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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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domingo, 1 de novembro de 2009

O que aprendi com as críticas

Era minha intenção escrever hoje um texto em que explicitasse e desenvolvesse a referência ao neotaylorismo que faço no título da minha proposta de avaliação. Fica para depois.

Para já, quero agradecer as críticas que recebi - tanto as negativas como as positivas, tanto as que me parecem acertadas como as que me parecem ao lado, tanto as que me parecem mais viscerais como as que me parecem mais reflectidas. Nenhuma me pareceu ofensiva ou mal intencionada e todas me foram úteis.


Uma crítica recorrente foi a imperfeita correspondência entre a secção inicial do texto e o restante articulado. O demónio, já se sabe, está nos pormenores; e fiquei a saber que, se a minha intenção fosse fazer vingar politicamente a proposta que faço, teria que trabalhar muito para conciliar melhor os princípios de que parto com a sua aplicação concreta.


A segunda lição, decorrente desta, é que é muito mais fácil obter a concordância dos outros em matéria de princípios abstractos do que na sua aplicação concreta. Esta é uma lição importante, não só para mim, como para qualquer pessoa que intervenha no debate educativo. É na transição entre a teoria e a prática que as dissensões aparecem e as solidariedades se desfazem. O governo sabe disto, e não foi por acaso que Francisco Assis se foi colocando em posição de atacar aquilo a que chamou "coligações negativas". A defesa contra estas tácticas implica a obediência a um lema: rigidez e radicalidade no abstracto, flexibilidade e moderação no concreto; e isto especialmente no debate com quem está do nosso lado. Rigidez e radicalidade para que as nossas posições não percam coerência nem sentido; flexibilidade e moderação para que não se criem fracturas onde não as há.

Terceira lição: qualquer referência aos alunos como possíveis avaliadores, mesmo que envolta em todas as precauções e salvaguardas possíveis, toca um nervo sensível dos professores. É natural que assim seja: as feridas que sofremos são demasiado recentes e ainda estão abertas; o nervo está ainda exposto; e nem sequer está garantido que o processo de cura esteja em vias de começar. Continuo a acreditar que este debate deve ser feito, mas talvez seja sensato deixá-lo para mais tarde. Para já, deixo apenas, relacionada com este tema, uma proposta de reflexão: já que nenhum avaliador pode ser totalmente idóneo, que tal alargar o mais possível o leque de avaliadores, criando do mesmo passo um sistema de freios e contrapesos que os condicione a todos?

A última lição, que aprendi por via indirecta e por processos mentais mais inconscientes que deliberados, nasce da oposição entre adequação e perfeição que fui levado a estabelecer, e desagua na solução duma perplexidade para a qual ainda não tinha encontrado resposta satisfatória: de onde nasceram os monstros do modelo de avaliação e do ECD? Como foi possível inscrever na realidade dois objectos tão desconformes a ela?


Uma das respostas aventadas por Santana Castilho - a abismal ignorância de uma ministra que nem sequer sabe o que é uma escola nem para que serve - é sem dúvida correcta, mas não chega. Se lhe adicionarmos a propensão tecnocrática de José Sócrates, o seu fascínio bacoco com os meios em detrimento dos fins, ter-nos-emos aproximado mais um pouco da solução, mas continuaremos longe dela. A vassalagem da nossa classe política a corporações que nada têm a ver com o propalado interesse público (como a indústria das ESE's e o lóbi dos editores) é mais uma explicação. A moda de que tudo deve funcionar "como as empresas" - quando nem as empresas funcionam "como as empresas" - é outra peça do puzzle. O poder das burocracias intermédias do Ministério, e a torre de marfim em que vivem e se multiplicam, é outra.


A peça que me faltava é aquilo a que Goya chamou "o sonho da razão", que "engendra monstros". Maria de Lurdes Rodrigues deixou-se envolver num sonho de perfeição e de absoluto; quis medir tudo até à última casa decimal; pensou, como pensam os astrólogos, que o rigor dos números e a complexidade dos cálculos podem compensar o absurdo das premissas. Em vez de procurar remédios adequados para todos os males do ensino, tentou impor uma solução impossivelmente perfeita para apenas um - que apresentou como se fosse o único.

O sonho da razão engendra monstros, com efeito. O próprio rigor pode entrar em delírio. Mas isto é matéria para outro texto: o tal que tinha previsto escrever sobre o neotaylorismo.

4 comentários:

Ramiro Marques disse...

Excelente post. Concordo a 100%.

Teresa Antunes disse...

Não sei de qual texto gostei mais: se do dos princípios, se deste que os olha à luz da crítica.

Quando a razão não dorme, pode produzir esperança.

Obrigada, pois, pela vigília.

Mario Sergio disse...

o que falta no ser-humano é a capacidade de escutar, entender e absorver o ponto-de-vista oferecido por outro.

não precisamos concordar com outros pontos-de-vista, mas temos o dever de entendê-los e dai sim, absorver ou não o que nos cabe.

M P P disse...

Gostei do texto.
De facto a ideia de que a perfeição da organização está na empresa ( privada) pode ser desmentida facilmente analisando a gestão das empresas, grandes, pequenas, micro e nano, que competem no mercado português, americano, italiano, alemão....
A escola é uma realidade singular.