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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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terça-feira, 24 de maio de 2022

AINDA "THE MINISTRY FOR THE FUTURE"


"O Paradoxo de Jevons propõe que um aumento de eficiência no uso dum recurso leva  a um aumento no agregado do uso desse recurso, e não a uma diminuição. William Stanley Jevons, escrevendo em 1865, tinha em mente a história do uso do carvão; depois da introdução da máquina de Watt, que aumentou muito a eficiência do uso do carvão como fonte de energia, o uso do carvão cresceu muito para lá da redução inicial da quantidade necessária à actividade anterior a este melhoramento.

O efeito de ressalto deste paradoxo só pode ser mitigado pela introdução de factores adicionais ao método mais eficiente, tais como a obrigação legal de reinvestir, os impostos e a regulação. É o que dizem os economistas.

O paradoxo é visível na história de todas as espécies de desenvolvimentos tecnológicos. Menos litros de gasolina por quilómetro dão lugar a mais quilómetros percorridos. Computadores mais rápidos, mais tempo passado em frente ao computador. Etc. e etc. até ao infinito. Sabendo isto, é ingénuo esperar que os avanços tecnológicos possam por si sós reduzir os impactos do crescimento e reduzir a carga sobre a biosfera. E contudo muitos de nós ainda exibimos esta ingenuidade.

Associada a esta lacuna no pensamento corrente, talvez uma generalização do seu foco particular, é o pressuposto de que a eficiência é sempre boa. É claro que a eficiência como medida foi construída para descrever resultados considerados bons a priori, e portanto é quase uma tautologia, mas as duas coisas podem ser destrinçadas, pois não são exactamente iguais. Um exame dos registos históricos, ou uma reductio ad absurdum como "A Modest Proposal" de Jonathan Swift, deviam tornar óbvio que a eficiência pode ser uma coisa má para os seres humanos. O Paradoxo de Jevons também se aplica aqui, mas a ci~encia económica não tem sido normalmente flexível que chegue para ter em conta esta verdade óbvia, e é muito frequente ver textos de economia em que a eficiência é referida como boa por definição, e "ineficiente" como um simples sinónimo de "mau" ou "mal feito." Mas a evidência mostra que há boa eficiência e má eficiência, boa ineficiência e má ineficiência. Exemplos destas quatro situações podem ser facilmente apresentados, embora aqui deixemos isto como um exercício para o leitor, apenas com estas simples pistas para estimular a reflecção: a medicina preventiva poupa verbas enormes em cuidados médicos posteriores, e é uma boa eficiência. Comer os bebés em excesso (é esta a "modesta proposta" da personagem de Swift) seria uma má eficiência. Tudo o que cause dano às pessoas para obter lucro é igualmente mau, por mais eficiente que seja. Usar um veículo grande e pesado demais para ir do ponto A ao ponto B é uma má ineficiência, e há muitas assim; mas os meandros dum rio, irrigando uma grande planície fértil, são uma boa ineficiência. E assim por diante, e assim por diante; todas as quatro categorias precisam de ser tidas mais em conta se a análise da situação mais geral tiver como objectivo algo de desejável.

O princípio orientador que poderia guiar esta forma de pensamento é muitas vezes omitido, mas devia por certo ser incluído e explicitado: devíamos fazer tudo para evitar uma extinção em massa. Isto sugere um princípio operativo geral semelhante à ética da terra leopoldiana, muitas vezes resumida como "o que é bom é o que é bom para a terra." Na nossa situação presente, a frase podia ser reformulada como "o que é bom é o que é bom para a biosfera." À luz deste princípio, depressa se verifica que muitas eficiências são profundamente destrutivas, e muitas ineficiências podem hoje ser vistas como involuntariamente salvadoras. A robustez e a resiliência são geralmente ineficientes; mas são robustas, são resilientes. Precisamos de chegar aqui intencionalmente.

