Em 1975 o preço de compra dum apartamento T2 em Lisboa era 17 vezes o de um aparelho de televisão ou 27 vezes o dum bilhete de avião ida-e-volta de Lisboa a Paris, em classe económica.
Estas estimativas são muito grosseiras, mas servem perfeitamente para ilustrar como este rácio evoluiu nos últimos 50 anos. Em 2025, o apartamento custa o mesmo que 700 televisores ou 1.400 viagens de avião. Extrapolando do televisor para tudo o que seja electrodoméstico ou entretenimento caseiro, e do bilhete de avião para tudo o que seja viagens e hotelaria, temos que em 1975 um jovem casal com dois salários razoáveis podia esperar, fazendo alguns sacrifícios, juntar o suficiente para dar de entrada numa casa. Tanto mais que os empregos seriam menos precários.
Em 2025 não é por comprar menos telemóveis, fazer menos viagens ou ir menos vezes comer fora que um jovem casal em circunstãncias semelhantes às dos seus pais ou avós consegue fazer essa poupança. Terá de ter alguma ajuda. Ou herdar. Ou emigrar.
Um televisor é um produto industrial. Uma casa é, ainda, um produto artesanal. E nestes 50 anos a inflação foi muito mais elevada para os produtos industriais e para os serviços do que para os produtos artesanais. Mas esta não é a única causa dos preços da habitação. Há as outras, que todos conhecemos.
Mas, por favor, por favor, não regateemos a um jovem o seu telemóvel ou as suas férias no estrangeiro. Não é por se dar as estes "luxos" que ele não consegue arranjar casa: não a arranjaria por mais que se privasse deles.
