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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.


..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O Cairo no Wisconsin

SE SABES DEFINIR 'OLIGARQUIA', AGRADECE AOS TEUS PROFESSORES.

(Cartaz nas manifestações no Wisconsin contra as leis anti-sindicais do governador "Hosni" Walker).

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A moção de censura do BE

Dizia uma das minhas colegas de tertúlia, há uma semana, que a moção de censura do BE a tinha feito perder a pouca consideração que ainda tinha pelo Francisco Louçã. Porquê? Porque era irresponsável. Porquê? Porque não tinha qualquer  possibilidade de ser aprovada, e se o fosse entregaria o poder ao PSD e ao PP.

A segunda razão é fácil de rebater: no ponto a que chegou a guerra das oligarquias contra as classes médias, é hoje perfeitamente indiferente para os interesses destas que seja o PS a governar ou qualquer outro partido supostamente à sua direita. O PS é hoje parte do problema, não da solução; e não há qualquer motivo racional para que um cidadão  informado, que não seja corrupto ou  não esteja vinculado à oligarquia ou dependente dela, deseje a sua permanência no poder.

Já a questão da responsabilidade é mais difícil de discutir à volta duma mesa, com várias pessoas a querer falar; mas acredito que a minha amiga a estava a ver ao contrário. Quando apresenta uma moção de censura (ou qualquer outra proposta), a responsabilidade dum deputado perante os eleitores (e recordemos que os deputados não são responsáveis perante mais ninguém) consiste em fundamentá-la devidamente. Do mesmo modo, a responsabilidade dos restantes partidos está em votá-la de acordo com a apreciação que fizerem desses fundamentos - e não por qualquer critério táctico ou de oportunidade.

É dever do bloco de Esquerda, como é dever de qualquer partido, presumir que os outros partidos avaliarão e votarão de boa-fé as suas propostas. Presumir não é a mesma coisa que acreditar, é claro. Mas se um partido tem o direito de acreditar, realisticamente, que a sua proposta será rejeitada, já não tem o dever - nem responsavelmente, o direito - de presumir que assim será. E é esta presunção de má-fé que está a ser exigida ao BE pelos seus adversários e por muitos analistas políticos.

Mas os deputados dos outros partidos têm direito ao benefício da dúvida: até ao momento do voto, presume-se que votarão cada proposta, caso a caso, em função da avaliação que fizerem dos seus fundamentos e em função da medida em que estes se coadunem com os programas dos seus próprios partidos - tais como o eleitorado, perante quem são responsáveis, os sufragou.

Tudo o que acabo de escrever é demasiado formal - dirá amanhã a minha amiga, e dirão hoje alguns dos que me lerem. Mas é nestas formalidades que se estrutura a democracia; e de resto o próprio texto da moção, informal e directo, invalida este argumento. Trata-se de um documento de apenas duas páginas, muito legível, escrito em português e não em politiquês, baseado em premissas que batem certo com a experiência pessoal de muitos cidadãos, e elaborado de forma a coadunar-se, não só com o programa do BE, mas também com os programas de outros partidos - nomeadamente, e decerto propositadamente, com o do PS.

De modo que a responsabilidade está agora do outro lado. O PS, se votar contra, estará a votar contra aspectos fundamentais do seu próprio programa - e isto, sim, será de todo irresponsável: um partido responsável obedece ao mandato que lhe foi conferido e não se furta a prestar contas a quem deve, especialmente se o fizer com o intuito de as prestar a quem não deve.

O PSD e o PP não estarão em melhor situação: ao absterem-se, se se abstiverem, estarão a declarar que não vêem razão para censurar o governo; ou então, a havê-la, estarão a comprometer-se perante o eleitorado a apresentar as suas próprias moções, com fundamentos obrigatoriamente diferentes dos que são apresentados nesta, e expressas em documentos pelo menos tão concisos e tão claros como o que vai ser discutido a 10 de Março. Sempre quero ver o que dali sai.

