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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Pois... Não sabe manter a disciplina...

Dizer que um professor foi agredido por não saber manter a disciplina é a mesma coisa que dizer que uma mulher foi violada por se vestir de modo provocante. Em 2009 vamos acabar com essa história de deitar as culpas à vítima, está bem?

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Uma mera brincadeira?!

Este país ensandeceu. Não há outra explicação. Eu até admito que a intenção do aluno que apontou uma arma (de brinquedo, mas isto só se soube depois) à cabeça da professora fosse lúdica. Para ele, no momento, pode ter-se tratado mesmo duma brincadeira. Sucede, porém, que isto é de todo irrelevante.

O facto objectivo é que um aluno apontou uma arma (de brinquedo) à cabeça duma professora. Sentiu-se autorizado a fazê-lo porque se tratava, na cabeça dele, duma "brincadeira". Se estava autorizado a isto, a que mais estará autorizado? A que mais se sentirão autorizados outros alunos, noutras escolas?

Conheço vários sistemas educativos, e nem me passa pela cabeça que nalgum deles um episódio semelhante ao que se passou na Escola do Cerco não fosse considerado gravíssimo. Nos de tradição anglo-saxónica, onde as punições são mais duras, aquele aluno estaria neste momento a lutar em tribunal para não ser condenado a vários anos de cadeia. Noutros países, onde as punições são mais brandas, mas também mais expeditas, estaria já internado numa instituição para jovens delinquentes.

Se um dia, neste país de loucos, a pistola for a sério e a professora for morta, espero que aqueles que agora desdramatizam tenham ao menos a dignidade de assumir a sua parte na culpa.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Porquè no te callas?

Segundo a Comunicação Social, Jorge Pedreira insinuou que algumas assinaturas do abaixo-assinado entregue pela Plataforma Sindical são falsas. Estas coisas nunca se insinuam: ou se afirmam, ou se fica calado. Insinuar uma coisa destas é prova de fraqueza e desespero.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Nova Ligação

Na sequência da afirmação que tenho feito de que o ataque do Governo aos professores se insere numa estratégia geral de ataque às classes profissionais mais comprometidas civicamente, pensei em incluir na minha lista de links blogues de médicos e de magistrados. Começo com um blogue dum juiz: Aqui e Agora. Não o conhecia, mas estive hoje a explorá-lo e fiquei a saber algumas coisas que não sabia sobre os "ossos do ofício" duma classe profissional que, tal como a minha, está a ser alvo dum ataque político por parte de forças que não estão minimamente preocupadas com o bem comum.

A cereja em cima do bolo foi descobrir que o meu blogue já faz parte da lista de ligações do Aqui e Agora. Agradeço ao autor e espero que a multiplicação de contactos entre as classes profissionais em Portugal possa contribuir para uma Sociedade Civil mais forte, da qual o País precisa urgentemente.

Comprar a paz com os professores?

Sócrates dixit: se tiver a maioria absoluta nas próximas legislativas, não vai ter que comprar a paz com os professores.

Está redondamente enganado: mesmo que lhe suceda a desgraça de ter maioria absoluta na próxima legislatura (a maioria relativa convir-lhe-ia muito mais), vai ter que comprar a paz com os professores. E vai ter que comprá-la cara: há um ano, ter-lhe-ia ficado relativamente barata, mas desde então o preço não tem parado de crescer.

O mesmo com os juízes, os médicos e as classes profissionais em geral: a parte activa, politicamente sofisticada, socialmente consciente, eticamente responsável e civicamente empenhada da Sociedade Civil a que Sócrates chama, depreciativamente, as "corporações".

