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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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terça-feira, 16 de outubro de 2007

Como pode um leigo avaliar a ciência?

A primeira resposta que ocorre a esta pergunta é: não pode e não tem nada que tentar.

Mas há um problema com esta resposta. As conclusões da ciência fundamentam muitas vezes decisões políticas sobre as quais os cidadãos têm o direito e o dever de se pronunciar mesmo que não disponham de informação suficiente.

Esta questão põe-se hoje com especial acuidade na questão do aquecimento global. Todos os dias aparecem nos jornais, nas televisões, nos blogues, pessoas de quem nunca ouvimos falar mas que se apresentam ou são apresentadas como cientistas, umas a defender que o aquecimento global antropogénico é uma realidade objectiva, outras que ele é uma uma invenção esquerdista e parte duma conspiração para destruir o capitalismo. Em quem acreditar?

Para um cientista, este dilema é relativamente fácil de resolver. Pode consultar os trabalhos publicados, replicar as experiências em que eles se basearam, examinar os protocolos respectivos, pedir a colegas que façam o mesmo no que respeita as suas áreas de competência, avaliar os resultados à luz do seu próprio conhecimento.

Para quem não tem acesso ao método científico resta, por defeito, o argumento de autoridade: quem diz o quê, e com que credenciais? Perante uma afirmação atribuída ao sr. A e a afirmação contrária atribuída ao sr. B, nada nos impede de ir ao Google e fazer uma pesquisa sobre um e outro. Depois é uma questão de estabelecer critérios.

A primeira coisa a ver é se o sr A e o sr B afirmaram mesmo o que lhes é atribuído: os meios de comunicação e os blogues distorcem com muita frequência o que as pessoas afirmam, por vezes a ponto de as pôr a dizer o contrário do que realmente disseram.

Outro critério é se o cientista citado se está a pronunciar dentro da sua área de competência ou fora dela. Fora da sua área de competência um cientista é um leigo como qualquer de nós.

E qual é essa área de competência? A Economia, a Sociologia, a Psicologia, o Direito, a Politologia, a Antroplogia são disciplinas perfeitamente respeitáveis, sofisticadas e imprescindíveis ao conhecimento humano; mas os seus resultados não têm o poder de coacção intelectual que têm os da Física, da Química ou da Biologia. A Meteorologia e a Climatologia, que vão buscar às ciências experimentais o objecto e às Matemáticas o método, dão também elas boas credenciais aos seus praticantes.

Que currículos apresentam o sr. A e o sr. B? Que artigos publicaram? Em que revistas? Que livros? Editados por quem? A que instituições estão ligados?

Uma universidade prestigiada é para mim mais credível, a priori, do que uma universidade de que nunca ouvi falar, e muito mais credível do que um think tank. Isto não me dispensa, é claro, de pesquisar estas instituições: quem as fundou? Quais são os seus estatutos? Quem as financia? Quem responde por elas? Quem as critica, e com que argumentos? Que êxitos já obtiveram? Tudo isto pode ser pesquisado. O mesmo vale para as publicações, as editoras, as associações profissionais e científicas, os lobbies, os organismos internacionais, as organizações governamentais.

Um leigo que queira formar uma opinião sobre questões como o aquecimento global não está desprovido de recursos. Não tem obrigatoriamente que se basear em pressupostos religiosos ou políticos, nem em preconceitos ou palpites. Pode não estar ao seu alcance ter uma opinião científica em sentido restrito, mas está ao seu alcance ter uma opinião informada.

2 comentários:

alf disse...

Muito bem dissecado o tema. Gostei muito de ler o post.

A mensagem essencial do post é: não devemos ser "crentes"!

No entanto, eu diria que apresenta uma preocupação que parece lógica mas não é: a preocupação de analisar a credibilidade da fonte de informação.

A preocupação que deveremos ter é analisar a informação independentemente da fonte.

Por exemplo, Galileu tinha razão mas nenhuma fonte "credível" lha dava.

Onde está uma fonte que seja independente de um qualquer interesse? Não há!

Por isso, temos que analisar o que diz A e o que diz B e formarmos a nossa própria opinião, independentemente da credibilidade da fonte.

Mas isto é dificil, porque não sabemos o suficiente para fazer essa análise...

Há uma razão científica profunda para esta teoria da causa antropogénica do aquecimento global. Mas essa razão está errada. No entanto, a Ciência não pode saber que está errada.

Se lerem o post que hei-de pôr no meu blogue "outramargem" lá para o fim da semana, compreenderão donde vem tudo isto. E compreenderão que nunca seria possível chegar à verdade analisando a informação disponível pela fonte A ou B.

O melhor que podemos fazer é garantir que existe debate e opiniões diferentes. A Humanidade é ainda muito ignorante, não podemos cair em "certezas", devemos manter-nos na "dúvida"

José Luiz Sarmento disse...

Tem razão, alf, uma afirmação deve ser avaliada pelo seu mérito intrínseco e não pela credibilidade de quem a produz.
O critério da credibilidade só é admissível por defeito, e foi isto que eu escrevi.
Se eu tivesse vivido no tempo de Galileu e dispusesse dos conhecimentos e instrumentos necessários para acompanhar a sua argumentação, seria imperdoável não o fazer e defender a teoria geocêntrica baseado na autoridade da Igreja. Mas se não dispusesse desses conhecimentos e instrumentos, a minha única opção seria aceitar a doutrina errada.
Hoje, para quem não dispõe dos instrumentos para avaliar directamente uma afirmação científica, o dilema é o mesmo, mas o risco inerente ao critério de autoridade, sendo da mesma natureza, é bastante mais reduzido. A quantidade de informação ao dispor do cidadão comum é muitíssimo maior, assim como é maior a possibilidade de cruzar informações e de as comparar com factos que conhecemos directamente.
E de facto é isto que fazemos todos os dias. É assim que eu sei que a Austrália existe, por exemplo (pelo menos até alguém me dar uma boa razão para pensar que toda essa história dos aborígenes, dos bumerangues e dos cangurus é uma treta).