Politica e eticamente, esta moção de censura não tem nada de irresponsável. Tacticamente, é arriscada; estrategicamente, é brilhante.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A Responsabilidade Segundo Sócrates

O politiquês funciona por modas. De vez em quando enamora-se duma palavra: passa a usá-la a propósito de tudo e de nada até a esvaziar completamente de sentido. Há tempos (lembram-se?) foi o autismo. Todos eram autistas; autistas políticos, é claro sendo que o próprio adjectivo "político" e o advérbio "politicamente" são usados como palavras mágicas que têm o dom de fazer com que um insulto deixe de ser um insulto. Assim: se um deputado disser a outro "V.Exª" cometeu uma fraude" está a candidatar-se a um par de bengaladas; mas se disser "uma fraude política" a bengala desvanece-se no ar. "A vossa intenção é obscena" torna-se uma afirmação inócua se em vez de "obscena" se disser "politicamente obscena".

Mas nem o qualificativo "político" com todos os seus poderes mágicos, salvou o "autismo" de cair em desuso. As pessoas que lidam com autistas verdadeiros, conhecem a gravidade desta doença e sabem do sofrimento que traz foram manifestando a sua indignação e acabaram por conseguir que uma coisa tão séria deixasse de ser trivializada.

Agora é a "responsabilidade" e a "irresponsabilidade". Os políticos que dantes eram "autistas" são agora "irresponsáveis". Isto até faz algum sentido, ainda que perverso; mas adiante.

Vendo José Sócrates apresentar-se nos media como campeão e especial cultor da responsabilidade política, seja lá isso o que for, deu-me a curiosidade  de saber exactamente do que é que ele acusa os seus opositores. Começando pelos dicionários, verifico que o Lello Universal dá "irresponsabilidade" como "estado do que não é responsável": Provar a irresponsabilidade do réu. O mesmo dicionário dá "irresponsável" como "Que não é responsável": Os doidos são irresponsáveis pelos seus actos. Temos então "responsável" e "irresponsável" como sinónimos de "imputável" e "inimputável". Estará então José Sócrates (ou Pedro Passos Coelho, que lhe disputa o título de campeão acima referido) a chamar "doidos" ou "inimputáveis" aos seus adversários? Não pode ser, já que usa estas palavras precisamente quando lhes quer imputar alguma malfeitoria.

Tanto o Lello como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora remetem para "responsável". Vejamos então como definem este termo. O dicionário da Porto Editora dá "responsável" como "que ou a pessoa que age com o conhecimento e a liberdade suficiente para que os seus actos possam ser considerados como seus e deva responder por eles; fiador; consciente; pessoa cujo papel dentro de um grupo a habilita a tomar decisões". Já o Lello é mais lacónico: "responsável" significa "Que deve responder pelos seus actos ou pelos de outrem".

Temos então que ambos os dicionários associam o termo "responsável" ao dever de responder, limitando-se o Lello a esta acepção. Também para o Lello, "responsabilidade" é a "Qualidade do que é responsável. Obrigação de responder ou dar contas pelos seus próprios actos, pelos de outrem, ou por coisa confiada".

Prestar contas? Perante quem? Perante quem tenha o direito de as exigir, evidentemente. Temos então que um político, ao considerar outro político "responsável" ou "irresponsável", se está a arrogar o direito de lhe exigir contas. Mas nem sempre tem este direito: um dirigente partidário pode exigir contas aos deputados do seu próprio partido, mas não aos dos outros partidos. Estes respondem apenas perante o seu eleitorado e, solidariamente com os outros deputados, perante o Soberano, que é o eleitorado em geral. Não respondem perante o governo nem perante o primeiro-ministro: estes é que respondem perante o Parlamento. Temos assim que qualquer deputado tem o direito de se pronunciar sobre a responsabilidade de qualquer membro do governo, mas que o inverso não se verifica: nenhum membro do governo tem o direito de se pronunciar sobre a responsabilidade ou irresponsabilidade de qualquer deputado.