Toda a disciplina da Economia, pela qual planeanos e justificamos o que fazemos enquanto sociedade, está simplesmente infestada de ausências, contradições, falhas lógicas e, pior que tudo, falsos axiomas e falsos objectivos. Temos de corrigir isto se pudermos. Precisaríamos de ir muito fundo e reestruturar todo esse campo do saber. Se a Economia é um método para optimizar várias funções objectivas sujeitas a constrangimentos, então o foco da mudança devia consistir num re-exame dessas "funções objectivas." Não o lucro, mas a saúde da biosfera, devia ser a função resultante; e isto mudaria muitas coisas. Porque é que fazemos o que fazemos? O que é que queremos realmente? O que é que seria justo? Como podemos gerir melhor as nossas vidas neste planeta?

A ciência económica actual ainda não respondeu a nenhuma destas questões. Mas porque havia de responder? Pergunto à minha máquina de calcular o que devo fazer com a minha vida? Não pergunto. tenho de resolver por mim próprio este problema."  

domingo, 22 de maio de 2022

Monstros

 Vivemos num mundo e num tempo de monstros. Não é que seja o pior dos mundos - houve-os tão maus ou piores - mas é certamente um mundo em que a notícia do pior nos chega facilmente. É um mundo em que a ficção tem dificuldade em competir no horror com o reality show que nos é oferecido diariamente pelos media; e todos viajamos ao coração das trevas sem precisar de literatura. 

Ou será que precisamos? Os livros e os filmes de horror não me interessam quando postulam o sobrenatural: é uma solução de facilidade que não me ensina nada. Mas há - ainda há - a literatura policial. O romance policial parece incapaz de acrescentar horror ao horror, e sê-lo-ia de facto se o horror não se tivesse transformado em espectáculo. Mas os melhores romances policiais podem, como a poesia, devolver a realidade ao real.

O Comissário Brunetti de Donna Leon é um homem decente. Tem uma família a que é dedicado. Os filhos adolescentes procuram viver eticamente num mundo que pouco se rege pela ética. No seu local de trabalho, a Questura de Veneza, há gente corrupta, semi-corrupta ou, como ele, tão decente quanto a decência cabe nos limites do possível. Ainda que nem sempre caiba.

Este é o pano de fundo: Veneza, e o que nela sobrevive de boa vizinhança; Brunetti; a sua família, amigos e colegas; o pequeno comércio, o restaurante sem turistas, o bar da esquina. É contra este pano de fundo que se destaca o horror: e é por vezes um horror sem nome, um horror que o Código Penal não prevê nem pode punir. E que não cabe numa notícia de jornal, porque tem de ser explicado desde a raiz e esta está por vezes muito funda. Como no livro da imagem.

A ficção não é o oposto da realidade. Nem cabe numa escala de factualidade entre a verdade e a mentira. No seu melhor será, se assim quisermos dizer, a verdade possível quando a verdade factual nos ilude. E a esta verdade chamo eu poesia.  

sábado, 21 de maio de 2022

COMO SALVAR O PLANETA


 "Hoje estamos aqui para indagar quem realmente põe em prática a economia mundial - quem são as pessoas que a movem, por assim dizer. Provavelmente estas pessoas constituem uma minoria, já que há quem diga que a maior parte das pessoas hoje vivas dariam activamente as boas-vindas a uma mudança no sistema.

Só uma pessoa estúpida diria isso.

Bem, e contudo eu disse-o ainda agora.

Sim.

Mas para voltar à questão, quem pensamos nós que realmente põe em acção o mercado enquanto tal? Pelo que quero dizer, quem o teoriza, quem o implementa, quem o administra, quem o defende?

A polícia. No sentido da lei.

Então nesse caso podemos assumir que as pessoas que fazem as leis estão profundamente implicadas?

Sim.

Mas os legisladores são muitas vezes eles próprios juristas, notoriamente desprovidos de ideias. Podemos assumir que recebem doutros as suas ideias sobre as leis?

Sim.

E quem são alguns desses outros?

Think tanks. Académicos. 

O que quer dizer professores de economia e gestão.

Toda a espécie de professores. E muito rapidamente os seus estudantes.

Faculdades de Economia, quer dizer.

A Organização Mundial do Comércio. Os mercados accionistas. Todas as leis, e os políticos e os burocratas que administram as leis. E a polícia e as forças armadas que as fazem cumprir.

