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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

PS: meio milhão de votos a menos

Não vou entrar aqui na discussão sobre quem ganhou e quem perdeu estas eleições. A meu ver, esta questão é como a do copo meio cheio e do copo meio vazio: digam os interessados o que disserem, têm sempre razão, e daqui resulta que tudo o que dizem é irrelevante.

Um facto incontroverso é que o PS perdeu meio milhão de votos. Isto tanto pode ser compatível com a reivindicação duma vitória como com o reconhecimento duma derrota. Tudo depende das causas dessa evolução, que são o que nos poderá permitir prever se estamos perante um acidente de percurso ou perante uma tendência que se prolongará no futuro. E ainda é cedo para analisar essas causas.

Como professor do ensino público, gostaria de poder dizer que os quinhentos mil votos a menos do PS se devem ao pogrom sobre as classes profissionais; mas os professores são só 150.000, menos de um terço dos votos que o PS perdeu; e as outras classes letradas, além de menos numerosas, foram menos hostilizadas.

Como homem de esquerda, gostaria de poder afirmar que a descida se deveu ao Código do Trabalho que o PS traz acorrentado ao tornozelo como uma bola de ferro; mas lá está a subida do CDS, autor original desta lei, para me obrigar a encarar com cautela esta hipótese.

O CDS, por seu lado, gostaria de atribuir a descida do PS à preocupação dos portugueses com a criminalidade, a segurança e a imigração. Esta explicação pode ser parcialmente verdadeira, mas explica menos de metade desta descida.

O mais provável é que os três factores tenham contribuído, em maior ou menor proporção. O único factor que não contribuiu, quase de certeza, é aquele que o PS mais tem invocado: a defesa do bem público contra os interesses particulares. E isto por duas razões: está por provar que os interesses dos profissionais letrados conflituem com o bem público (pelo contrário, há razões para acreditar que têm largas zonas de intersecção com ele); e se há coisa de que o PS não se pode vangloriar é de ter combatido, em nome do bem público, os interesses privados da oligarquia financeira e do capitalismo rentista.

Causas semelhantes costumam ter consequências semelhantes. Se o PS mantiver, na próxima legislatura, os ataques soezes à sociedade civil (demonizada sob o epíteto de "corporações"); se continuar a tomar o partido do capitalismo corrupto contra os cidadãos em geral; e se não der uma resposta às preocupações legítimas do populismo de direita (contribuindo assim para desmascarar a agenda oculta, essa sim ilegítima, que este possa ter); se não der sinais claros de se querer demarcar do centrão dos interesses - a consequência será uma nova descida eleitoral. Talvez não tão acentuada como a que sofreu ontem, que pode ter aproximado o partido do seu núcleo irredutível; mas assim mesmo uma descida.

4 comentários:

carvalho disse...

Foi vergonhosa a campanha que o P"s" fez na Amadora. Andaram a arregimentar os pretos e ciganos com o argumento de que se o socrates perdesse, eles perdiam o RSI.

Paula M disse...

Esse é o saldo de perdas e ganhos do PS. Resulta dos votos perdidos (mais de 500 mil) e dos captados (36% dos novos eleitores?). Parte dos perdidos não eram do PS mas sim do PSD em fuga de SL e voltaram agora à base ou ao CDS. Acrescem os perdidos devido às dúvidas qt à idoneidade e/ou estilo de JS e os resultantes de medidas mais duras para as corporações e interesses instalados. Na minha opinião, os interesses das corporações dificilmente se compaginam com o interesse público. Não há sindicatos de pobres (perspectiva transversal a toda as áreas de governação), desempregados, doentes, utilizadores da Justiça, alunos e respectivas famílias das camadas mais desfavorecidas em termos sociais e culturais…
O governo de JS, pela 1ª vez no Portugal democrático, utilizou a sua maioria absoluta para tentar avançar com reformas que urgiam. As anteriores maiorias absolutas arrepiaram caminho qd perceberam que isso levaria à perda de votos. Daí as pressões dentro do próprio PS. Mas JS é teimoso, manteve-se firme e apoiou os seus ministros. Na generalidade concordo com as medidas iniciadas na Educação e é para mim óbvio o seu interesse público (o objecto da educação são os alunos e não os professores), embora me pareça necessário corrigir e melhorar algumas (e.g. acesso a prof. titular). Todavia, a manipulação conduzida por alguns sindicatos e partidos (não esquecer as invenções maquiavélicas postas a circular, de que é exemplo paradigmático a frase atribuída a MST) e o ambiente que consequentemente se gerou nas escolas levou a uma total impossibilidade de diálogo. A racionalidade migrou para outras paragens. Vamos esperar que volte.
Paula Martins

