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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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quarta-feira, 18 de julho de 2007

D. Quixote e Sancho Pança

LA tem um grito de alma n'O Insurgente: Não há liberdade económica em Portugal!

Aterrado, fui ler o post: teria o Governo, à sorrelfa, nacionalizado os cemitérios? Teria publicado um preçário para os protectores solares? Teria lançado um imposto sobre a escrita em blogues?

Nada disto, verifiquei com alívio. LA estava naquela aflição porque a ASAE, essa organização estalinista, decidiu regulamentar os saldos.

Do mal o menos, pensei. E para distrair LA dos seus cuidados aconselhei-o a deixar os livros por algum tempo (por algum tempo, repito) e a ir trabalhar como caixeiro numa loja de roupa. Isto, para lhe permitir conhecer em primeira mão os truques mais frequentes usados pelas lojas, em tempo de saldos, para defraudar os clientes.

O que eu fui dizer! LA achou logo que eu estava a dizer que os caixeiros percebem de concorrência e de intervenção estatal, ou seja - isto agora é interpretação minha - que, como qualquer ideólogo alucinado do «eduquês», menosprezo os livros e o «saber livresco».

O que nos traz - finalmente - ao assunto que anuncio no título deste post - D. Quixote e Sancho Pança: ou a experiência e os livros.

Qualquer pessoa que não tenha lido o D. Quixote sabe que o cavaleiro era louco - comicamente, tragicamente louco. Quem leu o D. Quixote sabe que isto é verdade - mas sabe também que Sancho Pança não era menos louco que seu o amo. D. Quixote, porque não olha à sua volta, condena-se a não compreender os livros. Como qualquer ideólogo moderno do neoliberalismo, do politicamente correcto ou de qualquer outra ortodoxia mais ou menos na moda, D. Quixote lê muitos livros mas não sabe distinguir neles entre o que é razoável e o que é disparate.

E Sancho Pança? Esse também não percebe nada de nada. Nunca leu um livro. Olha para o mundo e acredita em tudo o que vê com a mesma ingenuidade que leva o cavaleiro a acreditar em tudo o que lê. Está condenado a ver o real sem nunca o saber ler. Nunca distinguirá entre preço das coisas e o seu valor. Com uma gravata italiana e a barba feita daria nos dias de hoje um excelente corretor de Bolsa - e nos seminários e workshops em que participasse poderia citar abundantemente o outro, que do estatuto de amo teria passado ao de guru.

A única grelha interpretativa dos livros é o mundo. A única grelha interpretativa do mundo são os livros - se alargarmos o conceito de «livro» a tudo quanto constitua registo do pensar e do sentir humano. É em relação a isto que D. Quixote e Sancho Pança partilham uma brutal ignorância que por fim de contas é uma e a mesma. Por mim, antes me quero na pele do cura e do barbeiro.

Não, LA: apesar de todos os anos que sofri de exposição ao «eduquês», não é minha vontade nem intenção abandonar os livros e procurar sem eles, ou contra eles, uma ilusória «ligação ao real». Não verbero em si o erro de D. Quixote para depois cair eu no de Sancho Pança.

E não acho que os caixeiros saibam mais de economia do que os economistas; simplesmente, têm acesso a detalhes que passam despercebidos a outros profissionais mais sabedores e mais altamente colocados.

4 comentários:

José Morais disse...

Caro José sarmento,
Fui uma das pessoas que comentou o seu comentário no insurgente e o qual teve a atenção e simpatica de me responder, resposta que desde já e sinceramento lhe agradeço.

Acredito, sinceramente, e convicção que ao longo da minha vida profissional vem vindo a ser consolidada, que uma prática legal e regulatória, como os saldos, sobre determinadas actividades é sempre penalisante para quem esta pretende defender. o mercado são pessoas, pessoas têm desejos, interesses, e determinada capacidade para os satisfazer; se por incapacidade económica alguém espera pelo periodo de saldos para adquirir bens, se a quantidade de individuos com este comportamento for significativa, não achas que alguém terá a ideia da criação de lojas com prémio de desconto permanente? só não poderá avançar ... se legalmente limitado ...

Bem haja
José Morais

José Luiz Sarmento disse...

Caro José,

Numa coisa estou de pleno acordo contigo: em Portugal há proibições a mais, quer sobre as empresas, quer sobre as pessoas. O que complica a questão, porém, é que também há proibições a menos.

Olhando para as muitas coisas que são proibidas, fica-se com a sensação que se proíbe porque sim: ou porque sempre se proibiu e não se quer ter o trabalho de rever as razões (que em seu tempo podem ter sido boas) dessa proibição; ou simplesmente porque em certas cabeças não há espaço para certas permissões.

Por outro lado permite-se o que nunca devia ser permitido, como por exemplo a abertura das lojas ao domingo.