E suponho que os CEOs de todas as empresas.

Bancos. Associações de accionistas, fundos de pensões, accionistas individuais, fundos de investimento, firmas financeiras.

Podem os bancos centrais ser realmente centrais nisto tudo?

Sim.

Mais alguém?

Companhias de seguros, companhias de resseguros. Grandes investidores.

E os seus algoritmos, certo? E portanto os matemáticos?

A matemática é primitiva.

E contudo são precisos matemáticos até para a matemática primitiva, uma vez que nós outros somos tão ignorantes.

Sim.

E também, suponho, os próprios preços, e as taxas de juro e coisas assim. O que é o mesmo que dizer o próprio sistema.

Estavas a perguntar sobre as pessoas e as suas acções.

Sim, mas é uma rede de actores. Alguns dos actores numa rede de actores não são humanos.

Treta.

O quê, não acreditas em redes de actores?

As redes de actores existem, mas são os actores dotados de agência que podem escolher fazer as coisas doutra maneira. E era disto que estavas a tentar falar.

Certo, mas então o dinheiro?

O quê, o dinheiro?

Para mim, o dinheiro actua como a gravidade - quanto mais se acumula, mais poder de acumulação existe, como com a matéria e a sua atracção gravitacional.

Giro.

Em última análise é um sistema enorme e articulado!

Perspicaz da tua parte.

Certo, então, voltemos aos que administram o nosso sistema económico enquanto tal, e ensinam os outros a trabalhar com ele, e por uma coincidência nem por isso coincidente beneficiam mais dele. Pergunto-me quantas acabam por ser essas pessoas?

Cerca de oito milhões.

Tens a certeza?

Não.

Então seria uma pessoa em cada mil das que estão vivas hoje.

Boa.

Obrigado! E os programas que elas escreveram.

Cinge-te às pessoas.

Mas se os elementos não humanos do sistema deixassem de funcionar?

Cinge-te às pessoas. Estavas quase a tornar-te interessante.

Quem é mais importante nesse grupo de oito milhões?

Os legisladores do Estado.

É um pensamento desagradável.

Não, não é. Porque dizes isso?

Corrupção, estupidez -

Estado de Direito.

Mas -

Nem mas nem meio mas. Estado de Direito.

Que palhinha tão frágil para nos agarrarmos!

Sim.

O que podemos fazer quanto a isso?

Obrigá-lo a funcionar."


sexta-feira, 5 de junho de 2020

Peer Gynt

As suites Peer Gynt 1 e 2 de Edvard Grieg são habitualmente gravadas em versão instrumental. Versões vocais como esta são menos comuns. 

No quarto andamento da suite nº 1, Na Corte do Rei da Montanha, intervem o Conjunto Vocal Gösta Olin e o Coro de Câmara Pro Musica. No segundo andamento da suite nº 2, Dança Árabe, intervêm estas formações juntamente com a mezzo-soprano Marianne Eklöf. No quarto andamento, a conhecidíssima Canção de Solveig é mesmo uma canção e tem como intérprete a soprano Barbara Bonney. 

A orquestra é a Sinfónica de Goteburgo sob a direcção de Neeme Järvi.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Traduções

Nunca percebi muito bem que mosca terá mordido a Eça de Queirós para traduzir As Minas de Salomão (produzindo, como que por acidente, um texto melhor que o original). Apertos financeiros, arrisco. Já não me custa a entender que Aquilino Ribeiro tenha querido traduzir o D. Quixote, embora ainda me esteja entalado na garganta aquele "cujo nome vos direi amanhã."

O que acho delicioso é que Fernando Pessoa tenha traduzido The Scarlet Letter. Traduzindo "scarlet", como bom lisboeta, por "encarnada" e não, como mau literato que não era, por "escarlate." São coisas que consolam um bocadinho em tempos de confinamento. 

domingo, 31 de maio de 2020

Why Brownlee Left


Why Brownlee left, and where he went,
Is a mystery even now.
For if a man should have been content
It was him; two acres of barley,
One of potatoes, four bullocks,
A milker, a slated farmhouse.
He was last seen going out to plough
On a March morning, bright and early.

