...............................................................................................................................................

The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
....................................................................................................................................................

sexta-feira, 21 de março de 2008

Professora brutalizada

I.

Não quis escrever ontem, a quente, sobre o caso acontecido na escola Carolina Michäelis e divulgado no youtube. Mas mesmo guardando para hoje este texto verifico que não sou capaz de o escrever tão a frio como desejaria.

De entre as muitas reacções que li na blogosfera gostaria de referir aqui duas, que têm em comum a ideia de que a professora não se revelou tão boa profissional como lhe seria exigível. F. J. Santos exige aos professores, no seu blogue (Re)flexões, que saibam gerir melhor a diversidade; e Daniel Oliveira exige-lhes, no Arrastão, que saibam gerir melhor o conflito.

Ambos têm razão até ao ponto em que a têm: os professores devem ter alguma capacidade, com efeito, de gerir a diversidade e o conflito. A questão que nenhum dos dois aborda é a de saber em que grau lhes são exigíveis estas capacidades.

Vivemos numa sociedade diversa. Nem todos os alunos das escolas provêm duma classe média que dá valor ao ensino e à ascensão social que este pode proporcionar. Nem todos aprenderam em casa a controlar a violência ou a respeitar os adultos. Esta circunstância tem que ser gerida? É claro que tem. Mas tem que ser gerida a todos os níveis. O sistema educativo não pode alhear-se dum facto que é geral e social, e endossar a sua gestão às escolas para que a façam sozinhas. Nem as escolas podem, por sua vez, endossá-la ao professor para que se encarregue dela, isoladamente, na sala de aula. E no entanto é isto que acontece: o professor vê-se na situação de um ponta de lança a quem os médios não passam jogo mas a quem os adeptos exigem mesmo assim que marque golos.

Quanto à capacidade de gerir conflitos, há quem a tenha naturalmente, em maior ou menor grau. Mas num grau em que ela quase atinja a perfeição só a tem quem tiver, além da capacidade natural, um treino tão longo, tão difícil e tão oneroso que a sociedade não o dá sequer a todas as forças policiais, só às de elite. E mesmo estas sabem que podem contar, nas situações difíceis, com uma retaguarda que os apoia. Os professores contam com uma retaguarda que lhes atira pedras.

Mesmo que fosse exequível dar a 143.000 professores o mesmo treino em gestão de conflitos que se dá aos Grupos de Operações Especiais, duvido muito que isso fosse desejável. E creio que qualquer pessoa de bom senso duvidará comigo. A professora que aparece no vídeo não exibiu o auto-controlo sobre-humano que se espera, noutros grupos profissionais, apenas de uma elite. Ainda bem: no dia em que esse nível de auto-controlo for exigível aos professores o projecto educativo de toda a nossa sociedade terá falido.

II.

Não tenho a certeza, mas julgo que conheço a professora que aparece no vídeo. Se é quem eu penso, gostava de dizer aqui algumas coisas sobre o seu percurso profissional, que está ligado, como é quase inevitável com os professores, a um particular modo de ser. A pessoa em que estou a pensar é aquilo a que ainda hoje se chama uma senhora. Um modelo de cortesia, de saber estar e em termos de idiossincrasia pessoal - de doçura. Nos últimos anos dedicou-se ao Parlamento Europeu dos Jovens, contribuindo com o seu trabalho e esforço para que centenas de jovens portugueses aprendessem como funciona a máquina da democracia e se treinassem, com colegas de todas as nacionalidades europeias, nas regras do debate racional sobre todos os temas imagináveis da cidadania.

Antes disso ensinou, e bem, gerações de alunos. A doçura do seu carácter nunca a impediu de o fazer com competência, antes pelo contrário. Tratava-se maioritariamente, é certo, e como diria o F.J. Santos, de jovens da classe média; mas também havia entre eles muitos alunos provenientes de famílias com dificuldades económicas e isto nunca foi obstáculo a que entre professora e alunos se estabelecessem relações de afecto e respeito mútuo.

