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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Capitulação ou retirada estratégica?

Quando o Ramiro Marques propôs que se descentrasse um pouco a luta dos professores do modelo de avaliação e das carreiras para o centrar mais noutras questões como o sobretrabalho dos professores, a burocracia, o "eduquês" e a empresarialização das escolas, houve muitos colegas nossos que lhe caíram em cima falando em capitulação. Eu acho que o Ramiro tem razão e que o que ele propõe não é uma capitulação, mas sim uma retirada estratégica dum campo de batalha em que estamos de momento em desvantagem (repito, de momento) para outros em que a relação de forças nos é mais favorável.

O bom general escolhe o campo de batalha, não deixa que o inimigo o escolha. Em matéria de avaliação e de carreiras, tudo indica que vamos ficar (de momento, repito) muito aquém dos nossos objectivos; mas não será uma batalha perdida, uma vez que nos terá deixado em melhor posição para vencer outras; o que por sua vez nos deixará em melhor posição quando regressarmos a esta.

Das batalhas que temos pela frente, a do sobretrabalho é a mais difícil porque é a que exige aos professores mais coragem e iniciativa individual. Antes de se desenrolar nos tribunais, onde os professores podem contar com o apoio dos sindicatos, terá que que começar no confronto directo com as direcções das escolas, confronto este em que muitos professores se sentirão sozinhos e destituídos de poder. É provável que só uma minoria entre nesta luta, mas será uma minoria que poderá fazer a diferença. Uma maneira de recrutar mais combatentes será a exigência de indemnizações elevadas, como estão a fazer, com assinalável êxito, muitos dos nossos colegas britânicos. Num artigo posterior tenciono voltar a este tema, propondo um modelo de formulário que poderá servir para desencadear processos de resistência.

No que toca a luta contra o "eduquês", temos várias vantagens do nosso lado. Nenhuma acção de propaganda do governo, por mais sofisticada ou insistente que seja, poderá convencer a maioria da opinião pública portuguesa que os programas são bons e os manuais escolares adequados. O problema, neste ponto, está em que muita gente está convencida de que a culpa de os programas e os manuais serem como são é dos professores; mas neste caso, e ao contrário do que se passa no interior das escolas, os cidadãos terão a oportunidade de "ver para crer".

Também não é difícil mostrar aos cidadãos que uma superstrutura educativa com centenas de organismos e milhares de funcionários a trabalhar fora das escolas é uma aberração que lhes sai cara. E, numa circunstância histórica em que o crash das empresas dot com há dez anos e a crise do subprime de há um ano mostraram que há algo de profundamente errado com os fundamentos do sistema económico, é sempre possível mostrar que o chamado "modelo empresarial" nem para as empresas é bom. Também sobre isto me proponho escrever mais tarde com maior desenvolvimento.

O sobretrabalho dos professores, a burocracia, o "eduquês" e a ideologia empresarial são as bases em que assenta, não só o modelo de avaliação e de carreiras de Maria de Lurdes Rodrigues, mas também o de Isabel Alçada. Minemos estas bases, e quando voltarmos ao actual campo de batalha estaremos em vantagem.

8 comentários:

optimista disse...

Caro José Luiz Sarmento,

Relativamente a este seu "post", há qualquer coisa que não bate certo. Então, lutar contra "o sobretrabalho, a burocracia, o 'eduquês' e a ideologia empresarial", como o José Luiz defende, é uma "retirada estratégica"? Se substituirmos a oposição ao dito "eduquês", termo que, em meu entender, contribui mais para obscurecer do que para esclarecer, pelo combate por uma pedagogia humana e humanizada, as causas em que o José Luiz propõe que nos concentremos significam afrontar o Governo e as suas políticas da forma mais aberta e radical que imaginar se possa. Se se lutar nessas frentes da forma firme e consequente que penso que o José Luiz desejará, tratar-se-á de um combate duríssimo, a travar não no futuro, mas já. Por outro lado, não consigo perceber como é que o José Luiz não vê, nas políticas governamentais relacionadas com a avaliação do desempenho e com a estrutura e progressão na carreira, peças do mesmo "puzzle" que inclui também as demias políticas, designadamente as que agravam o "sobretrabalho", a "burocracia" e a "ideologia empresarial". Importa-se de explicar melhor o seu ponto de vista?

Leopoldo Mesquita

Ramiro Marques disse...

José Luiz Sarmento
Obrigado pela referência. Apontaste o caminho certo e justifica-lo com a argumentação correcta.

JOSÉ LUIZ FERREIRA disse...

Caro Leopoldo, o problema do modelo avaliação continua a ser importantíssimo: para o governo, é um instrumento fundamental para impor o sobretrabalho, o "eduquês" e a ideologia empresarial - em vez de contribuir, como é alegado, para uma melhoria do ensino.

Mas é um modelo que perdeu, graças à luta dos professores, uma boa parte da sua credibilidade. Já provou a sua ineficácia na prossecução da agenda declarada do governo; agora é preciso retirar-lhe a eficácia que ainda possa ter na prossecução da agenda oculta.

A modestíssimaa vitória que obtivemos dá-nos a folga necessária para podermos contrariar esta agenda nos seus pressupostos e nos seus objectivos essenciais: é isto que proponho, e não é pouco. Mas este é um assunto para desenvolver em textos futuros.

JOSÉ LUIZ FERREIRA disse...