Quem é responsável não é só responsável perante alguém, mas também por alguma coisa. Os deputados que representam o Soberano no Parlamento têm várias responsabilidades: perante quem votou neles, são responsáveis pelo programa que apresentaram a sufrágio. Perante o eleitorado em geral, incluindo a parte dele que votou noutros partidos, são responsáveis, na proporção da parcela de poder que o Soberano lhes conferiu, pela obtenção do melhor compromisso possível entre o bem público tal como está definido no seu programa e o bem público tal como está definido nos programas dos restantes partidos; e daqui decorre que também são responsáveis, perante o próprio Parlamento, pelo benefício da dúvida que devem aos outros partidos. É dever de cada deputado presumir a boa-fé de todos os outros; e esta boa-fé, que se presume existir, exige que cada proposta seja avaliada e votada pelos seus méritos e pelos seus fundamentos, e não por critérios de oportunidade ou conveniência partidária.

Nenhum partido é responsável pelo sentido do voto dos outros nem pelo critério dos outros.

Exigir a um partido político, em nome da "responsabilidade", que antes de apresentar uma proposta presuma, não a boa-fé dos outros partidos, mas o sentido previsível do seu voto, é perverter a própria ideia de responsabilidade política. Irresponsável é um partido que actue por puros critérios de oportunidade. Exigir-lhe isto é exigir-lhe, não só que seja irresponsável perante aqueles a quem deve contas, mas que parta do princípio que os outros partidos são igualmente irresponsáveis.

A Responsabilidade Segundo Sócrates só é responsabilidade na ordem da politiquice; mas não tem nada a ver com responsabilidade política.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A Revolução das Borboletas

Escrevi este texto a convite do Pedro Correia, que o publicou ontem no blogue Delito de Opinião.
Publico-o hoje neste blogue porque entendi incorrecto fazê-lo no dia da primeira publicação. Peço desculpa ao Pedro pelas pequenas modificações, mas não está na minha natureza reler o que escrevi sem fazer emendas. E aproveito para lhe agradecer, não só a publicação do texto, mas as bem escolhidas imagens com que o ilustrou.

Um trabalho sobre a teoria do caos apresentado em 1972 por Edward Lorenz tem por título Predictability: Does the Flap of a Butterfly’s Wings in Brazil set off a Tornado in Texas? Versões posteriores desta metáfora colocam a borboleta, mais especificamente, na Amazónia, e o tornado no Texas passa a ser um tufão na China. Em todo o caso, o que se quer saber é até que ponto uma causa mínima pode resultar num efeito máximo, e se este efeito é sempre previsível. Num sistema dinâmico de extrema complexidade, uma variação mínima nas condições iniciais pode levar a variações extremas nos resultados finais; o bater de asas da borboleta pode mesmo causar o tufão, mas não nos permite prevê-lo. O sistema torna-se caótico, não porque deixe de haver nele correlações de causa e efeito, mas porque estas correlações não são observáveis.

Andamos há milénios – pelo menos desde Platão – a tratar a política e a economia como se fossem sistemas simples, compreensíveis através da determinação rigorosa de causas e efeitos. Nunca o foram; e o facto de nunca o terem sido obrigou a que fossem pensados com base em postulados abstractos, em larga medida arbitrários. Enquanto opção metodológica, esta simplificação é intelectualmente legítima: Adam Smith não pode ser acusado, nem de simplismo, nem de desonestidade intelectual, nem de insensatez. Teve que recorrer a estes postulados porque não dispunha, nem de informação suficiente, nem dos instrumentos matemáticos – entre eles a teoria do caos - de que dispõem hoje os cientistas sociais. O seu lugar no panteão dos grandes pensadores está mais que assegurado.

O equívoco que está na origem do nosso mal-estar começa quando os economistas clássicos do século XIX confundem as opções metodológicas de Adam Smith com dados objectivos da realidade. Mas o equívoco só se torna fraude com os economistas neoclássicos, que, dispondo da informação e dos instrumentos matemáticos de que não dispunham os clássicos, adoptam os postulados destes por razões de ordem política e ideológica.

