecer nem as circunstâncias, nem a pessoa; e sem que ela tivesse a possibilidade de se defender.

Esta gente cria os monstros, e depois exige aos professores que estejam preparados para lidar com eles.

10 comentários:

João Soares disse...

Um blogue muito pertinente.Parabéns.
Está incluído no meu Dossier Educação.Seja bem-vindo ao Bioterra.

brit com disse...

Não quero nem imaginar o que diria se a professora tivesse dado um lambadão bem assente...
Preso por ter cão, preso por não ter.

António Ferreira disse...

“Força com os fracos, fraqueza com os fortes”: eis a máxima que norteia a acção política pós-moderna. Actualmente, aos olhos do pedagogo, como, aliás, do penalista, o cidadão cumpridor não evidencia qualquer mérito no seu comportamento, não faz mais do que o seu dever (quanto tempo se despende com os alunos exemplares, num conselho de turma?), enquanto os meliantes, vítimas de uma moira contra a qual a vontade nada pode, têm sempre um boa desculpa para justificar as suas vilanias. De imediato se perfila uma hoste de “catequistas impotentes” — os “cientólogos da educação”, lato sensu — pronta a encontrar um qualquer “trauma” — esse verdadeiro abracadabra da conceptualidade psicopedagógica — que permita “compreender” (= ser indulgente) as tropelias do infeliz; vide as tiradas de psicologia de pacotilha da pedopsiquiatra Ana Vasconcelos, para quem a professora da escola Carolina Michaëlis, ao arrepio do saber psicológico (não será antes etológico?) mais elementar, terá despertado a “besta” adormecida, pois não compreendeu que “o telemóvel constitui uma verdadeira extensão corporal da adolescente” (Ah, a senhora professora coloca-se no lugar da “má mãe”, a querer arrebatar o phallus à pobre adolescente, e está à espera de quê? Estava mesmo a pedi-las!).
O erro filosófico básico subjacente à teorização de todas estas “catequistas impotentes” é o psicologismo: a confusão entre “factos” e “normas”. Ora, uma vez criado tal equívoco, torna-se impossível emitir um juízo de valor sobre o comportamento de qualquer jovem, instando-o a responder pelos seus actos, isto é, a ser autónomo. Se considerarmos que a actividade pedagógica tem como principal escopo a criação de condições para a emergência de uma subjectividade deliberante e reflexiva, é preciso evitar este erro epistemológico e ético, o qual terá como efeitos nucleares o desenvolvimento de uma vontade heterónoma no indivíduo e a expansão da anomia social.

Anónimo disse...

Será que esse senhor era capaz de fazer melhor?
Então terá perdido uma boa oportunidade de ficar calado.
Pior do que aquilo que aconteceu (e acontece diariamente em muitas escolas sem ser filmado) é tentarem atirar com as responsabilidades para cima da professora.

Anónimo disse...

No inquérito à actriz do telele, o realizador vai ficar impune?
Parece-me que o seu comportamento pouco menos grave é.

LA disse...

Provavelmente a professora tinha pedido à aluna para desligar o telemóvel e ela voltou à brincadeira, é tipico, e vê-se a léguas que aquela turma não é brincadeira, de certeza que são muito dificeis de controlar.

Eu continuo na minha: as pessoas que nunca deram aulas, como esses sujeitos das ciências de educação e a ministra, que apenas foi professora universitária, não sabem absolutamente nada sobre como se ensina e como funciona uma escola.

Estou farto de comentários, ao tal caso, que são completamente estúpidos e ignorantes e que vêm de pessoas que se acham muito intelectuais, mas infelizmente não temos muitos cérebros neste país.

Gostei bastante dos teus últimos posts. Gostei que dissesses que é impossivel que todos os professores estejam bem preparados para lidar com alunos mal educados e estúpidos e agressivos. Isso devia ser evidente!
Também acho muita piada a algumas pessoas que estão sempre a acusar os professores de que eles não têm vocação e só dão aulas porque é um bom emprego! Mas será que nas outras profissões as pessoas exercem as suas funções por vocação e porque adoram o trabalho? Será que todas as pessoas que trabalham num banco ou numa fábrica, para não falar dos trolhas, têm vocação para o que fazem?! Será que o sonho de uma criança é trabalhar num banco ou numa repartição de finanças?! Não me venham com tretas! Claro que muitos professores estão na sua profissão como estariam num banco, tentam dar ser profissionais, normalmente, e é evidente que no meio dos 143.000 professores haverá pessoas de todos os tipos, e poucos serão os capazes de meter uma turma deste tipo na ordem, é preciso ter uma vocação muito rara para general da tropa, e mesmo assim...
Será que as pessoas acham que mesmo os tais professores que são vocacionados sonham em aturar turmas deste tipo, é esse o sonho das suas vidas? Que estupidez!