By noon Brownlee was famous;
They had found all abandoned, with
The last rig unbroken, his pair of black
Horses, like man and wife,
Shifting their weight from foot to
Foot, and gazing into the future.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

David Graeber, 'Debt: The First 5,000 Years'

Se há uma pergunta na ciência económica para a qual toda a gente pensa que tem uma resposta óbvia, é esta: "O que é o dinheiro?" E quanto menos sabemos o que é o dinheiro mais pensamos que sabemos. Quem sabe, porém, sabe sobretudo que não sabe. A natureza do "dinheiro" (como a de "riqueza", que não é a mesma) é uma das questões mais intratáveis e complexas no debate entre economistas; e já esteve na raiz de não poucas guerras, e das mais mortíferas.

Há hipóteses mais plausíveis do que outras. Uma delas, bastante consensual, é que a definição de "dinheiro" está ligada à de "dívida." Isto, numa primeira abordagem, parece óbvio: se forneço a alguém um bem ou serviço e recebo em troca um papel que não serve para nada a não ser para obter outro bem ou serviço, então o que tenho em meu poder não é em si mesmo riqueza, mas apenas o título de uma dívida em que estou na posição de credor.

Mas não há consenso sobre todos os eixos de articulação entre o dinheiro e a dívida. Pior: também não há consenso sobre uma definição exacta de "dívida" nem sobre uma definição exacta de "riqueza." Sabemos que as três noções não são sinónimas, presumimos fundamentadamente que estão ligadas, mas não sabemos exactamente como estão ligadas.

Para discutir estas matérias, David Graeber recua 5.000 anos até à Idade do Bronze e viaja por toda a Terra, examinando as mais diversas formas de organização social e económica que os historiadores, os sociólogos e os antropólogos têm estudado. E centra-se na noção de "dívida", provavelmente aquela que se presta a uma definição mais plausível. "Dívida" será então a obrigação - moral, religiosa, legal, ritual - de compensar um benefício recebido mediante uma contrapartida. Sendo que nem o benefício nem a contrapartida são necessariamente objectivos ou facilmente quantificáveis.

Juntamente com mais duas ou três obras canónicas (não serão muitas mais), 'Debt' obriga-nos a pensar por fora das vulgatas cássica e marxista sem por isso termos que renunciar ao que há de mais frutífero nas respectivas teorias. E obriga-nos a dar pelo menos o benefício da dúvida às tão negligenciadas abordagens anarquistas da economia, da sociologia e da história.

Da última vez que procurei, este livro não tinha sido editado em português. Havia outros do mesmo autor, porventura menos importantes; fica a hipótese de os editores portugueses se terem assustado com a extensão do texto. Entretanto pode ser que já tenha sido publicada uma tradução em português. É uma leitura que se recomenda, quando mais não seja para evitarmos pronunciamentos taxativos sobre noções como dívida privada e dívida pública e sobre as implicações políticas e estratégicas do que sabemos, ou julgamos saber, sobre a matéria.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Aldous Huxley, Point Counter Point

Quando participei num desafio em que era convidado a publicar no Facebook as capas de dez livros que me tivessem marcado, um dos títulos em que pensei foi 'Nineteen Eighty-Four' de George Orwell. E como este livro é frequentemente emparelhado com a distopia de Aldous Huxley 'Brave New World', pensei em incluir este título na lista.

Não o fiz, porém. É certo que Nineteen Eighty-Four' me marcou, é igualmente certo que 'Brave New World' também, e que a conjunção ou oposição das duas distopias me marcaram ainda mais. Nenhuma das duas me serviu de grelha de leitura única para compreender o meu tempo porque - lá está -existia também a outra.

Mas a obra mais ambiciosa de Huxley é 'Point Counter Point', e marcou-me mais do que me pareceu à primeira leitura. O romance foi publicado em 1928 e grande parte das suas personagens podem ter sido inspiradas em contemporâneos de Huxley. O mundo em que a acção decorre é o das elites artísticas, jornalísticas, literárias e científicas da época. E políticas, também: o líder fascista Edward Webley chefia um movimento que é, na Europa dos finais dos anos Vinte, perfeitamente respeitável.