A economia ortodoxa está hoje no estado de completa desautorização em que estaria a biologia se Trofim Lisenko tivesse triunfado. Se, em vez de ser apoiado apenas pelo regime soviético, tivesse sido apoiado politicamente pelos líderes das outras grandes potências; se os senhores do dinheiro tivessem criado fundações e think-tanks para “confirmar” as suas teorias e “refutar” as contrárias; se os dissidentes fossem saneados das principais universidades americanas e europeias; se as teorias que o contradizem fossem, já não digo ilegalizadas durante 16 anos, como na URSS, mas ridicularizadas durante oito décadas em todo o mundo ocidental; se os media divulgassem incessantemente, em versão simplificada, as suas teorias até elas se transformarem em senso comum – então o lugar da ortodoxia nas ciências biológicas não coincidiria com o lugar da autoridade, mas antes, como nas ciências económicas, com o lugar da fraude.

Se a fraude em economia, e por contágio na política, se fundamenta num conjunto de simplificações abusivas, torna-se improvável que as novas variáveis introduzidas no sistema sejam reconhecidas como tais – até porque as suas primeiras manifestações são pouco mais perceptíveis que o bater de asas duma borboleta. Convoca-se em Madrid, por telemóvel, uma manifestação que inverte de um dia para o outro os resultados previstos dumas eleições? Um mero fait-divers que deixa o mundo igual ao que era antes. Obtêm-se pela Internet donativos que permitem eleger, nos EUA, um presidente negro? Bizarro, de facto, mas esse presidente pode ser enquadrado pelo sistema existente de modo a que nada mude, nem na América, nem no Mundo.

Uma banda faz uma canção; um humorista faz um sketch; um desenhador faz um cartoon. Um antigo hacker descobre e divulga os segredos de governos e empresas. Um jornalista chama rasca a uma geração a que mais tarde se chama a mais bem preparada de sempre. Tudo isto tem consequências, que se diluirão no previsível se forem pequenas, ou abalarão o mundo se forem grandes.

Manifesta-se, em Portugal, uma profissão quase inteira sem que nenhuma estrutura formal a tenha convocado? Ora, Portugal é pobre e mora longe, nada do que lá acontece pode ter consequências – tanto mais que mesmo a nível interno o poder político consegue, como escreveu José Gil, desinscrever do real esta realidade.

A palavra “revolução” começa a ocorrer com alguma frequência no discurso corrente e na opinião publicada, como antes de 2008 só ocorria na blogosfera? Ora, não passa duma palavra, e palavras leva-as o vento.

O mesmo vento que leva as borboletas.

Também o crash de 2008 é desinscrito do real e tudo volta – quem o poderia acreditar? – ao que era antes. Com uma pequena diferença: o capital financeiro, os políticos que o servem e os economistas que o defendem conseguiram, a custo, manter o poder; mas tiveram para isso que sacrificar a pouca autoridade que lhes restava.

Nas convulsões sociais que estão a eclodir na Europa do Sul, o que bate as asas já não é uma borboleta: é algo de maior, e não é uma pomba. Maiores ainda são as asas que batem na Argélia, na Tunísia, no Egipto. O tufão revolucionário é uma probabilidade cada vez menos remota; se começar a soprar, varrerá todo o planeta; e até talvez comece a soprar, por ironia, na China.

O que a geração outrora rasca está a descobrir – aqui, no Egipto, na Irlanda, na Austrália, no Japão - é que as armas pequenas podem ser mais eficazes que as grandes, e as organizações efémeras mais efectivas que as permanentes. Nada nos garante que um dia destes um adolescente, sentado a um computador na Nova Zelândia ou na Escócia, no Cairo ou em Bogotá, não desactive só por desfastio todos os sistemas informáticos dum porta-aviões, transformando-o por algumas horas num monte enorme de sucata flutuante.

Batamos então as asas. Mesmo sabendo que o mais provável é que esta acção não tenha consequências óbvias. Mesmo sabendo que, se as tiver, poderão não consistir num tornado no Texas nem um tufão na China, mas numa tempestade de areia no Mali.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Do meu desencanto

Saio do parque de estacionamento da Praça dos Poveiros. Viro à esquerda para subir a Rua D. João IV. Sigo pela Rua da Alegria e pela Rua de Costa Cabral. Em frente do Hospital do Conde Ferreira viro à direita, para as Antas, para apanhar a VCI. 