Caro Ramiro, obrigado pelas tuas palavras. Quanto à minha argumentação ser correcta... Acho que pelo menos faz algum sentido, mas a correcção das estratégias só se prova depois das batalhas. Ouçamos e tenhamos em conta as críticas que nos fizerem, mesmo as mais duras, porque virão com certeza de colegas que querem o mesmo que nós.

optimista disse...

Caro José Luiz Sarmento,

Peço desculpa, mas agora o seu raciocínio parece-me ainda mais difícil de compreender. O José Luiz entende que obtivemos uma (modestíssima) vitória e, depois, propõe uma "retirada estratégica"? E "vitória" em quê, se a actual proposta do Governo agrava a anterior? E se essa proposta "perdeu credibilidade", como diz, porquê "retirar estrategicamente"? Então não seria a altura indicada para avançar com vigor para as questões que acha fundamentais?
Só se "retira estrategicamente" se não existem forças nem condições para travar a luta no momento. Mas o que é que o leva a dizer que tais forças e condições não existem?
As forças reunem-se e as condições criam-se. Neste momento, salvo melhor opinião, só "retira estrategicamente" quem desistiu de lutar. Se o José Luiz não desistiu de lutar, não pode, mesmo que queira, "retirar estrategicamente", pela simples razão de que não existem indicações de nenhum tipo de que a maioria dos professores o acompanhe nessa opção. Se, mesmo assim, insiste em pregar essa estratégia, então só se pode concluir que deixou de acreditar que a luta actual possa conduzir a qualquer resultado positivo. É evidentemente livre de o pensar, se for esse o caso, mas penso que, pelo menos no universo dos professores, não terá muitos a acompanhá-lo.
Grato pela atenção.

Leopoldo Mesquita

JOSÉ LUIZ FERREIRA disse...

Caro Leopoldo, o que eu pretendo é precisamente avançar em força para as questões que acho fundamentais.

optimista disse...

Caro José Luiz Sarmento,

Acaba de ter a seu lado, no seu conceito de "retirada estratégica", as direcções sindicais em bloco. Neste caso, e com o acordo assinado ontem, aparece evidente que a "retirada estratégica" das ditas direcções sindicais é o que qualquer "retirada estratégica" neste momento tem de significar: uma capitulação em toda a linha, utilizando o termo que usou no título deste "post".
Com o acordo de ontem: 1) Em termos de progressão na carreira e até do que se pode imaginar que será o modelo de avaliação, tudo ficou pior do que estava com as disposições legais do tempo de Maria de Lurdes Rodrigues; 2) As direcções sindicais aceitaram tudo o que se passou e todas as consequências decorrentes do chamado "primeiro ciclo avaliativo"; 3) A sobrecarga de trabalho dos professores ficou (ficará) enormemente acrescentada (basta ver a provocação que é reduzir apenas um tempo lectivo ao professor Relator por cada três docentes a seu cargo, com todas as atribuições que esse cargo implica); 4) Ao referenciar todo o processo de avaliação ao conceito de "melhoria contínua" do desempenho, não mencionando sequer no objecto da avaliação o cumprimento adequado do trabalho docente, o acordo vai servir para o enorme aumento da burocracia e do tempo de trabalho dos professores; 5) O Ministério ficou com total "carta branca" para introduzir já as classificações dos alunos como critério na avaliação dos professores, o que, pelo menos nas condições actuais, representa um autêntico desastre para o funcionamento futuro das escolas.
"Retirada estratégica", nas presentes condições, é isto que significa, caro José Luiz Sarmento. Por mim, prefiro ficar do lado dos que se irão opor firmemente a este novo (e pior) "memorando de entendimento".
Com os meus cumprimentos,

Leopoldo Mesquita

JOSÉ LUIZ FERREIRA disse...

Caro Leopoldo:
O acordo tem todos os vícios que refere. Pior que isso: não só deixa a porta aberta a vários abusos, como consagra expressamente que os "bons professores" serão os que forem "identificados como tal em sede de avaliação de desempenho", sendo que esta avaliação continua a não ter como referência privilegiada o trabalho de ensinar.
Considero este aspecto especialmente grave porque representa uma cedência não só no articulado (que pode sempre, a todo o tempo, ser corrigido) mas, a nível muito mais profundo, na ideologia.
O acordo é mau; mas, enquanto a ideologia que o legitima persistir, nenhum acordo futuro será muito melhor.
Saúdo a sua disposição de combater o memorando, mas não vejo como poderá combatê-lo nas suas disposições específicas sem o combater também nos seus fundamentos ideológicos (fundamentos estes que os sindicatos, como denunciei várias vezes neste blogue, dão geralmente de barato e com os quais estão basicamente de acordo).
Por alguma razão, caro Leopoldo, a ministra negociou com os sindicatos e não com as outras organizações de professores. Uma burocracia pode sempre entender-se com outra burocracia. Já sabíamos que era assim: não temos de que nos queixar.
mas duma coisa pode ter a certeza: para mim, e para muitos colegas nossos, a guerra ainda vai no princípio. Contamos com os sindicatos até onde se pode contar com eles, mas não além deste ponto.
Só se desiludiu com os sindicatos quem estava iludido por eles. Para os outros, é tempo de avaliar friamente em que é que a relação de forças se modificou, e a favor de quem, e de agir em consequência.