Porquê falar deste romance e não de outro mais imediatamente relevante - como 'Brave New World' - para as perplexidades da era em que vivemos hoje? Em parte porque os pares de opostos que determinam a organização do texto - natureza e artifício, racionalidade e intuição, espectáculo e acção, ponto e contraponto - continuam a ser úteis para podemos ler o nosso tempo. Mas principalmente porque se trata, não de um panfleto nem de um 'roman à clef', mas de literatura. O autor não ignora a economia, a política ou a história - se as ignorasse nem literatura seria capaz de fazer - e não se abstém, longe disso, de produzir crítica social. Produz esta crítica de um ponto de vista que não é o do seu contemporâneo D.H. Lawrence; mas, ao retratar Lawrence na personagem Mark Rampion, e dando-lhe amplamente voz, cria o contraponto crítico para o seu ponto. Já é obra de monta.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Contos de Grimm: Edição Completa

As edições habituais dos contos de Grimm, como as dos contos de Andersen, obedecem a escolhas. Um dos critérios é desde logo a presumida adequação a um público infantil, outro será a purga do que neles houver de mais cruel, outro a preocupação de evitar repetições e redundâncias. Mas são precisamente as repetições e as redundâncias que fazem a riqueza da obra completa (que foi sendo construída, ao longo de sucessivas edições, durante várias décadas).

Há personagens recorrentes: o rei, a rainha, o "filho de rei", a "filha de rei", os três irmãos, as três irmãs, a madrasta (mas não o padrasto), a bruxa, o alfaiate, o sapateiro, o moleiro, o soldado demobilizado (mas não o no activo), o mestre e o aprendiz, o Diabo, S. Pedro (mas não os outros santos). Fadas há poucas: na Gata Borralheira não é  uma fada madrinha que calça e veste a protagonista, mas sim uma ave; e esta vive na árvore que ela plantou junto à campa da mãe.

Há cenários recorrentes: palácio e floresta, cidade e campo. E nomes recorrentes: Branca de Neve (Schneewittchen, em dialecto, que é a da história mais conhecida, e outra, Schneeweisschen, noutra história). Há um tempo recorrente, que é o do mito: o tempo em que "desejar ainda servia de alguma coisa", o tempo em que "todos os sons tinham sentido e significado."

A repetição, a recorrência, as variações sobre uns poucos temas criam escalas harmónicas: o significado conjunto é maior que a soma dos significados parciais. Quem quiser entender a Alemanha e os alemães tem aqui uma ajuda. 

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Álvaro Cunhal, Tradutor de Shakespeare



Não falta reflexão política em Shakespeare. Stephen Greenblatt, em "Tyrant", elabora mesmo uma taxinomia do despotismo na sua obra: Ricardo III é capaz de qualquer fraude ou crime para chegar ao poder mas não sabe o que fazer dele depois de o alcançar. Leontes enlouquece e exerce o poder como um psicopata, crescendo em crueldade no decorrer da acção. Coriolano, um aristocrata cujo desdém pela plebe o torna incapaz de se sujeitar aos contrangimentos duma campanha política, torna-se um traidor. Macbeth, roído pelo remorso, vê ameaças e conspirações em tudo excepto naquilo que acaba por vencê-lo. No ciclo Henrique VI, o populista John Cage convoca as massas rurais contra as elites letradas e enforca quem sabe ler.

Porque escolhe então Álvaro Cunhal o "Rei Lear" para a sua única tradução de Shakespeare? Lear não é tão obviamente um tirano como o são as filhas Goneril e Regan; a máquina inexorável da tragédia, que põe em marcha, não tem a marca da vontade de poder mas sim a de se despojar dele. Mas Lear acaba por ser tanto mais protagonista da Tragédia e da História quanto menos se quer protagonista duma vontade política.

Escreve Cunhal na sua nota introdutória que o Rei Lear é o admirável exemplo da obra de um grande artista assente no espírito criador do seu povo, da fusão do génio individual com o génio popular. Mas para estabelecer o nexo entre o génio do indivíduo e o espírito criador do povo, para mostrar como se opera esta fusão, Cunhal não se pode ficar por uma mensagem política superficial. A sua abordagem tem que ser a de um erudito e a de um poeta.