Muita sorte terá Sócrates se não tiver que comprar a paz com as classes médias em peso: aí é que o preço seria tão alto que pagá-lo representaria a falência política não só de Sócrates, mas do projecto político que ele encabeça dentro do PS; e quem sabe se não a falência política do próprio PS. E se isto parece exagero, os socialistas que olhem para o PSD: quem vê as barbas do vizinho a arder põe as suas de molho.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A Escola Pública modelo OCDE

Todos a conhecemos. É a que se tem vindo a impor há cerca de trinta anos, não só em Portugal, mas por toda a Europa. É uma escola igualitarista (procura-se que todos obtenham o mesmo "sucesso" sem ter em conta, nem as suas capacidades nem o seu empenho), mas não democrática (dificulta cada vez mais a ascensão cultural e social dos alunos); indisciplinada (os alunos não podem ser recompensados nem punidos e as suas acções não têm consequências) mas totalitária (em cada programa de cada disciplina, a parte destinada à promoção dum pensamento único é mais vasta do que aparte destinada aos respectivos conteúdos); é uma escola que faz prevalecer a aprendizagem através da descoberta sobre a aprendizagem através da instrução (sobre a eficácia relativa dos dois métodos, ler aqui o que Nuno Crato tem a dizer), que desdenha o ensino, a aprendizagem e o conhecimento a favor das competências e da qualificação; é uma escola burocratizada, normalizada e desumanizada que não tem outro objectivo que não seja fabricar a mão-de-obra barata do futuro.

Este modelo de escola propagou-se como uma epidemia pelos continentes europeu e americano. Demorou décadas a impor-se porque teve que lutar contra a natural resistência de muitos pais - que ainda vêem na Escola Pública um instrumento de ascensão social e não, como quer o poder, de perpetuação de castas - e de muitos professores, vinculados, por vezes de um modo quase inconsciente mas muito profundo, a princípios deontológicos antagónicos à vontade do poder político e económico.

A velocidade desta propagação variou muito, na Europa, de país para país. Nos países onde existem Ministérios da Educação centralizados, a epidemia encontrou o vector de propagação ideal. Onde não há Ministérios da Educação, as Escolas e as comunidades em que estão inseridas tiveram tempo de desenvolver anti-corpos que lhes permitem ter ainda uma Escola Pública de qualidade aceitável.

Quem rejeitou de todo estas tretas foram os países asiáticos: Singapura, Taiwan, o Japão, a Índia, a China. Dizem-nos os economistas que o poder político e económico se está a transferir para a Ásia, e dão para esta transferência toda a sorte de razões económicas, políticas e geopolíticas; mas eu pergunto a mim mesmo se o facto de termos feito, há trinta anos, a opção errada em matéria de política educativa, e de ainda hoje persistirmos nela, não terá contribuído também, e não estará ainda a contribuir, para a nossa decadência geopolítica, económica e, pior que isso, civilizacional.

Política de Alianças III: a Direita dos Valores e a Esquerda Iluminista

O grande problema dos professores no que diz respeito a alianças políticas é que, em Portugal, tanto a Direita como a Esquerda que nos poderiam apoiar (isto é, cujas agendas têm zonas de intersecção com a nossa) são claramente minoritárias. Quase não existe uma Direita dos Valores para quem o serviço público e a continuidade das instituições (entre elas a escola) sejam importantes; e a que existe não tem expressão partidária, tendo os seus representantes sido ostracizados há muito tempo, quer do PP, quer do PSD. Existe muita gente na nossa classe política a dizer que a Escola deve transmitir valores, mas parece não ocorrer a ninguém que o valor que lhe compete transmitir antes de mais é a racionalidade. A Direita que predomina no nosso País é a dos interesses, e essa tem uma agenda que é claramente antagónica à dos professores, como já referi antes.

Também a Esquerda republicana e laica, herdeira do Iluminismo, tem estado em regressão. Esta esquerda constituiu em tempos uma componente importante do PS, mas tem sido ostracizada neste partido a favor da pseudo-esquerda tecno-burocrática que hoje nos governa. Os partidos à esquerda do PS têm agendas que intersectam em parte a(s) dos professores, mas que em certas zonas lhe(s) são antagónicas - nomeadamente nos aspectos que dizem respeito ao «eduquês» e às questões disciplinares.