Na parte citadina no percurso não escolho a faixa da direita, mas aquela em que me palpita que encontrarei menos automóveis parados. Raramente acerto. Um dia lembrei-me de contar as vezes em que tive que sair da faixa de rodagem: quando cheguei às vinte desisti.

Tento lembrar-me se na Suíça, onde conduzia diariamente entre a minha casa e as cinco escolas em que trabalhava, alguma vez tive que fazer um ziguezague para me desviar de um automóvel parado. Não me recordo de nenhuma.

Desespero. Zero vezes em seis anos, vinte vezes em dez minutos. Esta distância parece-me demasiado grande para que o meu País alguma vez a transponha. Comparo as escolas suíças - sólidas, limpas, confortáveis, bem construídas - com os edifícios colados a cuspo construídos à pressa e sem concurso pela empresa Parque Escolar. Penso no dinheiro dos meus impostos que vai parar aos bolsos de empresários amigos de políticos. Penso no défice. Penso na dívida que vamos deixar às gerações futuras, obrigando-as a pagar estruturas que nunca irão utilizar porque entretanto terão deixado de funcionar. Penso no património que as gerações passadas nos deixaram e que nós destruímos.

Não é a dívida, estúpido. É o saldo.

Penso nas medidas de austeridade e nos seus objectivos. Passivo zero (talvez), e activo zero (de certeza). Grande herança, sim senhor. Os nossos filhos vão ter boas razões para se sentirem gratos: a nós, ao engº Sócrates, ao dr. Passos Coelho, à sra. Merkel, ao sr. Strauss-Kahn, ao dr. Milton Friedman, aos economistas mediáticos. Linda herança: zero ou menos que zero.

Não são as finanças, estúpido. É a economia.

Penso nos professores. Souberam reconhecer que estavam debaixo de ataque por razões de economicismo. Ou de financeirismo, para não alinhar em confusões que não são inocentes. Mas não viram que o ataque não é só contra eles, nem só por razões financeiras. Não viram que se insere numa contra-reforma anti-republicana - contra a res publica - em curso há trinta anos em todo o mundo desenvolvido. Não viram que o poder político só combate os grupos de interesse - as corporações - para mais facilmente se render a um só deles.

Não são os privilégios, estúpido: é a oligarquia.

Os professores sabem que estão a ser desautorizados, mas não compreendem a diferença entre autoridade profissional e poder político. Permitem que os governos se arroguem o direito de validar ou invalidar sistemas de pensamento, e não vêem que esta usurpação define o totalitarismo e constitui o seu centro.

As outras profissões letradas também capitulam. Até os economistas mediáticos - mas estes, ao menos, são pagos para prostituir a sua autoridade. Nós deixamos que usurpem a nossa e ainda por cima pagamos.

Isolámo-nos, ou deixámos que nos isolassem. Deixámo-nos encurralar. Desperdiçámos as vantagens estratégicas que uma política de alianças determinada - e aliados naturais não nos faltam - nos teria proporcionado. Defendemo-nos quando era ocasião de atacar.

E agora? Talvez os automobilistas deixem de parar na faixa de rodagem. Talvez. Talvez os professores passem ao ataque - se não o fizerem, outros o farão. Talvez estejamos ainda a tempo de lutar - por nós próprios e pelo bem público, cuja defesa também nos compete.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

As minhas pinturas

Lápis de cor e pastel seco sobre papel castanho. Uma das razões por que tenho andado ausente. A outra é um certo desânimo, uma certa anomia.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Mensagem à Ministra da Justiça da Suécia

To:
The Ministry of Justice, Sweden


Dear Beatrice, we all know what is really going on, so I will keep it short. If Julian Assange is extradited to the USA from your country, I will never again in my life buy a product from Swedish companies or set foot in Sweden in a business or tourism capacity, and I will ask my friends and relatives to do the same.

Best regards,

(assinatura)




Este e-mail está a ser enviado de todo o mundo para a Ministra da Justiça da Suécia  (beatrice.ask@justice.ministry.se). Traduzo o texto:

Cara Beatrice, todos sabemos o que se está realmente a passar, por isso vou ser breve. Se Julian Assange for extraditado da Suécia para os EUA, nunca mais comprarei qualquer produto duma empresa sueca nem porei os pés na Suécia em turismo nem em trabalho, e pedirei a todos os meus familiares e amigos que façam o mesmo.