O erudito segue as raízes de Lear na tradição popular e literária que antecede o texto de Shakespeare; compara as diferentes versões e edições de modo a chegar à mais idónea; data o período em que foi escrito (entre 1603 e 1606); interpreta-o no contexto cultural da sua época; e refere mesmo, caracterizando-as, algumas das deturpações, falsificações, "emendas" e "aperfeiçoamentos" que outros autores menos talentosos lhe introduziram entre a segunda metade do século XVII e o final do século XVIII. Todo este trabalho aparece documentado nas notas finais.

O poeta faz esta coisa espantosa: apresenta-nos um texto que poderia, aos olhos de qualquer leitor, ter sido escrito originalmente em português. E isto sem nunca o trair.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

O Deslaçar

Estou a ler "The Unwinding" de George Parker, em que o autor procura explicar a crescente disfuncionalidade da sociedade americana. O livro deve ter dado uma trabalheira e custado uma fortuna a fazer porque a metodologia do autor consiste em relacionar as biografias de muitas dezenas de pessoas com os desenvolvimentos políticos, económicos, tecológicos e sociais - numa palavra, históricos - entre os anos 60 do século passado e a actualidade.

As personagens são de todas as classes sociais, de todas as religiões ou de religião nenhuma e de todas as origens étnicas e geográficas. As suas opções políticas cobrem todo o espectro americano, desde a direita libertária à ala mais à esquerda do Partido Democrático. Muitas são anónimas, outras são nomes que todos conhecemos, como Jay-Z, Colin Powel ou Elizabeth Warren.

Entre elas conta-se Peter Thiel, o autor da ideia original do Facebook, a quem Mark Zuckerberg se juntou mais tarde. Depois de Zuckerberg comprar a posição de Thiel, este abandonou a empresa e passou a dedicar-se a outros negócios. Não é, como Zuckerberg, o homem mais rico do mundo, mas é mesmo assim fabulosamente rico.

Thiel está convencido que os sistemas político, económico, social e constitucional norte-americanos se tornaram radicalmente disfuncionais a partir de 1973. 


«Foi a partir dessa data que os salários começaram a estagnar, a ciência e a tecnologia deixaram de progredir, o modelo de crescimento colapsou, as instituições políticas deixaram de contar com a confiança dos cidadãos e o modo de vida das classes médias começou a fragilizar-se. Durante os anos oitenta esta tendência pareceu inverter-se: foram os anos de Reagan e do optimismo, os anos em que tudo parecia possível. E nos anos noventa a Internet substituiu o Paraíso. Foram feitas enormes fortunas, e a vida sem um computador tornou-se quase inimaginável. No início do século deu-se o crash das dot-com e tudo começou de novo a regredir - a presidência de Bush, o recrudescer da guerra e da violência. Uma economia anémica - excepto em Wall Street - resultou nos eventos sísmicos de 2008 e numa nova depressão. Quatro décadas para baixo, para cima, para cima, para baixo.

Mas a tendência sistémica era para a regressão e para a entropia. Isto não era muito visível no período intermédio entre as duas depressões, e especialmente difícil de ver a partir do Silicon Valley, onde a vida depois do crash das dot-com continuou a correr bem graças sobretudo às redes sociais. Mas trinta milhas mais a Leste a vida não estava a correr bem às pessoas comuns, especialmente nos casos em que o seu único património - a casa onde viviam - tinha perdido metade do seu valor. Thiel começou a olhar para os anos oitenta e noventa como uma espécie de Verão de São Martinho que durou cerca de vinte e cinco anos, começando com o fim da recessão de Reagan em 1982 e acabando com o colapso da habitação em 2007. Mas mesmo durante este Verão de São Martinho as instituições-chave continuaram a desgastar-se, e abundaram as recessões e os pânicos financeiros. Com tantas bolhas - tanta gente a correr atrás de promessas efémeras, todas ao mesmo tempo - era claro que as coisas não estavam, ao nível mais fundamental, a funcionar.