A infelicidade desta professora foi estar muitos anos afastada da escola, que entretanto mudou. Durante estes anos o poder político tirou o tapete de debaixo dos pés aos professores. Os que viveram este tempo na escola foram-se adaptando, mesmo em termos de idiossincrasia e carácter, às novas circunstâncias e aos novos alunos. Esta professora não teve oportunidade de se adaptar e caiu de chofre numa escola que não era a que ela conhecia: uma escola em que se tinha invertido a relação de poder entre professores e alunos, uma escola frequentada por jovens provenientes do mundo real, muito diferentes daqueles para quem o actual sistema de ensino foi feito e que só existem na cabeça dos teóricos da educação. Se é a professora que eu conheço, a estas horas deve estar desfeita, enquanto a aluna que a brutalizou se está provavelmente a rir. E isto, não tenho vergonha de o dizer, revolta-me até às entranhas.

Se esta professora falhou, falhou com mérito. Se na escola de hoje a doçura é vício e a dureza virtude, então o falhanço é honroso e o «sucesso» que nos exigem é vergonha.

27 comentários:

Anónimo disse...

Obrigada colega por escrever tão bem o que me vai na alma

Anónimo disse...

Caro JLS:

o texto do arrastão é completamente imbecil.

O outro texto acerca da diversidade é engraçado mas não se aplica ao problema em questão, na minha modesta opinião.

Dizer que uma professora não está preparada para "enfrentar a diversidade" é o equivalente a dizer que não está preparada para enfrentar uma Ak-47 ou um míssil Stinger. (Já agora...)

E porque estaria?

Quanto a este seu texto/post vale muito especialmente para a senhora em questão.

Só por isso já valeu a pena te-lo escrito.

O problema está em parte da sua frase

"...a aluna que a brutalizou está -se a rir"

e o
sentimento de impunidade que existe e está criado que permite o estar a rir-se.


A classe tem que se organizar e exigir regras claras e básicas, o fim dos meninos não poderem chumbar, poder pôr na rua, etc.

O sentimento de impunidade completa tem que desaparecer.

E isto escrevo eu que até nem gosto muito de professores, mas porra, tenho que ser justo e dizer que aquilo é inaceitável sob todos os pontos de vista.

É inaceitável que uma aluna e o resto da turma se comporte assim.
E nada lhes aconteça.

Anónimo disse...

Meu caro JL Sarmento,
É com todo o gosto que respondo ao desafio que me deixou no seu comentário.

Se me permite vou usar as suas palavras, que conseguem ser mais eloquentes do que eu conseguiria ser, para centrar o problema no que é para mim fulcral neste episódio:

«A infelicidade desta professora foi estar muitos anos afastada da escola, que entretanto mudou. Durante estes anos o poder político tirou o tapete de debaixo dos pés aos professores. Os que viveram este tempo na escola foram-se adaptando, mesmo em termos de idiossincrasia e carácter, às novas circunstâncias e aos novos alunos. Esta professora não teve oportunidade de se adaptar e caiu de chofre numa escola que não era a que ela conhecia: uma escola em que se tinha invertido a relação de poder entre professores e alunos, uma escola frequentada por jovens provenientes do mundo real, muito diferentes daqueles para quem o actual sistema de ensino foi feito e que só existem na cabeça dos teóricos da educação.»