As pessoas até deviam estar caladas porque na classe dos professores já houve grandes escritores, por exemplo, e sabe-se que há pessoas de muita classe que poderiam ser bons cientistas ou matemáticos, ou outros, se o pais tivesse a capacidade para empregar as qualidades dessas pessoas que muitas vezes estão completamente desaproveitadas porque em Portugal não há emprego na pesquisa e essas pessoas de muito alta qualidade vão ensinar. Não faltam excelentes professores por essas escolas fora.

Eu não sou professor mas sei bem que é uma classe completamente desprezada, erradamente. Espero que vocês se mexam mais, porque muitas vezes acho que poderiam fazer mais, e espero que haja um PM decente que te escolha para ministro da educação, e se não for possível que sejas tu, que seja um professor verdadeiro, com classe e inteligência como tu, é disso que o ministério precisa, alguém que saiba do que fala e daquilo que é preciso fazer.
Claro que esta idéia de que sejas tu o próximo ministro, um mero professor, deve parecer uma brincadeira, especialmente para aqueles que têm um doutoramento em ciências da educação, apesar de nunca terem ensinado a canalha.
Até à próxima.

Ana disse...

Boa tarde, Sr. Sarmento.

Queria aqui deixar o meu total apoio a todos os textos que no seu blog escreveu sobre a situação na Escola Secundária Carolina Michaelis. Subscrevo-os totalmente.

Tenho apenas 19 anos - como vê, sou pouco mais velha que a indivídua (desculpe-me, mas recuso-me a chamar-lhe "aluna") que protagonizou tamanho "freak show" - e frequento agora FLUP. Devo dizer-lhe que em todo o meu percurso no ensino básico e secundário - o qual completei nem há um ano atrás - assisti a tal "espectáculo"! Andei tanto em escolas frequentadas por miúdos de bairros como em escolas frequentadas por meninos de famílias "bem" (que às vezes conseguem ser piores que os primeiros!); vi muita coisa que me chocou, mas nunca nada como o malfadado vídeo.

Só consigo dar graças a Deus por me terem dado uma boa educação desde pequena, ensinando-me a respeitar os mais velhos e aqueles que me são hierarquicamente superiores. Infelizmente, nem toda a gente, podemos com esta situação verificar, usufruiu do mesmo... E envergonha-me saber e constatar que a geração a seguir à minha (ou, se quiser, pessoas da minha geração, pois há quem ainda não faça a distinção) demonstra tal falta de chá, de educação e de respeito. Volto a frisar que deixei o ambiente em questão há muitíssimo pouco tempo e nunca vi tal coisa...

Concordo que estes estatutos todos elaborados pelo Governo estejam a agravar - em vez de resolver - a violência nas escolas e a minar letalmente a figura e autoridade do professor. Mais: sempre me ensinaram que "a educação vem desde o berço", pelo que os paizinhos desta nova geração não tem direito nenhum de exigir aos professores que estes desempenhem a função que cabe aos progenitores. A função do professor é ensinar. E espero fazer-me entender agora: os professores até podem educar, até certo ponto - mas nunca aquele tipo de educação que deve vir desde o berço e que, por conseguinte, cabe única e exclusivamente à família.

Termino com a nota de que, quando vi o vídeo que reporta a situação em questão (e não sei o que era mais animalesco - se a indivídua agredindo a professora, se o idiota do coleguinha que filmou tudo e ainda abrilhantou o vídeo com saídas dignas dum Razzie Award), só me lembrei de uma parte da letra da música "Welcome to the Jungle", dos Guns 'n Roses, que passo a transcrever:

"Welcome to the jungle
It gets worse here everyday
You learn to live like an animal
In the jungle where we play
If you got a hunger for what you see
You'll take it eventually
You can have anything you want
But you better not take it from me"

Ao que isto chegou...