Devemos, portanto aproximar-nos, à Direita, não de partidos, mas de personalidades individuais que estes ostracizaram mas que continuam a ter influência social e a ser ouvidas pela opinião pública. O mesmo à Esquerda: conviria, por exemplo, mostrar ao Dr. Mário Soares que o recente elogio que fez à Ministra da Educação vai ao arrepio daquilo por que ele sempre lutou: não pode haver uma República forte sem uma Escola que esteja ao serviço da República. Mas no caso da Esquerda também há lugar a uma aproximação (cautelosa) aos partidos: o Bloco de Esquerda tem apoiado os professores em aspectos importantes da sua luta, embora não sejam de esperar dele grandes apoios em relação a outros aspectos.

Agora que fomos empurrados pelo Governo do terreno laboral para o terreno político, a nossa luta passou a ser política. E quanto à legitimidade democrática, não devemos ter complexos: legitimidade democrática, temo-la nós, que lutamos pela República, e não quem luta contra ela a favor de interesses particulares.


A seguir: Política de Alianças IV: os Alunos

domingo, 21 de dezembro de 2008

Não quero ser desavaliado

Ser desavaliado é o contrário de ser avaliado. Consegue-se desavaliar um profissional classificando-o por todos os critérios excepto os que têm a ver com a sua função.

Um empregado de mesa é avaliado pela sua proficiência em atender os clientes, não pela sua habilidade em andar de skate. Se houvesse uma Maria de Lurdes Rodrigues dos restaurantes que insistisse em avaliá-lo pela forma como anda de skate, o senhor queixar-se-ia, com razão, de estar a ser desavaliado em vez de avaliado.

Um médico é avaliado pelo seu desempenho em relação a padrões amplamente estudados e internacionalmente estabelecidos por entidades cientificamente idóneas e independentes dos governos. Se, para um determinado procedimento, a probabilidade de erro estabelecida é "x", um médico que erre menos que "x" é bom e um que erre mais que "x" é mau. Um médico que errasse zero em tudo seria perfeito, mas desses não deve haver nenhum no mundo. O que não passa pela cabeça de ninguém é que um médico seja avaliado, enquanto médico, pela maneira como joga ténis. Isto não seria avaliação, seria desavaliação.

Um vendedor de automóveis é avaliado pelo número e valor dos automóveis que vende e não pela sua capacidade de imitar vozes de políticos. Um engenheiro civil é avaliado pelas suas obras - se a ponte não desaba, se o apartamento não mete água - e não pela graça das anedotas que conta.

De facto, só conheço duas profissões em que a regra não é a avaliação, mas a desavaliação: os juízes e os professores. Aos juízes pede-se que as suas decisões sejam doutas e extensas, sendo absolutamente irrelevante a relação que possam ter com a verdade material: não são avaliados, são desavaliados.

A mim, querem-me exigir tudo e mais alguma coisa - do que ninguém quer saber para nada é da minha proficiência em ensinar inglês e alemão. Não me querem avaliar, querem desavaliar-me.

Se eu pedir para ser avaliado como as outras pessoas - como o empregado de mesa, por exemplo, ou como o engenheiro - estarei a pedir demais? Se os outros são avaliados, porque é que o governo faz tanta questão em desavaliar os professores?

Mensagem aos Pais

Se ainda não entenderam, a politica educativa deste governo é esta: Uma escola barata hoje, para produzir a mão-de-obra barata de amanhã. Esta mão-de-obra barata de amanhã são os vossos filhos.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Novo artigo do colega Teodoro Manuel

A nossa escola anestesia

Luto por uma pedagogia que incentive o prazer da descoberta e da dúvida. Por uma pedagogia que não minta nem desvirtue, que não se esqueça que a vida não é seguir os comboios, que a vida não é olhar para a vida com olhos vazios, carentes de luz de dentro, com brilho ausente para fora, por défice de curiosidade e dúvida. Por uma pedagogia que ensine a dizer obrigado e bom dia.



