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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Tive pena de Medina Carreira

Nunca vejo o "Prós e Contras". Não é que tenha alguma coisa contra este programa; é por pura distracção. Antes do "Prós e Contras" há um concurso; quando este começa desligo o televisor e depois não me lembro de o ligar outra vez.

Assim se explica que escreva com tanto atraso sobre a mais recente intervenção de Medina Carreira no programa, do qual só muito mais tarde vi, na Web, a primeira parte. Não me deu pena, antes me fez sorrir, ouvi-lo dizer que o keynesianismo é uma teoria particularista, de conjuntura, porque esta é precisamente a tese simétrica daquela que Keynes enunciou e demonstrou sobre a economia clássica. Deu-me pena, isso sim, vê-lo puxar duas vezes dos seus galões de democrata e de estudioso, porque isto é o mais baixo a que um intelectual pode descer. É o último recurso dos acossados e dos que vivem num mundo que já não é o deles. 

Uma destas vezes foi quando lhe foi apontado o carácter anti-democrático das políticas económicas que defende. Em vez de considerar objectivamente esta acusação - explicando, por exemplo, o que pode haver de democrático em tirar o poder de decisão ao eleitorado português, supostamente soberano, para o entregar a entidades, nacionais ou estrangeiras, que não respondem perante ele - preferiu tirar da gaveta os galões anti-fascistas que estavam lá a ganhar verdete há trinta e seis anos.

A outra, mais grave, foi quando puxou dos galões académicos em abono da sua convicção de que o Estado Social é insustentável. Isto faz pena porque puxar dos galões é em si mesmo patético; e faz mais pena ainda porque custa muito ver alguém desperdiçar anos de honesto estudo para chegar a uma conclusão que vale zero. Não duvido de que os cálculos de Medina Carreira fossem rigorosíssimos, como são por vezes os dos astrólogos, mas já começa a ser óbvio que a conclusão é treta; e os eleitorados europeus estão a dar-se conta disto, como mostraram os manifestantes irlandeses contra a austeridade com o slogan "We are the people, we have the vote".

No caso dos astrólogos, as conclusões são treta porque partem de premissas erradas; no caso de Medina Carreira e dos economistas que estudaram pela mesma cartilha, porque partem das perguntas erradas.

Medina Carreira quis saber se é possível manter por muito tempo o Estado Social. Fartou-se de estudar e concluiu que não. E de facto não é, se assumirmos que todas as outras variáveis, incluindo as ideológicas e as políticas, se manterão constantes. Destas variáveis, a que pesa mais, por larguíssima margem, é a presença no sistema económico português duma das oligarquias mais predadoras e mais corruptas da Europa (e das mais incompetentes, porque depender de salários baixos é o cúmulo da incompetência). Uma oligarquia que se habituou, já desde o século dezanove, não só a não produzir riqueza, como a travar a sua produção; a socializar os custos e os riscos privatizando os proveitos; a viver mais de rendas que de lucros; a enriquecer obscenamente com os impostos dos portugueses; a receber do Estado toda a espécie de monopólios, concedendo-lhe em troca um precioso monopólio sobre a ascensão social.

A pergunta certa não é se é ou não possível sustentar o Estado Social. A pergunta certa, ou a principal das perguntas certas, é se é possível sustentar ao mesmo tempo o Estado Social e esta oligarquia. Se Medina Carreira a tivesse estudado em paralelo com o Estado Social, teria talvez concluído por esta impossibilidade; e esta conclusão teria mérito porque não excluiria do cálculo a variável decisiva.

O mundo mudou em 2008. A oligarquia já vinha de muito antes, mas muitos de nós passávamos por ela sem a ver, como os habitantes de Sevilha pela estátua do Comendador. Mas agora o Comendador de Pedra está presente no debate político-económico como no banquete de Don Giovanni. É impossível que os economistas do regime não o vejam. Só é possível, e à custa de muito esforço, que finjam não o ver.

No caso de Medina Carreira, este fingimento é patético; no caso de outros, menos honestos, é simplesmente criminoso.

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