Na Primavera de 2011, Mitt Romney andou pelo Silicon Valley à procura de apoios para a sua candidatura contra Obama, e visitou Thiel na sua casa em S. Francisco para uma conversa ao pequeno-almoço. Thiel ficou muito bem impressionado com ele e deu-lhe um conselho: o candidato mais pessimista sera o vencedor, porque um optimismo excessivo seria interpretado como falta de ligação à vida concreta das pessoas. Por outras palavras, seria um erro para Romney argumentar que Obama era incompetente e tudo se resolveria automaticamente se ele, Romney, fosse presidente. Reagan tinha usado esse argumento contra Carter em 1980, mas em 1980 só 50% dos americanos pensava que a vida dos seus filhos seria mais difícil do que a sua; enquanto em 2011 esta percentagem tinha subido para perto de 80%. A melhor estratégia para Romney seria dizer que as coisas podiam melhorar muito, mas conseguir isso seria extremamente difícil e exigiria mudanças mais profundas do que simplesmente trocar de presidentes. Mas este era um ponto que Romney era incapaz de compreender. Romney partia do princípio que o candidato mais optimista seria sempre o vencedor. Partia do princípio de que as coisas, embora pudessem estar a funcionar mal nos pormenores e à superfície, no fundamental continuavam a funcionar bem.

Por exemplo, estava em curso a era da informação, não estava? Com tudo o que ela prometia, não era? Thiel, um dos pioneiros da era da informação, com a qual tinha enriquecido, já não acreditava nela. Reunido com Romney no Café Venetia em Palo Alto, no lugar exacto em que ele e Elon Musk tinham decidido fazer da Paypal uma empresa cotada em bolsa, a cinco quarteirões dos primeiros escritórios dessa mesma Paypal, que estavam mesmo em frente dos escritórios originais da Facebook e dos escritórios actuais da Palantir, a seis milhas do campus da Google, a menos de uma milha numa direção e a menos de um quarteirão noutra direcção desses templos seculares da nova economia que eram as lojas Apple, no coração do coração do Silicon Valley, rodeado de mesas ocupadas por pessoas magras, saudáveis e vestidas com elegância informal, muitas delas munidas de aparelhos da Apple enquanto discutiam a criação de ideias e os chamados investimentos angélicos, Thiel tirou um iPhone do bolso dos jeans, mostrou-o a Romney e disse que não considerava aquilo um avanço tecnológico de fundo. Comparado com o programa espacial Apollo ou com um jacto supersónico, um smartphone era um brinquedo. Nos quarenta anos anteriores a 1973 tinha havido de facto enormes avanços tecnológicos e os salários tinham sextuplicado. Desde então os americanos tinham-se deixado fascinar por meros gadgets e esquecido quanto custa o verdadeiro progresso.»

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Excerto:

"Not far away from that palace room where no bird is singing, a man is as high in the air as birds might fly, working from a scaffold under a dome. The exterior of the dome is copper, gleaming under moon and stars. The interior is his.

There is light here in the Sanctuary; there always is, by order of the Emperor. The mosaicist has served tonight as his own apprentice, mixing lime for the setting bed, carrying it up the ladder himself. Not a great amount, he isn't covering a wide area tonight. He isn't doing very much at all. Only the face of his wife, dead now two years, very nearly.

There is no one watching him. There are guards at the entrance, as always, even in the cold, and a small, rumpled architect is asleep somewhere in this vastness of lamplight and shadow, but Crispin works in silence, as alone as a man can be in Sarantium.

If anyone were watching him, and knew what it was he was doing, they would need a true understanding of his craft (of all such crafts, really) not to conclude that this was a hard, cold man, indifferent in life to the woman he is so serenely rendering. His eyes are clear, his hands steady, meticulously choosing tesserae from the trays beside him. His expression is detached, austere: addressing technical dilemmas of glass and stone, no more.

No more? The heart cannot say, sometimes, but the hand and eye - if steady enough and clear enough - may shape a window for those who come after. Someone might look up one day, when all those awake or asleep in Sarantium tonight are long dead, and know that this woman was fair, and very greatly loved by the unknown man who placed her overhead, the way the ancient Trakesian gods were said to have set their mortal loves in the sky, as stars."