De facto, quando hoje à tarde li no JN que a professora/vítima era uma "Senhora" que tinha estado afastada da escola e que tinha regressado este ano, mais forte ficou a minha convicção de que o problema estava, não na professora, nem na aluna, mas no entendimento antagónico e conflitual que ambas têm sobre quais são os padrões de comportamento expectáveis numa sala de aula.
Ao longo afastamento da professora, que como o JLS refere, «caiu de chofre numa escola que não era a que ela conhecia», há que somar o facto de a aluna estar a frequentar o 9º ano, isto é, a escolaridade obrigatória, e não o Ensino Secundário, onde só está quem quer e quem pode.
Falta também ver em que circunstâncias e de que forma foi o telemóvel confiscado pela Senhora Professora.
Penso que a generalidade dos professores que «se foram adaptando, mesmo em termos de idiossincrasia e carácter, às novas circunstâncias e aos novos alunos» não tirariam o objecto da mão da aluna. Antes lhe pediriam (de forma mais ou menos assertiva) que ela o entregasse. Caso isso não acontecesse, o mais provável seria que tivessem solicitado a presença de um AAE ou de alguém do CE. Mas essa avaliação da situação só pode ser pedida a quem conheça o quotidiano escolar.
Na realidade, lendo a generalidade dos comentadores (mesmo os que ainda há pouco criticavam severamente os professores) todos teriam agido da mesma forma que a professora. A esmagadora maioria (excepto os que fisicamente pudessem intimidar a aluna) teriam tido o mesmo resultado.

Ao contrário do que pensa o(a) dissidentex, não é minha pretensão ser engraçado e muito menos "cair em graça".
O problema da diversidade é demasiado sério para que o levemos à conta de uma graçola. E arranjar "culpados" ou "bodes expiatórios" não nos vai ajudar em nada a resolver o problema.
Se o diagnóstico passar pela necessidade de "treino específico" para tratar a diversidade, então não sejamos tíbios: vamos deitar mãos à obra e constituir um corpo de elite docente para lidar com o problema, dando-lhes a formação adequada.

Anónimo disse...

José Luiz,

fiquei a saber hoje que a professora em causa pertence ao quadro da minha escola, como este ano não foram horários a concurso, teve de ser destacada para outra escola, terá pensado que o Carolina era a mesma escola que há 10 anos atrás, mas não é. Teria sentido menos diferenças se o regresso fosse feito na escola onde é efectiva, ou na Aurélia de Sousa, Clara de Resende, Filipa de Vilhena...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

"Relações de afecto" entre professores e alunos? Não me parece que isso seja adequado e muito menos missão dos professores! O espaço dos afectos é a família. A educação exige autoridade! :)

JOSÉ LUIZ FERREIRA disse...

Caro j francisco: não era isso que pensavam os gregos antigos, que não só admitiam uma relação de afecto entre mestre e discípulo como preconizavam que essa relação fosse fortemente sexualizada.

O afecto não é incompatível com a autoridade nem com o respeito - seja na família, seja na escola. E não me parece que o único lugar dos afectos seja a família: suspeito mesmo que para os adolescentes desta idade o lugar principal dos afectos é o grupo dos seus pares.

A relação afectiva entre professor e alunos tem que ser diferente, é claro, da relação afectiva entre namorado e namorada, ou entre pais e filhos, ou entre irmãos. Se assim não fosse, nenhum professor sobreviveria emocionalmente ao facto de cada ano ter de se despedir, muitas vezes para sempre, dos seus alunos.

Quanto a autoridade e respeito, o assunto é tão vasto e complexo que o vou reservar para uma das minhas próximas postagens.

Caro fjsantos:
O treino específico de que estamos a falar seria tão demorado, difícil e oneroso que só poderia mesmo ser dado a uma pequena elite que ficaria encarregada de lidar com casos excepcionais. Ora este caso que vimos está longe de ser excepcional. O remédio aqui não passa por dar um treino excepcional ao professor, mas por dar-lhe uma retaguarda que efectivamente o apoie, que é o que o nosso sistema de ensino não dá.

Anónimo disse...

Fj santos:
é "dissidente - x".

Não dissidenta...

""...O problema da diversidade é demasiado sério para que o levemos à conta de uma graçola. E arranjar "culpados" ou "bodes expiatórios" não nos vai ajudar em nada a resolver o problema.""

