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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

De como o aproveitamento escolar foi sorrateiramente transformado em "sucesso" (actualizado)

O meu saudoso Professor Paulo Quintela costumava dizer, a quem lhe falasse em sucesso, que "sucesso" é acontecimento ou parto; na outra acepção diz-se, em português, "êxito".

Cultor erudito das línguas, literaturas, artes e pensamento dos países germânicos e anglo-saxónicos, não deixava por isso Paulo Quintela de exigir de si próprio e dos seus discípulos um uso correcto, económico e exacto da língua portuguesa. Imagino o sarcasmo de que cobriria, se fosse vivo, as importações para o jargão empresarial e político português do já de si paupérrimo inglês tecnoburocrata. Imagino a opinião que teria - ele, um socialista de sempre - do Engº José Sócrates e da Drª. Maria de Lurdes Rodrigues.

Mas Paulo Quintela talvez se enganasse. A palavra "sucesso" não significava exactamente, já então, o mesmo que êxito. Quem tem êxito, tem-no em alguma coisa; tem-no num empreendimento qualquer, seja ele a subida do Evereste, seja a obtenção de um doutoramento, seja o fecho vantajoso de um negócio. Já o sucesso pode ser obtido sem outra referência que não seja o próprio sucesso. No nosso mundo intransitivo - alguns chamar-lhe-iam Sociedade do Espectáculo - o sucesso consiste em ter sucesso.

Não admira, assim, que no mundo do ensino o conceito de "aproveitamento" tenha sido paulatinamente substituído pelo de "sucesso". Nos diplomas e nos certificados escrevia-se que determinado aluno tinha frequentado com aproveitamento o ano tal de tal curso. Isto subentendia um contrato entre o Estado e o aluno: uma parte fornecia ensino gratuito ou quase, a outra comprometia-se a aproveitar esta oferta. E o ensino aproveita-se aprendendo.

O sucesso não é tão exigente, nem em matéria do bem fornecido pelo Estado, nem das contrapartidas que se esperam do aluno. O Estado já não ensina: educa. E ao aluno não se pede que contribua para este esforço com outra coisa que não seja a presença física em pelo menos algumas "actividades".

E desta matéria se fazem as estatísticas. No balanço que José Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues fizeram da política educativa na legislatura que agora termina, o "combate ao insucesso" apareceu de novo estreitamente ligado ao combate ao abandono escolar.
Compreende-se que assim seja: no mundo virtual e intransitivo deste governo, o sucesso escolar de um aluno consiste e esgota-se em permanecer na escola.

1 comentário:

Austeriana disse...

Só discordo do advérbio de modo (com as novas disposições morfológicas, não sei se a designação ainda é esta...)do título. É que, de facto, não foi "sorrateiramente": foi descaradamente!
Excelente texto (como é, de resto, habitual).Um abraço.