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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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sábado, 10 de maio de 2008

Estamos a ser governados por bárbaros.

"Facilitismo é chumbá-los."

Isto disse a actual ministra da educação, textualmente, numa entrevista televisiva. E nenhum leitor de Orwell que a estivesse a ouvir deixou, com certeza, de sentir um arrepio: Peace is War, Freedom is Slavery, tudo aquilo que nos ficou no ouvido quando lemos Nineteen Eighty-Four.

"Facilitismo é chumbá-los."

O senso comum diria antes que facilitismo é passá-los sem saberem. A maioria dos professores, que na sua maior parte sabem mais de ensino do que a ministra (e alguns muito mais), tenderia a concordar neste ponto com o senso comum; outros talvez acrescentassem que facilitismo é não diversificar as escolas, os programas e os currículos de maneira a que cada aluno possa encontrar no sistema o que melhor corresponde aos seus interesses, aos seus talentos e à sua idiossincrasia. Mas é claro que para uma estrutura centralizada e massiva como o ministério da educação o que é fácil é o modelo único.

"Facilitismo é chumbá-los."

Na convicção, na certeza absoluta com que a afirmação foi feita ouvem-se os ecos de todos os fanáticos e de todos os fundamentalistas. Vem à memória a Revolução Cultural Chinesa, com a qual tantos dos nossos políticos neo-liberais simpatizaram na juventude. Num recanto qualquer da mente de Maria de Lurdes Rodrigues a condição de "intelectual" continua a ser crime: daí o seu empenho inflexível em "re-educar" os professores pelo "trabalho": quanto mais desqualificado, humilhante, exaustivo e penoso este for, mais virtuoso será, e mais revolucionário.

"Facilitismo é chumbá-los."

A dilaceração psicológica que hoje afecta os professores assemelha-se na sua índole - embora não em grau, felizmente - àquilo a que costumo chamar o dilema do guarda no campo de concentração. Imagino um jovem alemão que nos anos trinta se tenha alistado no exército e que alguns anos depois se encontre colocado, sem nunca o ter pedido, num campo de extermínio. Sabe, não pode deixar de saber, o que lá se passa. Sabe que deve obediência à hierarquia legitimamente constituída. Sabe que essa obediência contradiz frontalmente a ética militar que lhe ensinaram - um soldado não pode nem deve ser um carniceiro e não mata civis desarmados - e contradiz igualmente a moral que lhe foi ensinada pelos pais, pelos professores, pela sociedade, pela igreja, que o proíbe de matar e torturar. A quem obedece o guarda? Aos seus superiores ou à sua consciência?

"Facilitismo é chumbá-los."

Tenho o sentido das proporções. Sei que o Portugal de hoje não é a Alemanha dos anos 30. Sei que os tecno-burocratas que pululam pelos nossos ministérios não são assassinos sádicos. E os nossos governantes não são psicopatas criminosos: são apenas, mais modestamente e de modo mais vil, bárbaros deslumbrados, incapazes de distinguir entre a civilização e o espectáculo.

"Facilitismo é chumbá-los."

Mas a ignorância do bárbaro, especialmente a do que se julga dono do futuro, tem-se mostrado historicamente tão perigosa como a violência do tirano. Um professor, um bom professor, é alguém que sempre se colocou como antepara e protecção entre a civilização e a barbárie. O combate à barbárie é o centro e o fundamento da sua ética profissional, da sua razão de existir e até, muitas vezes, da sua identidade como ser humano.

"Facilitismo é chumbá-los."

Que fará um professor, um bom professor, ao ver-se obrigado a optar entre o seu dever de obediência a uma autoridade (cuja legitimidade não pode negar) que lhe impõe a barbárie como objectivo e programa, e a obediência à deontologia mais elementar da sua profissão, que o obriga a combater por todos os meios essa mesma barbárie? Temo que a maior parte faça como fez a maior parte dos guardas dos campos de concentração. Desobedecer é perigoso, obedecer é seguro. Muitos escolherão a obediência. E com essa escolha generalizada o sistema terá chegado a um patamar superior de facilitismo e decadência.

11 comentários:

Anónimo disse...

Olá JLS-

Fico satisfeito em saber que está por aí.

Abraço do Paulo Prudêncio.

Vou linkar no meu blogue o mil contos por alunos. Pode ser?

José Luiz Sarmento disse...

Claro que pode ser, paulo. tenho muira honra nisso.
Abraço

Anónimo disse...

Olá JLS.

Devo confessar, e nem me pergunte porquê: a sua ausência começou a deixar-me preocupado; e nem o conheço pessoalmente nem nunca falei consigo, sequer. Apenas uma troca de mails.

Esta nova forma de comunicação pode provocar situações até aqui impensáveis.

O seu blogue é uma leitura obrigatória. Linkei-o de novo e colei os "bárbaros" em vez do "mil contos por aluno". A escolha era difícil :).

Oh JLS, não nos volte a fazer isto.

Abraço do Paulo Prudêncio.

Range-o-Dente disse...

Não diria mais, meu caro.

Aliás ...

"O senso comum diria antes que facilitismo é passá-los sem saberem."

Ter uma ministra que se põe em causa apenas pelo senso comum é ter menos que o comum na cadeira ministerial.

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setora disse...

A senhora ministra acha que os professores ficam radiantes quando reprovam alunos; ficam radiantes por não terem condições para trabalhar com os alunos.
Claro que as preocupações da senhora não passam pelas aprendizagens, passam apenas pelos resultados. É isso que ela nos quer dizer. Faz de conta,faz de conta...

José Luiz Sarmento disse...

Um espírito como o de Maria de Lurdes Rodrigues não se verga, nem ao senso comum, nem à autoridade de quem sabe mais.

Range-o-Dente disse...

Interessante (digo eu).

http://abrupto.blogspot.com/2008/05/o-abrupto-feito-pelos-seus-leitores_11.html

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setora disse...

Vou furtar para o meu blogue.
É um bom texto.

António Chaves Ferrão disse...

José Luiz Sarmento
A frase de MLR denuncia um mundo inteiro de significados.
Para qualquer professor, mesmo sentindo que os limites da sua capacidade de intervenção foram ultrapassados; depois de aprimorar todas as técnicas de expressão verbal e emocional; depois de acumular anos de experiência com inúmeras situações de incompreensão; depois de dar o seu melhor. Depois de tudo isso, o que fica pela não aprovação de um aluno (qualquer aluno)? Simplesmente, uma enorme frustação.
MLR vê o filme ao contrário. Pressupõe - embora tenha vergonha em declará-lo explicitamente - que há uma dose de gozo que impele um professor a chumbar um aluno.
Trata-se de um caso clínico.

Guimaraes disse...

De facto, o problema do insucesso escolar resolve-se acabando com as reprovações. Todos têm sucesso!

Do mesmo modo, na Saúde, deve acabar-se com as certidões de óbito, que passarão a chamar-se certidões de alta...

Range-o-Dente disse...

António Chaves Ferrão:
"MLR vê o filme ao contrário. Pressupõe - embora tenha vergonha em declará-lo explicitamente - que há uma dose de gozo que impele um professor a chumbar um aluno."

De acordo com o raciocínio, seria o gozo de se sentir frustrado ...

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