Mais uma vez os parabéns pelo blog e desculpe a extensão do comentário.

touaki disse...

Esses "rapazes" (ou garotos?, ou fedelhos?) tipo João Amado, são sempre rápidos e certeiros a fazer diagnósticos. Só que, se tivessem um alvo do tamanho da Lua a 500 passos, duvido que acertassem!

brit com disse...

Sarmento para ME... Boa ideia.

Maria Lisboa disse...

"Esta gente cria os monstros, e depois exige aos professores que estejam preparados para lidar com eles."

É exactamente isto!
O problema é que para além de os criarem, continuam a alimentá-los com baboseiras ridículas apenas para sua própria sobrevivência.

Não tarda, teremos uma acção de formação em gestão de conflitos, promovida pelo ME, tendo por formador um qualquer João Amado.

Gostava de…
- gostava de ver este sr a trabalhar com 20 e muitos clientes, ao mesmo tempo, ao fim de algumas horas de sucessivos 20 e muitos clientes, sempre a "esticar a corda ao limite" (e por isto entendo a falta de interesse e de trabalho "institucionalizados" e a falta de postura e de atitude correctas sempre a necessitar de intervenção), ao qual se junta o cansaço das inúmeras reuniões com que nos brindam semanalmente em horário pós laboral, em especial as que ultimamente têm absorvido horas e horas de trabalho, com testes e trabalhos à espera de serem vistos (já a serem contabilizadas todas as horas de sono que ainda estão por perder), as corridas ente as famosas aulas de substituição e os projectos (que estupidamente teimamos em manter vivos), e mais o pensamento em que actividades desenvolver nas horas de TIC ou de AP ou EA ou FC a que os alunos por mais que nos esforcemos pouco ligam, onde ainda temos que juntar toda uma burocracia estúpida a cumprir...
- gostava de ver este sr enfrentar estes produtos das suas desvairadas interpretações de um conjunto de teorias onde se ficaram pelo “laissez faire que eles logo se socializam e adquirem competências”...
- gostava de ver este sr enfrentar o produto da prática do somos todos amigos e iguais, estamos todos ao mesmo nível, vivemos numa de companheirismo onde o adulto é apenas o “amigo” mais velho que pode ser tratado na mesma base do colega…
- gostava de ver este sr e outros quejandos enfrentarem, continuamente, dia após dia, neste contexto, que é o nosso, uma turma de "de meninos com comportamentos desviantes ou disruptivos" como eles chama à falta de educação…

Gostava de vê-los experimentar e continuar a falar de preparação!!!

Gostava, ainda, que muita gente que critica a falta de preparação da professora, se questionasse sobre o que sentiria se, no seu emprego, fosse constantemente, desconsiderado, desrespeitado pelo seu patrão, desrespeitado e ameaçado com palavras, gestos e mesmo actos físicos pelos seus clientes e pelas famílias dos seus clientes.
Claro que todos diriam que isso seria insustentável... no entanto, parece ser voz corrente que o professor tem que se sujeitar a tudo isto.

E depois ainda se queixam que não produzimos!
Como é possível produzir em turmas com alunos a quem, minuto a minuto, é necessário estar a chamar a atenção, a "pregar um sermão", a gerir o conflito em que se envolveram?

E não falo aqui de estatutos! Falo simplesmente, de educação para...!

E não me venham com classes sociais! Não, isto não é apanágio de classes sociais desfavorecidas! Isto é transversal a todas as classes!

E também não me venham com falta de normas de escola/de sala de aula! Elas existem em todas as escolas e o seu cumprimento é sistematicamente exigido! Demora é muito tempo a conseguir “cultivá-las” em terrenos que pouco ou nunca foram “arados”.

Dou só um exemplo que não tem a ver com educação… apenas com a apropriação da regra, enquanto factor de convivência.

Na escola onde estou (e para onde fui quase no seu início) demorámos 5 anos para que os alunos assumissem que o futsal se joga dentro de um campo cujas linhas são os limites e para além das quais a bola está fora de jogo! (jogavam futebol às 3 tabelas! :) )