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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Do meu desencanto

Saio do parque de estacionamento da Praça dos Poveiros. Viro à esquerda para subir a Rua D. João IV. Sigo pela Rua da Alegria e pela Rua de Costa Cabral. Em frente do Hospital do Conde Ferreira viro à direita, para as Antas, para apanhar a VCI. 

Na parte citadina no percurso não escolho a faixa da direita, mas aquela em que me palpita que encontrarei menos automóveis parados. Raramente acerto. Um dia lembrei-me de contar as vezes em que tive que sair da faixa de rodagem: quando cheguei às vinte desisti.

Tento lembrar-me se na Suíça, onde conduzia diariamente entre a minha casa e as cinco escolas em que trabalhava, alguma vez tive que fazer um ziguezague para me desviar de um automóvel parado. Não me recordo de nenhuma.

Desespero. Zero vezes em seis anos, vinte vezes em dez minutos. Esta distância parece-me demasiado grande para que o meu País alguma vez a transponha. Comparo as escolas suíças - sólidas, limpas, confortáveis, bem construídas - com os edifícios colados a cuspo construídos à pressa e sem concurso pela empresa Parque Escolar. Penso no dinheiro dos meus impostos que vai parar aos bolsos de empresários amigos de políticos. Penso no défice. Penso na dívida que vamos deixar às gerações futuras, obrigando-as a pagar estruturas que nunca irão utilizar porque entretanto terão deixado de funcionar. Penso no património que as gerações passadas nos deixaram e que nós destruímos.

Não é a dívida, estúpido. É o saldo.

Penso nas medidas de austeridade e nos seus objectivos. Passivo zero (talvez), e activo zero (de certeza). Grande herança, sim senhor. Os nossos filhos vão ter boas razões para se sentirem gratos: a nós, ao engº Sócrates, ao dr. Passos Coelho, à sra. Merkel, ao sr. Strauss-Kahn, ao dr. Milton Friedman, aos economistas mediáticos. Linda herança: zero ou menos que zero.

Não são as finanças, estúpido. É a economia.

Penso nos professores. Souberam reconhecer que estavam debaixo de ataque por razões de economicismo. Ou de financeirismo, para não alinhar em confusões que não são inocentes. Mas não viram que o ataque não é só contra eles, nem só por razões financeiras. Não viram que se insere numa contra-reforma anti-republicana - contra a res publica - em curso há trinta anos em todo o mundo desenvolvido. Não viram que o poder político só combate os grupos de interesse - as corporações - para mais facilmente se render a um só deles.

Não são os privilégios, estúpido: é a oligarquia.

Os professores sabem que estão a ser desautorizados, mas não compreendem a diferença entre autoridade profissional e poder político. Permitem que os governos se arroguem o direito de validar ou invalidar sistemas de pensamento, e não vêem que esta usurpação define o totalitarismo e constitui o seu centro.

As outras profissões letradas também capitulam. Até os economistas mediáticos - mas estes, ao menos, são pagos para prostituir a sua autoridade. Nós deixamos que usurpem a nossa e ainda por cima pagamos.

Isolámo-nos, ou deixámos que nos isolassem. Deixámo-nos encurralar. Desperdiçámos as vantagens estratégicas que uma política de alianças determinada - e aliados naturais não nos faltam - nos teria proporcionado. Defendemo-nos quando era ocasião de atacar.

E agora? Talvez os automobilistas deixem de parar na faixa de rodagem. Talvez. Talvez os professores passem ao ataque - se não o fizerem, outros o farão. Talvez estejamos ainda a tempo de lutar - por nós próprios e pelo bem público, cuja defesa também nos compete.

6 comentários:

Rui Ferreira disse...

Os políticos que nos têm governado carecem de visão. É um facto que ninguém o pode negar. Portugal merecia mais. Antes de nos aproximarmos dos restantes países mais desenvolvidos eis que quase todos, senão todos, os indicadores apontam para um retrocesso.

Cada vez mais distante da política o povo só não foge (ao instituído para o mercado paralelo) quando não pode. Até lá, continuaremos a ziguezaguiar por entre um trânsito que espelha bem o estado actual da nação. Continuaremos porém a contar com o discurso do PM em tudo que é manchete "Portugal é o primeiro país...". Os números mostram que não.

Obrigado pela partilha deste lúcido texto.

Zéfoz disse...

Tenho pessoas na família que são professores. Estão conscientes que o que por aí vem ainda vai ser pior do que está. O incomformismo é cada vez maior. Um dia destes a revolta não pode ser só dos prof.s, mas de todos os que, pela força das circunstâncias, são obrigados a abrir os olhos e a tomar decisões: "quando um cego guia outro(s) "cego(s)", caiem ambos na cova".
Um bom post como é apanágio do seu autor.

the dear Zé disse...

resta-nos o desencanto... sei lá...
ainda bem que alguém conserva a lucidez
excelente texto-desabafo

Manuel Rocha disse...

Tem razão ! Mas quantos dos que param nas faixas de rodagem não são também professores ?

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

São professores, são juízes, são polícias, são autarcas... São até, talvez, técnicos especializados na gestão de trânsito. Gente que devia dar o exemplo e não dá.

Anónimo disse...

Professor! Então venha dirigir no Rio de Janeiro ou em São Paulo, e conhecerás o verdadeiro inferno, desrespeito e muito mais. Abraços