Lamento mas não concordo,e mais ainda,não concordo que se crie uma teoria chamada problema da diversidade.

Há regras.( ou deveria haver)
São para ser cumpridas.

Não há portanto e do meu ponto de vista regras diversificadas para serem aplicadas como se aquilo seja um menu de restaurante.

Penso que o sistema escolar vai por muito mau caminho se começa a ir por estas lógicas das diversidade dos alunos.
Abre-se a porta e a determinada altura, todos os gostos pessoais, idiossincrasias, multi culturalismos, o que seja passam a ser aceites em nome de uma "diversidade" .

Então aí é que as coisas se descontrolam para anarquia porque se torna impossível a quem quer que seja estar constantemente a aceder a exigências e a fazer actos de compreensão para com comportamentos.

Quer se queira e goste, quer não se queira e não se goste, tem que existir um padrão claro para todas as escolas aplicado a todas.
E isto não tem nada a ver com centralismo ou burocracia.

Um exemplo: o ME tem que proibir telemóveis dentro de salas de aula e corredores.
Isto é uma norma padrão.

Deverão existir poucas em termos absolutos, mas deverão ser sempre aplicadas.

Vocês como professores estão-se a deixar enganar pela teoria da "liberdade de escolha" da escolha em definir regras.

Isso não é liberdade, antes um caminho para a anarquia.

Tem que existir normas padrão e só depois é que em certos casos as escolas deverão adaptar lógicas próprias em função dos sítios onde estão, os alunos etc.

É como os juristas dizem: a unidade do sistema jurídicos, que tem regras de hierarquia bem definidas
Exemplo: CRP, LEI, Dec-lei, portaria, etc.

E nas escolas tem que existir um principio hierárquico , obviamente o menos burocratizado possível, mas tem que existir,
harmonização hierárquica do sistema de ensino.

Caso contrário é cada um por si e fé em Deus e depois precisamente porque o ministério não "apoia as costas dos professores" o resultado é estes aparecerem no Youtube.


E quanto à questão dos culpados ela tem que ser efectivada.

Aquela menina deveria ser expulsa esta ano lectivo e ser chumbada tendo que repetir o ano de novo a partir de Setembro.

Não há volta a dar a isto.

E queria acrescentar que não compro a teoria de que a professora não estava preparada para aquilo.

E olhe que eu até nem tenho especial simpatia por professores.

Apanhei há mais de 10 anos uns cromos no secundário que se faz favor.

Mas tive turmas cheias de pessoas diversas que fumavam substancias ilícitas,alunos atletas de 1.85 de altura e existiram divergências com professores mas nunca,nunca em tempo algum eu assisti a alguma destas pessoas remotamente a ter atitudes como aquela que vi no vídeo.

Só que na altura chumbava-se por faltas e era-se mandado para a rua.

Isso tem que voltar a existir.

Portanto a sua ideia de uma loja do cidadão de docentes elitizados aptos a tratar a diversidade, lamento mas não concordo.

Caso os professores não exijam mudanças e que não passam só pela questão que isto despoletou arriscam-se a ter que r dar aulas equipados de armadura e kevlar...

JPN disse...

estou a gostar muito de seguir as suas posições sobre este tema.

João Paulo Esperança disse...

Gostei do seu texto.

Anónimo disse...

Até dá vontade de chorar...
No entanto, não tinha nada que tirar o telemóvel à rapariga. Apenas tinha que expulsa-la da aula. Com a doçura que a caracteriza.

JOSÉ LUIZ FERREIRA disse...

José Pires:
Claro que tinha que tirar o telemóvel à rapariga. É o que mandam os regulamentos. E não podia expulsá-la da aula: uma das «inovações pedagógicas» da actual ministra foi precisamente acabar com as expulsões.
Já compreendeu?

Anónimo disse...