Luto contra uma pedagogia de ocupação de tempos livres, nas idades em que devia provocar desafios e desconstruir angústias com o fascínio da descoberta. Contra uma pedagogia de encher as fábricas de uma massa uniforme, cinzenta e sem vida. Porque a vida, está mais dentro que fora de nós. Fora, é a vida dos outros, e à boa vida vive acoitado quem vive dos outros. Abomino esta escola que prepara para vénias acríticas, gestos mecanizados e rendimentos alheios.



A técnica e a tecnologia não fazem o mundo. Podem torná-lo mais confortável, só e apenas. A vida não vive de belas estruturas betonadas e pavimentos asfaltados. Renegar o seu lugar, seria negar uma parte de mim. Estudei matérias de engenharias várias, interesso-me por fenómenos físicos e ciências, fascinam-me tensões e equilíbrios de estruturas, desafiam-me teoremas e equações. Mas prefiro a encenação e o deslumbre, a cor, as formas, os aromas, a metáfora, a palavra e o som.



Domino bits e bytes, mas sei que apenas agilizam a vida. Sei que aceleram o mundo, mas não o tornam mais habitável, são um instrumento poderoso, nada mais. Mundo habitável é o mundo habitado por gente que tem mundo por dentro e que respeita o mundo de fora, o da gente e o da natureza. Extasia-me Miró, Ernst ou Klee, não um painel de instrumentos ou uma caixa de velocidades. Não me assustam osciloscópios, mas prefiro gente. Podia escolher engenheiro, escolhi professor. Recusei a gravata e segui o apelo. Perdi uns tostões, sem arrependimento, que quem me inspirou nunca foi algum barão, talvez Rimbaud ou Breton, talvez Cesariny, na palavra, na forma, no vislumbre e na cor, talvez Torga e Gedeão.



A nossa escola, sem ser poesia, finge que prepara andróides anódinos, inofensivos apertadores de parafusos e soldadores de circuitos integrados. A nossa escola não produz seres pensantes, nem proletários qualificados. A nossa escola anestesia.



Supostamente a tendência actual é a qualificação, são as vias profissionais. Mas até isto é um embuste, falácia, marketing e propaganda. Professoras de filosofia ensinam a mudar fraldas. Sociólogos convertem-se em mestres nas práticas hoteleiras. Professores sem horário nas disciplinas para que se prepararam, converteram-se, do nada, em especialistas em novas tecnologias. Será possível, com vontade declarada e formação adequada, mas esta é inexistente.



A formação de professores é outro dado e não cabe aqui senão uma referência incidental. Temo que a formação de ingresso dos futuros docentes, seja coerente com esta sanha de incultura.



O meu modesto mundo pensa que, entre as funções prioritárias e inalienáveis do Estado, está, à cabeça, garantir igualdade de oportunidades, a quem nasce e a quem vive no interior das suas fronteiras. Desengane-se quem acredite que esta preocupação está sempre presente, como deve exigir quem o deseja, quando se pensa a escola, o país e o futuro de todos.



À escola pública vem sendo reservada a função de impedir a promoção cultural e de inviabilizar a ascensão social. Mais do que grave, parece uma barbaridade. Todos os interessados em contrariar esta tendência, pais e professores, precisam unir esforços. Se uns forem comprados com 'migalhães' e certificados a granel e os outros com umas aparas e simplificações, o mundo está perdido, pelo menos o nosso.



A concorrência é incómoda para quem nasce anafado e protegido, há que fingir que a escola de todos é para todos. Fingidores, aprecio poetas e actores. Política educativa não pode ser uma questão de cenário. Enfim, não vejo sentido no sentido que tudo isto leva. Se é obrigatório que a direcção se mantenha, única verdade propalada, que se inverta o sentido. Se esta estrada é única, urge inversão de marcha.



