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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Rosebud

Não sei se foi pelos anos ou pelo Natal. Tinha eu oito ou nove anos quando o meu pai me ofereceu uma história em doze volumes de Henry Dalton & Philip Gray sobre as "autênticas façanhas de Anton Ogareff, o maior aventureiro eslavo". Um dos meus irmãos recebeu uma obra em quinze volumes dos mesmos autores: A Volta ao Mundo por Dois Aventureiros.

Não sei quantas vezes li e reli as duas histórias ao longo da minha puberdade. Quando eu e o meu irmão adquirimos alguma capacidade de crítica literária e deixámos de lhes dar importância, foram-se perdendo volume a volume até pouco restar delas quando saímos de casa.

Há dias, passei por um alfarrabista e descobri que tinham a colecção completa do Anton Ogareff e que era muito provável que conseguissem arranjar a da Volta ao Mundo. Foi um encanto.

Comparo-me agora, meio século depois, com a criança que tinha aprendido com estas leituras que em tempos, na Rússia, houvera senhores cruéis e mujiques oprimidos; que os Balcãs eram uma região politicamente perturbada (certo) e que a Libéria era um oásis de liberdade e progresso num continente miserável (errado); que havia no mundo a Legião Estrangeira, a selva amazónica, antros de ópio na China, piratas na Malásia e Tugues, seguidores de Khali, na Índia.

Agora, ao reler as aventuras do russo, verifico com alguma surpresa que me lembrava razoavelmente das peripécias violentas, mas de nenhuma peripécia amorosa E são pelo menos dois sub-enredos amorosos; convencionais, sentimentais, rudimentares, mas sub-enredos. Não me lembrava sequer do nome de nenhuma personagem feminina a não ser de uma, Nadia, que depois de chicoteada por ordem do tirano consegue exercer sobre ele uma terrível vingança.

Não sei se saltei as páginas em que se narravam os sofrimentos e as alegrias dos apaixonados, ou se as li sem que se gravassem no meu espírito. A aventura empolgava-me, mas o amor passava-me ao lado.

Pergunto a mim mesmo se hoje alguém daria a ler histórias como estas a uma criança de nove anos. Estou em crer que não. Seria politicamente incorrecto mostrar a violência tão de perto e apresentar como herói uma personagem que é, pelos padrões de hoje, um terrorista - ainda que a nobreza do seu carácter seja imensa, e profunda a baixeza do príncipe, contra quem se revolta de armas na mão. E seria pedagogicamente incorrecto confrontar uma criança com noções - neste caso o enamoramento - que ela ainda não é capaz de compreender.

Mas a verdade é que estas histórias não me fizeram, que eu saiba, mal nenhum. Aquilo que não compreendia, ignorei-o, ou interpretei-o à minha maneira: não me fez confusão. Mas compreendi muito bem que a tirania é execrável, e que o derrube dos tiranos pela força é um direito dos homens.

1 comentário:

Rui Herbon disse...

"Pergunto a mim mesmo se hoje alguém daria a ler histórias como estas a uma criança de nove anos. Estou em crer que não."

É pena e há-de explicar a miséria para que a nossa civilização se encaminha. Excelente texto.