Sr. José Luiz Sarmento

O Sr. está enganado. O que foi revogado da anterior lei foram as "expulsões" da escola, enquanto medida sancionatória. Não adianta jogar com as palavras, porque não é dessa forma que as coisas mudam. A "ordem de saída da sala de aula", que vulgarmente se chama de expulsão da aula, continua a ser possível e está prevista. ´Devia ler o estatuto com atenção. Até porque perceberia melhor muitas das coisas absurdas que ele contém.

JOSÉ LUIZ FERREIRA disse...

Caro Henrique:
A "ordem de saída da sala de aula" está de facto prevista, mas as DRE's não dão homologação a regulamentos internos em que essa ordem de saída não esteja condicionada ao encaminhamento do aluno para actividades supervisionadas. Daqui resulta que o professor não pode dar essa ordem de saída se não puder chamar um funcionário que acompanhe o aluno. Acresce que a ordem de saída dá lugar a uma falta de presença (não há "faltas disciplinares"), a qual não tem consequências para o aluno; e consequentemente é medida sancionatória só no papel. Na realidade é, pelo contrário, uma recompensa pelo mau comportamento.

Anónimo disse...

Afinal podia dar uma "ordem de saída da sala de aula", com doçura.

Agnelo Figueiredo disse...

Isso não é de todo verdade.
Não é verdade que a expulsão da aula não tenha consequências para o aluno. Se é expulso da aula, não participará nas respectivas actividades e, naturalmente, perderá uma oportunidade de aprender!
E isto é absolutamente objectivo.
Ora, se não aprende... aumenta a possibilidade de vir a obter uma classificação negativa... e a reprovar!

Magri disse...

Gostei desta abordagem tão objectiva e profunda, pelo que me permiti fazer um link deste post num texto mais "leve" que escrevi.

Quanto à expulsão dos alunos da aula, a minha experiência de um passado recente, numa escola problemática, diz-me que essa expulsão é impossível na prática, já que não se pode deixar esses alunos no recreio (por múltiplas razões) e a escola não tem as estruturas para os acolher.

JOSÉ LUIZ FERREIRA disse...

Azurara, a perda da oportunidade de aprender é com efeito um facto objectivo, mas o que opera aqui é o facto subjectivo de a muitos alunos essa perda ser completamente indiferente. Este facto subjectivo, é, de resto, um dos principais problemas do nosso sistema de ensino.
Em segundo lugar, é relativamente reduzida a probabilidade de a não aprendizagem levar a classificações negativas; e mesmo que o aluno tenha classificações negativas a probabilidade não é grande de isso levar à reprovação. Isto é assim porque o Ministério tornou burocraticamente muito complicado reprovar (ou «reter», como se diz em eduquês) um aluno.
Os alunos sabem disto e portanto não se importam nada de ser postos na rua ou de ter negativas - a não ser que tenham em casa o tipo de educação que considera uma coisa e outra faltas graves.

Anónimo disse...

Ressaltam do lote de comentários acima um aspecto crucial que, a quem de direito, deverá fazer reflectir: a difefença entre a teoria e a prática.
Parabéns pelo post.

Anónimo disse...

Sr. José Luiz Sarmento

Assim andamos às curvas na argumentação, o que parece ser uma coisa que a Sra Ministra gosta.

1º - O Sr. disse que "... não podia expulsá-la da aula: uma das «inovações pedagógicas» da actual ministra foi precisamente acabar com as expulsões"

2º - Eu respondi que não era verdade. O estatuto prevê a "ordem de saída da sala de aula".

3º - O Sr. responde que sim, mas na prática não, porque é preciso que o aluno seja encaminhado para actividades supervisionadas... e que essa ordem de saída não é um castigo porque não há falta disciplinar.

Mas o que o Sr. começou por dizer foi que ela não podia ser expulsa, porque a ministra tinha acabado com as expulsões.