O sentido que levamos é o do abismo, pede uma placa de sentido proibido e, se não for suficiente, que se barre o caminho. Parece que vivemos em democracia. A quem cabe exigir, afinal? A nossa democracia está muito carenciada de polícias de trânsito. A democracia não vive só de votos, sobrevive de consciência.


Teodoro Manuel

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Será que Sócrates quer mesmo uma maioria absoluta?

Faço esta pergunta porque eu, no lugar dele, não queria. Mas José Sócrates é suficientemente ignorante para não se dar conta do enorme sarilho em que está metido: não sabe História, não sabe Filosofia, não sabe Economia, não sabe Sociologia, não sabe Psicologia, não sabe Direito, não sabe Ciência Política, e mesmo de Engenharia não deve saber grande coisa. Tem, provavelmente, umas luzes de marketing político, mas mesmo nisto deve depender mais dos conhecimentos dos seus conselheiros e assessores do que dos seus próprios. A única coisa de que ele deve saber verdadeiramente é táctica política: disto, deve ele saber realmente muito, provavelmente até o suficiente para obter um doutoramento em Ciência Política ao abrigo das Novas Oportunidades.

Qualquer político, ao chegar ao poder, tem que escolher os seus aliados e os seus inimigos. Esta escolha é sempre arriscada porque é sempre feita com base em informação insuficiente; mas é uma escolha a que não é possível fugir. Sócrates escolheu como aliados os barões do sector financeiro, do sector energético e da comunicação social. Foi uma escolha acertada à luz dos conhecimentos de que dispunha. Não podia adivinhar que hoje os barões da banca estivessem demasiado ocupados em salvar a sua própria pele para se preocuparem com a dele, que os da energia estariam suficientemente internacionalizados para já não precisarem dele, e que os da comunicação social estariam a ver onde param as modas para decidirem se hão-de continuar a apoiá-lo ou se hão-de passar a atacá-lo. Resta-lhe uma nova aliança: os barões da construção civil. Se, na próxima legislatura, José Sócrates ainda for Primeiro-Ministro e avançar com o programa de obras públicas que prometeu, poderá contar com a fidelidade canina desta gente; o único óbice é que vai ser um pouco constrangedor ter que se apresentar em público nesta companhia, mas a necessidade manda.

Se lhe podemos perdoar a má escolha de aliados, já é mais difícil perdoar-lhe a má escolha de inimigos, porque, quanto a estes, já dispunha, ou disporia se quisesse, de um pouco mais de informação. O cálculo é fácil de entender: tinha que ter inimigos para ter a quem culpar do que eventualmente corresse mal; o PSD estava de rastos (como ainda hoje está) e não servia para este fim; a história dos comunistas que comem criancinhas ainda funciona, mas muito pior do que funcionava noutros tempos; e o BE era um osso demasiado duro de roer.

Assim, Sócrates escolheu como inimigo principal as classes profissionais, a que chamou "corporações". A escolha fazia algum sentido: apelava à inveja ancestral dos portugueses; possibilitava o discurso dos "privilégios", que é sempre a arma mais eficaz dos convocadores de pogroms; atacava a parte mais organizada da Sociedade Civil, aumentando assim o poder, não só da classe política, mas também, e sobretudo, da oligarquia económica. Para concitar o ódio da populaça sobre as classes profissionais, Sócrates dispunha, não só do discurso dos "privilégios", como do discurso da "resistência à mudança": as classes profissionais tendem, por instinto deontológico, a opor-se à salada de modismos, chavões empresariais e experimentalismos idiotas que Sócrates confunde com a modernidade.

Esta guerra, que parecia ter todas as condições para correr bem, correu-lhe horrendamente mal. Os médicos e os magistrados tinham, afinal, mais força do que ele julgava; e os professores, em vez de se desunirem como ele esperava, uniram-se e, pior que isso, estão a organizar-se de dia para dia. E ainda pior: já vai havendo sinais que não só cada uma destas classes se está a organizar internamente, mas também que se estão a organizar entre si. É natural: não há nenhum professor que não tenha contactos com médicos, nenhum médico que não tenha contactos com magistrados, nem nenhum magistrado que não tenha contactos com professores; e todos estão a tomar rapidamente consciência de que têm um inimigo comum, inimigo esse que é tão implacável como destituído de escrúpulos ou limites éticos.