Não sei bem o que é uma loja com prémio de desconto permanente. Se é uma coisa do género do «Outlet» de Vila do Conde, onde vou às vezes comprar, por metade do preço inicial, roupas e sapatos de marca que já não fazem parte da colecção deste ano, então já é permitido abri-las.

Vivi seis anos na Suíça, país onde vigora um sistema económico com muitas das características que os liberais reivindicam para o nosso. Vi serem permitidas lá muitas coisas que cá são proibidas, e também vi o contrário. Algumas destas diferenças são facilmente compreensíveis tendo em conta os diferentes percursos históricos que determinaram as duas culturas. Ficaríamos todos mais pobres se Portugal fosse a Suíça ou se a Suíça fosse Portugal.

Não obstante, há diferenças que não compreendo. Há medidas que fariam todo o sentido em Portugal e que só não são tomadas por preconceito ideológico. Dá a impressão que nada se faz porque tudo é, ou demasiado economicista, ou demasiado estatista para se fazer.

O que eu gostava de ver, tanto nos nossos liberais como nos nossos socialistas, era um pouco mais de pragmatismo (atenção: não entendo por pragmatismo a fascinação bacoca com a tecnologia e com os «objectivos», mas sim a predisposição do espírito para avaliar cada questão pelos seus méritos e decidir em consequência).

Pensando melhor: um pouco mais de pragmatismo, não: o que é preciso é muito mais pragmatismo. Antes de perguntarmos se uma determinada lei ou uma determinada política é «estatista» ou «liberal», devíamos perguntar se funciona. É o que fazem os suíços e até agora não se têm dado mal com isso.

Um abraço
Zé Luiz

AA disse...

Caro JLS,

É claro que os lojistas sabem todos os truques - e ainda bem que sim, assim servem melhor a sua clientela.

Se não houvesse leis a regular os saldos, os recursos que hoje dedicam a dar a volta à letra da lei (tempo, inteligência, dinheiro) teriam de dedicar a superarem a concorrência.

Não é uma questão dos consumidores terem "direito a" que tais leis "reguladoras" sejam abolidas. Têm direito a que não existam. Proibir o exercício de actividades comerciais legítimas é simplesmente tirânico.

José Luiz Sarmento disse...

Caro AA,

Tenho um amigo que é comerciante e que, precisamente porque sabe todos os truques, arranja maneira de se defender deles quando praticados por outros.

Por exemplo: uns dias antes dos saldos, se está interessado numas calças ou numa camisola, seja lá o que for - vai às lojas de roupa e toma nota dos preços daquilo que lhe pode interessar.

Chegados os saldos, torna lá, deduz o desconto publicitado ao preço de que tinha tomado nota, e exige que lhe entreguem a mercadoria pelo preço resultante.

A reacção habitual das lojas, nestas circunstâncias, é pedir muita desculpa pelo «lapso». Mas eles sabem, e ele sabe, e eles sabem que ele sabe, que não se tratou de lapso nenhum: tratou-se duma mentira.

É mentindo aos seus clientes que as lojas os servem melhor? Eu por mim não quero que me mintam, mesmo que seja para meu bem. Não sou nenhum menino pequeno: se a loja entende, feitas as contas, que lhe convém vender por 80 o que custava 100, quero ser informado de que o desconto é de 20% - e depois decido livremente se quero ou não quero comprar com esse desconto.

O que eu não quero é que a loja me minta, dizendo que o preço anterior era de 160 e que a redução foi de 50%. É uma mentira que pode beneficiar a loja, mas que certamente não me beneficia a mim.

Quanto ao seu segundo parágrafo, não vejo como é que o esforço para dar a volta à lei e o de superar a concorrência se excluem reciprocamente. Parece-me até, pelo contrário, que o primeiro esforço se inclui no segundo, porque a loja que melhor dê a volta à lei adquire uma vantagem competitiva sobre a que lhe dá a volta menos bem. Se a lei tivesse «dentes», aí, sim: as lojas, não podendo concorrer nos truques, teriam que concorrer na qualidade e nos preços, que é o que interessa ao consumidor.

Quanto à sua última frase: claro que proibir o que é legítimo é tirania, do mesmo modo que permitir o que é ilegítimo é fraqueza ou corrupção. Como escrevi acima em resposta ao José Morais, parece-me público e notório que Portugal sofre de ambos os males. O problema - e tem sido este precisamente o assunto da nossa conversa - é distinguir o que é legítimo do que é ilegítimo.

Eu, como bom democrata, odeio a tirania; mas como bom hobbesiano considero que a tirania, comparada com a anarquia, é sempre o mal menor. Julgo que uma mirada rápida pela História do Mundo nestes primeiros anos do milénio tenderá a confirmar a validade desta filosofia.