Eu compreendo que prefira inflectir para onde dá jeito, à medida que a conversa vai andando, mas não acho correcto. Os alunos podem ser "expulsos" da sala de aula, e nalgumas Escolas Básicas há mesmo um serviço para acolher esses casos. Pode crer. Nas Secundárias não é tão frequente, mas a falta injustificada não deixa de existir(mesmo não sendo disciplinar) e vai com informação para os pais.
Evidentemente que tudo isto pode ser insuficiente, mas não justifica a sua afirmação peremptória de que "não podia expulsá-la da aula: uma das «inovações pedagógicas» da actual ministra foi precisamente acabar com as expulsões". Não é verdade.
Para que alguma coisa mude, a primeira preocupação de quem quer mudar deverá ser a de discutir os erros com rigor, e não embarcarem no discurso politiqueiro. Há coisas que se podem fazer, há outras que não se podem fazer e há outras que não se fazem por comodismo.

Anónimo disse...

Quero acrescentar, no entanto, às minhas observações que não condeno, em nada, o comportamento da professora do Carolina Michaelis. Julgo haver razões objectivas que determinam o comportamento em causa - razões que se prendem com a situação da própria turma - e que determinaram a atitude tomada e não outra. Discutir se deveria ter feito assim ou assado, em vez do que fez, é como discutir o que deveria ter feito uma equipa de futebol para ganhar. Podia ser que sim ou podia ser que não.
Mas não se queira justificar o que aconteceu com falta de leis ou regulamentos. Qualquer dia o Estatuto do Aluno é pior do que o Regulamento de Disciplina Militar e os professores continuarão a dizer que não podem fazer nada. O Estatuto tem erros graves, mas não é uma nulidade. Era interessante que o lessem e aplicassem, pelo menos enquanto está em vigor. Afinal é uma Lei da República.

JOSÉ LUIZ FERREIRA disse...

Seja, Henrique: fui impreciso no que afirmei. O que eu deveria ter dito é que a "ordem de saída" prevista no Estatuto é na prática anulada por instruções, muitas vezes apenas orais, provenientes das DRE's; que estas instruções obedecem a políticas, muitas vezes tácitas, elaboradas ao mais alto nível nos sucessivos Ministérios da Educação; e que durante o mandato da actual Ministra estas políticas se intensificaram no sentido de tornar quase impossíveis ou inócuas as "ordens de saída" previstas no Estatuto. Está melhor assim?

Luís Marvão disse...

Dou-lhe os meus parabéns pelo seu texto, um texto cheio de humanismo.
Fazia falta um texto assim.

Luís Marvão

Anónimo disse...

Li bem?? "Se é expulso da aula, não participará nas respectivas actividades e, naturalmente, perderá uma oportunidade de aprender!
E isto é absolutamente objectivo.
Ora, se não aprende... aumenta a possibilidade de vir a obter uma classificação negativa... e a reprovar!"

... e então? É proibido reprovar? Não ser expulso não prejudica a aula e os outros alunos?
Pelo que percebi, na prática dá muito trabalho expulsar um aluno, e por isso não se expulsa. Por isso apreende-se o telemovel. Lógica da batata!

JOSÉ LUIZ FERREIRA disse...

Caro José Pires: no meu tempo de aluno eram os livros do Tio Patinhas. Hoje são os telemóveis mas o princípio é o mesmo: se o professor vê em cima da mesa do aluno alguma coisa que não deva lá estar o procedimento correcto é apreendê-la e devolvê-la no fim da aula.
Esta sanção é bem menos pesada (em princípio, porque na prática e no concreto as coisas podem ser diferentes) do que uma ordem de saída da aula; e um professor sensato recorre obviamente à sanção menos pesada antes de recorrer à mais pesada.
Ao apreender o telemóvel a professora fez o que devia. E se a aluna também tivesse feito o que devia - ou seja, conformar-se e esperar pelo fim da aula para reaver o telemóvel - a aula poderia ter prosseguido sem prejuízo para ninguém.
Para manter a disciplina na sala de aula o professor precisa de duas coisas: uma autoridade natural ou aprendida que lhe permita criar um ambiente de respeito mútuo; e o poder de aplicar castigos que sejam castigos nos inevitáveis casos residuais em que essa autoridade não funcione.
O problema é que em muitos casos a ordem de saída da sala não é castigo, mas sim recompensa; e este é um problema que não está ao alcance do professor resolver, mas sim do legislador.