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Paula, discordo de quase tudo o que escreve no seu comentário. É óbvio que o fez de boa-fé, e no que respeita o raciocínio não há nele falácias relevantes. Há, sim, falta de informação e alguma confusão em certos conceitos.

Em vez de lhe responder ponto por ponto, concentar-me-ei no que me parecem ser as ideias-chave.

Primeiro, a questão do interesse das corporações e do interesse público. Nunca afirmei que os interesses duma corporação coincidissem inteiramente com os da República: se coincidissem, entregava-se a essa corporação o governo e não seria preciso Estado nem democracia. O que eu mantenho é que há zonas de intersecção; contrapor os interesses das corporações ao interesse público em termos absolutamente dicotómicos, como se essas zonas de intersecção não existissem, só faz sentido se estivermos a falar de máfias. O recurso a esta retórica por parte de José Sócrates não só configura um insulto às classes profissionais (equivale a chamar criminosos ou inúteis aos seus membros) como redunda num ataque ao próprio interesse público na parte em que este possa coincidir com os das corporações. E esta parte, no caso de funções tão vitais para a República como a dos médicos ou dos professores, não é despicienda.

Tem mesmo a certeza que não há sindicatos de pobres? Pois eu digo-lhe que há: não lhes chamamos sindicatos nem corporações, chamamos-lhes gangs. Mas são estruturas organizadas, por vezes de modo altamente sofisticado, e o poder tem medo delas. E digo-lhe mais: os únicos sindicatos de que o poder tem verdadeiramente medo são os dos muito pobres e os dos muito ricos. Por isso reserva o epíteto "corporações" para as organizações da classe média - e especialmente da classe média letrada, que reivindica uma palavra a dizer na definição do bem comum na parte em que este releva do seu conhecimento especializado.

Escreve a Paula que as reformas urgiam. No que toca as outras profissões, não sei se urgiam, se não: as coisas são muito diferentes vistas de fora e vistas de dentro. No que toca o ensino, as reformas que urgiam eram três: combater o incivismo nas escolas, libertar o sistema do delírio pedagógico que o corrói e aligeirar drasticamente as burocracias que o asfixiam a nível central e regional. Porque se o objecto da escola são os alunos, os agentes do ensino são os professores. Para quem o sistema não foi feito, de certeza, foi para os burocratas e os "especialistas" - e estamos a falar de dezenas de milhares de pessoas pagas pelos contribuintes - que constituem o caldo de cultura em que Maria de Lurdes Rodrigues se criou. Das medidas que urgiam, o governo não tomou nenhuma: pelo contrário, agravou as três.

Das medidas tomadas, umas foram úteis, mas não mais que isso; e muitas outras foram pura encenação política. Mas as que urgiam ficaram por fazer e parecem hoje ainda mais inalcançáveis que há quatro anos. E assim continuará a ser enquanto os responsáveis políticos pela educação não souberem por experiência própria o que é uma escola nem para que serve.

Rui Ferreira disse...

Existem pessoas capazes, lúcidas e cultas.
Os meus sinceros parabéns ao JLS pela oportunidade que me dá de conhecer o seu pensamento. Obrigado.