Estas novas formas de organização da Sociedade Civil foram possibilitadas pelas novas tecnologias: não admira que Fernanda Câncio se insurja contra a blogosfera. Não é que a blogosfera esteja em condições (por enquanto) de concorrer directamente com a Comunicação Social clássica: trata-se antes duma diminuição considerável do poder político dos jornalistas, que decidiam sozinhos quem tinha e quem não tinha voz, enquanto hoje tem voz quem quer. A blogosfera está aí, não só para ficar, como para crescer.

Errar na escolha dos aliados e dos inimigos é o pior erro que um político pode cometer. A factura terá sempre que ser paga, e será pesadíssima. A única esperança de Sócrates (caso tenha consciência do sarilho em que está metido) é conseguir aguentar o tempo suficiente para que não seja ele a pagá-la, mas sim o seu sucessor.

E portanto eu, se estivesse no lugar de Sócrates, estaria neste momento a considerar cuidadosamente três cenários quanto aos resultados das legislativas de 2009: uma derrota face ao PSD, uma vitória com maioria relativa e uma vitória com maioria absoluta.

Uma derrota face ao PSD seria um péssimo resultado (embora não o pior, como veremos). Para começar, seria humilhante: seria como o campeão nacional perder um jogo em casa contra uma equipa da segunda divisão. Em segundo lugar, poderia custar a Sócrates a liderança do partido e obrigá-lo a uma longa travessia do deserto. Felizmente para Sócrates, trata-se de um cenário muito improvável.

A maioria relativa seria o resultado ideal: permitiria a Sócrates sair de cena graciosamente, sem que ninguém o pudesse acusar de ter fugido, com a reputação praticamente intacta, com um currículo apresentável e com uma travessia do deserto bastante curta pela frente. A catástrofe económica, política e social que aí vem abater-se-ia sobre o seu sucessor, e não sobre ele. Poderia até talvez começar a sonhar com a Presidência da República.

A maioria absoluta seria para Sócrates um desastre horrendo: quatro anos de inferno em que as classes profissionais, que nunca lhe vão perdoar, lhe fariam a vida negra; em que esta hostilidade implacável correria o risco de despoletar a insurreição geral das classes médias, da qual já vai havendo sinais um pouco por todo o mundo; o empobrecimento geral dos portugueses (com excepção de uns poucos, com os quais a opinião pública associa Sócrates e continuará a associar, que continuarão a enriquecer); um aumento das desigualdades económicas, já não acompanhado, como até há pouco tempo, dum aumento da tolerância social a estas desigualdades, mas da diminuição dessa tolerância. No fim dos quatro anos, uma reputação ainda mais de rastos que a de George W. Bush; e, inevitavelmente, a morte política.

Dar-se-á José Sócrates conta disto tudo? Possivelmente. Mas o mais provável é que se lhe aplique a citação de Pope: Os tolos entram de rompante onde os anjos mal ousam pisar.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Dispensar da avliação 5000 professores

Palavra que não percebo. Estará a Ministra à espera de ganhar 5000 votos? Não os vai ganhar. E mesmo que ganhasse, o que pensará disto tudo a população? A população vê todos os dias a Ministra a cortar às fatias a avaliação que ela própria inventou, como se fosse um fiambre. Pensará que está a dar com isto um sinal de disposição para o diálogo? Pensará que com isto vai convencer alguém que os intransigentes são os professores? Tudo isto é demasiado pueril. Um erro de casting. A rábula talvez desse resultado se a actriz fizesse o género - mas não faz.

Ou será que depois de "perder os professores para ganhar a população" está agora na disposição de perder a população para ganhar os professores? Se a ideia é esta, vai realmente perder a população; mas ganhar os professores, nem que chovam canivetes.