Anónimo disse...

Andei ocupada com as minhas miniférias e fiquei longe desta história.
Pelo que leio aqui:
i. se a turma era complicada há má gestão de recursos ao colocar ali um professor que esteve afastado da escola durante largos anos.Na verdade, um professor que esteve fora da escola durante mais de dez anos não pode ser sujeito a provas destas. Estará desadaptado e sem capacidade de resposta. Teria que ter tempo de preparação.E isso devia ter sido evidente para a "tutela".
ii. em vez de apreender o objecto que distrai, deve dar-se a hipótese de que o aluno perceba que deve guardá-lo. Se não o guarda porque não resiste à tentação, então deve entregá-lo ao professor para que este o guarde até ao final da aula. Se não o guarda porque prefere o objecto à aula, terá de optar por sair com falta de presença.

EJSantos disse...

CAro José Luiz Sarmento, estou triste com toda esta situação. Já tenho um curso superior, por necessidades profissionais estou a tirar um segundo e tenho a firme e casmurra convicção que só com um ensino de qualidade uma vida (de uma pessoa ou de um País) pode ir para a frente. O que vi no video deixou-me muito apreensivo.
MAis apreensivo fico porque sou casado e espero vir a ter filhos. Muito bem, em que escola eles vão andar? O que vão aprender? Que educação vão ter? É verdade que os valores básicos terão que ser aprendidos em casa (grande é a minha responsabilidade!), mas depois como será na escola? que ambiente terão na escola? Que colegas? Se forem colegas como aquele bando de mal educados que aparecem no video, exclamo: oh meu Deus!
Cumprimentos

PS: a minha irmão é professora.

JOSÉ LUIZ FERREIRA disse...

Caro ejsantos, não sei que resposta lhe hei-de dar. A solução mais fácil, para quem tem meios, é pôr os filhos numa boa escola privada (atenção, nem todas são boas). Mas esta solução tem desvantagens para além do preço. Algumas escolas privadas conferem um bom ensino mas distorcem as mentes dos alunos ao sabor de ideologias particulares, nomeadamente religiosas. Outras são ideologicamente neutras, mas isolam os alunos da sociedade em geral porque reduzem o seu convívio a uma só classe social.
Pô-los na escola pública escolhendo-a de acordo com os rankings publicados é um critério pouco fiável: a mesma escola que num ano está nos primeiros lugares pode estar nos últimos no ano seguinte.
Talvez a melhor solução, embora não isenta de riscos, seja integrá-los numa escola pública e ter o cuidado de os acompanhar em todas as vertentes: o trabalho de casa, o tipo de turma em que são postos, as relações com os alunos e os professores... Ter particular atenção ao bullying: se um bom aluno, que gosta da escola, deixa de querer ir, alguma razão tem para isso, mesmo que não a diga. É preciso averiguá-la. Os pais têm todo o direito de defender os filhos, quer apresentando queixa nos órgãos directivos da escola ou nas autoridades policiais, quer movendo processos cíveis, exigindo indemnizações pesadas, contra os pais de alunos violentos.
Aquilo a que em eduquês se chama «jovens em risco» chama-se em bom português «jovens perigosos». Em risco estão os que se portam bem e querem aprender. Duma coisa pode ter a certeza: se for um pai presente e empenhado na aprendizagem e no bem-estar dos seus filhos, não lhe faltarão aliados entre os professores da escola.