...............................................................................................................................................

The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
....................................................................................................................................................

domingo, 10 de junho de 2012

Porque é que não partimos tudo?

Porque é que os portugueses não se revoltam? Esta questão já intrigou Lord Byron, que depois de visitar Portugal nos chamou povo de escravos. Unamuno caracterizou-nos pelo culto da dor e por sermos um povo de suicidas. Temos uma fascinação antiga pela mediocridade, pelo sofrimento e pela pobreza: Salazar bem a conhecia, e soube bem tirar partido dela. Até na inveja somos pobrezinhos: odiamos quem tem um pouco mais que nós, mesmo que o mereça, mas tratamos com admiração e subserviência qualquer ladrãozeco que tenha acumulado uma fortuna.

A austeridade cai-nos no goto: achamos que merecemos ser pobres e vemos nessa pobreza uma manifestação de virtude. Por isso aceitamos que nos digam, mentindo, que não trabalhamos o suficiente: por mais que trabalhemos, e por mais penosamente, nunca seremos punidos como merecemos pela culpa de ser portugueses. Tudo o que realça a vida é luxo, e tudo o que é luxo é pecado: daí a nossa aversão às Ciências, às Letras e às Artes. Em vez de favorecer o engenho, condenamo-lo à miséria. Já disto se queixava Camões, no tal Canto Décimo que todos os portugueses deviam saber de cor:

Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida;
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.

Continuamos austeros, apagados e vis. Não pomos as ruas a ferro e fogo, como os gregos; nem temos, dos franceses, o panache. Continuamos a votar nos partidos da troika, que são por coincidência os partidos da corrupção. 75% contra 25%, segundo as últimas sondagens. Continuamos vis. Exportámos o Poeta para a Índia e para Macau, exportamos hoje os nossos jovens cientistas para todo o mundo: como se atrevem a querer ganhar decentemente só porque são qualificados? 

Estamos então na mesma? Não: estamos pior. Porque não se muda já como soía, os portugueses são hoje menos para mandar do que para ser mandados. E mandados por alemães; é isto que é o cúmulo da vileza.

6 comentários:

Paulo Ribeiro disse...

Certeiríssimo. Infelizmente, a maioria dos portugueses são uns poltrões, fracos e venais, que arreganham os dentes quando sentem a chibata e puxam a carroça com mais força ainda...

AL. disse...

Com menos ministros, Deputados e Generais, em suma com menos chicos espertos a viver à conta do orçamento, nao seria mais justo? O s males devem ser todos denunciados como faria um bom médico.
Creio que foi S. Lucas que disse:
Ai daqueles que chamarem bem ao mal, e mal ao bem!

Zéfoz disse...

Pois;houve um sr. que disse que esta tendência para a curvatura era atávica; outro disse mais tarde que o povo é sereno; o Eça dizia que o povo era um burro de carga,incapaz de um coice ou de um agitar de orelhas; o povo, quanto a mim, sofre de uma patologia complicada, mistifório de orfandade e resignação; continua a agarrar-se ao fado, ao futebol e ao tinto para curar ou afogar as frustações,senão a fome, na vaga esperança de vir um D. Sebastião que o irá salvar das mãos dos seus algozes...Se não fizer pela vida e abrir a pestana, bem pode esperar por uma manhã de nevoeiro que nunca chegará!...

Margarida Alegria disse...

Excelente Post!
Concordo com cada palavra!
Um abraço

Anónimo disse...

Pelo que leio cá dentro fico com a sensção de o TUGA ser matéria de estudo, case study, leccionada em tudo o que é universidade dos outros povos. Contudo como já vivi lá fora e vi que todos os povos olham para si próprios com o mesmo grau de autocritica, já não me sinto tão só ou especial.

Rui Ferreira disse...

Limpinho, até quando ...