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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Por uma avaliação dos professores sem derivas neotayloristas

I

Princípios gerais

1. A Escola Republicana é uma instituição da Sociedade Civil e tem por função transmitir entre gerações o património científico, cultural, artístico e técnico adquirido pela sociedade e pela humanidade em geral. Deste modo, a conservação e a inovação são os dois pólos do seu ethos, que se realizará, quer na conservação e continuação do património adquirido, quer na sua contestação crítica.

2. O conhecimento (saber e saber fazer) e a sua transmissão entre gerações constituem a prioridade da escola e a sua razão de ser. No âmbito do conhecimento, o conhecimento contextualizante e estruturante tem prioridade sobre o conhecimento de utilidade imediata, que é efémero e se torna rapidamente inútil.

3. A função de educar compete em primeiro lugar à família e subsidiariamente à sociedade em geral, não devendo ser assumida pela escola a não ser na medida em que esta educa ensinando. Ao arrogar-se o direito de intervir sobre todos os aspectos da pessoa do aluno e sobre todas as esferas da sua vida, a escola substitui-se às famílias e ao tecido social e usurpa uma autoridade que não lhe cabe legitimamente, tornando-se assim uma instância totalitária.

4. O professor tem por função ensinar. Quaisquer outras funções que assuma ou lhe sejam atribuídas serão subsidiárias desta e orientadas para ela.

5. A avaliação dos professores deve incidir na proficiência com que exercem as funções que lhes são próprias. A proficiência em funções ou tarefas subsidiárias é presumida a partir do resultado da avaliação naquelas, e, se tiver que ser sujeita a procedimentos avaliativos específicos, sê-lo-á a título supletivo e residual.

6. O professor é um trabalhador assalariado, obrigado a uma prestação definida e limitada em troca de um salário também ele definido e limitado.

7. O professor é também um profissional, obrigado a uma deontologia historicamente definida e legitimada. A deontologia docente tem como valores centrais o conhecimento, a racionalidade, o pensamento crítico e a conformidade do ensinado com o real. Enquanto avaliador de alunos, é direito e dever do professor fazer prevalecer critérios de racionalidade e de validade científica sobre quaisquer outros critérios de avaliação que lhe sejam determinados por via hierárquica.

8. A condição profissional do professor prevalece, para efeitos disciplinares e de avaliação, sobre a sua condição de assalariado.

9. A progressão na carreira depende por um lado da avaliação do professor e por outro da sua experiência profissional, estando as duas vertentes integradas entre si segundo uma fórmula simples, clara, racional e unívoca. É além disso subsidiária da avaliação prévia da escola.

10. Só um cidadão pode formar cidadãos. O direito-dever de o professor ser avaliado articula-se com o seu direito-dever de avaliar a escola e as políticas educativas que lhe cabe executar, sem prejuízo da legitimidade dos órgãos de soberania para terem a última palavra em relação a estas.

11. A avaliação é um instrumento de determinação do mérito no âmbito duma relação legal ou contratual definida pela sua natureza e pelos seus limites, e não tem que considerar comportamentos exteriores ou suplementares a este âmbito. Este princípio decorre do facto de o trabalhador ser uma pessoa soberana em relação a si própria, não podendo o seu tempo de vida ser tratado como propriedade do empregador. Consequentemente, a avaliação, tal como a definição de objectivos, não pode ser instrumento de um qualquer neo-taylorismo, nem utilizada para defraudar, subverter ou contornar direitos definidos por lei ou por contrato.

8 comentários:

Xprof disse...

Fantástico!!!

Isto mereceria uma divulgação universal!

Parabéns!!!!

Mário Machaqueiro disse...

Também acho. Por isso já fiz um link para este texto no blogue da APEDE.

Anónimo disse...

Gostaria que o autor desta proposta referisse quais foram as fontes inspiradoras da sua proposta.

Carlos

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Caro Anónimo, não me vai ser fácil responder à sua pergunta. A minha primeira reacção, quando a li, foi pensar que não tinha fontes de inspiração nenhumas. E com efeito não as tem directas; mas indirectas tem muitas, das quais tenho maior ou menor consciência.

A fonte que me vem imediatamente ao espírito é um artigo, intitulado Hating what you do, da revista The Economist de 10 de Outubro de 2009. O artigo parte da vaga de suicídios na France Telecom para caracterizar o taylorismo que transitou da era industrial para a era pós-industrial. Algumas das características deste neotaylorismo são facilmente reconhecíveis por qualquer professor português ou europeu que tenha reflectido um pouco sobre a sua profissão e sobre as implicações sociais e políticas do seu exercício.

O que o artigo fez, foi fornecer-me um conceito unificador para certas ideias que eu vinha elaborando, consciente ou inconscientemente, desde há muito.

Não é claro para mim como tudo isto se articula com uma proposta de avaliação concreta como a que apresento neste texto. Mas talvez o texto que tenho em mente escrever a seguir ajude a clarificar as coisas para mim próprio e para os meus leitores.

Obrigado pelo seu interesse no que escrevi.Lamento não poder dar-lhe referências bibliográficas mais explícitas, mas realmente a minha proposta resulta da minha experiência pessoal (e da elaboração inconsciente de muitas fontes) e não da consulta imediata de algumas.

Anónimo disse...

Caro José Luiz Sarmento,

Agradeço a sua pronta e franca resposta. Ficarei a aguardar com o maior interesse o texto que tem em mente escrever a seguir. Por mim, apesar de algumas discordâncias, vejo na sua proposta uma base de trabalho honesta de quem, efectivamente, conhece o "terreno acidentadíssimo" que é o da Educação.
Um abraço do colega (que em breve o contactará por mail)

Carlos (é mesmo o meu nome, que já havia assinado acima)

Fátima Inácio Gomes disse...

Parabéns, José Sarmento, pelo pelo contributo, nesta causa de todos nós, numa perspectiva construtiva, empenhada e consciente.

Esta tua proposta tem vários pontos que me despertaram a atenção e que apoio, desde já. Tem outros que eu questiono, mas o unanimismo nunca é bem vindo (nem esperado) quando se pretende construir um projecto que abranja muitos.
Gostei, sobremaneira, das premissas. Chapeau !

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Caro Carlos:

Peço desculpa por não ter reparado na assinatura no seu comentário anterior. É claro que espero discordâncias. O texto tem vários propósitos, dos quais dou conta na mensagem seguinte, mas entre eles não se encontra a sua adopção pelo Governo como política pública.

Se eu tivesse estatuto para influenciar políticas públicas, o grosso do meu trabalho começaria agora: fazer com que todas as premissas se reflectissem no articulado, anotar as discordâncias e integrá-las, se possível, numa segunda versão do texto; perguntar a quem me diz que a proposta é inexequível as causas dessa inexequibilidade, e eliminá-las; pedir a quem me diz que a proposta é burocrática que me ajude a simplificá-la; e assim por diante.

Cara Fátima Inácio Gomes, também acho que o melhor do texto são as premissas. É à luz delas, e não do articulado em si, que tenciono construir as minhas críticas a outras propostas que vão aparecendo - especialmente as dos partidos políticos em sede parlamentar.

Manual disse...

Caro José Luiz Sarmento,
O Manual Escolar 2.0 tomou a liberdade de publicar um link para este post. Pode conferir aqui: http://www.manualescolar2.0.sebenta.pt/projectos/sebenta/posts/114. Aproveitamos a oportunidade para convidá-lo a visitar o nosso site e a participar nas diversas discussões que lá permanentemente decorrem.
Atentamente,
Filipe Medeiros
Manual Escolar 2.0