Os meus cumprimentos,

(assinatura)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Como José Sócrates enganou a OCDE, ou: afinal este Sócrates também é grego

Ver um burlão burlado não é coisa que cause piedade ou terror. A OCDE pode fazer as avaliações que quiser pelos critérios que entender; o que não pode é fazer passar por técnicos critérios que são políticos - por mais rotineira que esta burla se tenha tornado em todos os debates, a começar pelo económico. Escrevi sobre isto na mensagem anterior: é tempo de passar adiante.

José Sócrates usou de vários truques para falsear os resultados do do relatório PISA. Sobre alguns deles, já não preciso de escrever: Octávio V. Gonçalves desmontou-os no seu blogue melhor do que eu o faria. Mas quero fazer referência a mais um: varrer o lixo para debaixo do tapete. Conseguiu isto criando um ghetto - os CEF - onde escondeu os piores alunos,  de modo a que no ensino geral os "piores" de 2009 correspondessem aos médios de 2006. Brilhante, não é?

Só não sei se a OCDE se deixou enganar voluntária ou involuntariamente. Nem isto interessa muito: como comecei por escrever, o espectáculo do burlão burlado não impressiona ninguém.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Eu também sou negativista e maledicente

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (económico, note-se, e não educativo, como disse, talvez por lapso freudiano, uma jornalista da RTP) publicou um relatório sobre os resultados que os europeus de quinze anos obtiveram numa bateria de testes padronizada. De acordo com este relatório, os jovens portugueses atingiram finalmente a média dos países integrantes da organização. José Sócrates embandeirou em arco: vejam os resultados das nossas políticas educativas! Os nossos jovens sabem agora muito mais!

Perdoem-me a falta de entusiasmo, mas do relatório não é possível concluir, nem que as políticas educativas deste governo levaram a estes resultados, nem que os jovens sabem mais.

Passemos por cima do óbvio, que é o factor tempo: é extremamente improvável que uma política iniciada em 2005 tivesse efeitos tão dramáticos já em 2009 (ano a que se refere o relatório); e é absolutamente impossível que políticas seguidas em 2010 tivessem efeitos retroactivos a esse ano, como alegou hoje José Sócrates no Parlamento. Passemos antes à questão, muito mais importante, da idoneidade do relatório e da isenção de quem o produziu.

A OCDE é uma organização politico-económica. Tem uma agenda politico-económica que se baseia em pressupostos ideológicos bem definidos que não podem deixar de ser tidos em conta. A ideia de que as suas conclusões são puramente técnicas, e portanto indiscutíveis, é uma fraude - uma fraude já nossa velha conhecida, de resto, pelo papel central que tem desempenhado no debate económico. O que a OCDE avalia é, na educação como em muitas outras áreas, a conformidade das opções políticas dos governos com as suas próprias opções políticas.

Subordinar a educação à economia não é uma opção técnica: é política. Subordiná-la a uma concepção particular da economia, favorável a um pequeno grupo social e desfavorável à maioria dos cidadãos, é política de classe.

É por opção política que se desvaloriza o ensino das Humanidades - da História, da Filosofia, das Artes, da cultura clássica - a favor dum utilitarismo imediatista e cego. É por opção política que se desvaloriza o texto literário a favor de formas de expressão mais úteis no curtíssimo prazo mas completamente estéreis quando o prazo é a duração duma vida.

A perspectiva adequada para avaliar a idoneidade do relatório PISA não é técnica, mas sim política; mas, mesmo do ponto de vista técnico, é já perceptível uma que os professores de todo o mundo conhecem bem e tentam evitar: a de trabalhar para o exame em vez de trabalhar para a matéria. Em vez de se ensinar Inglês, Química, Biologia ou História, ensinam-se os alunos a fazer exames de Inglês, Química, Biologia e História. Qualquer professor digno deste nome sabe que isto é um erro, mas José Sócrates não sabe.

E desta ignorância nasce a intenção que anunciou hoje durante o debate parlamentar: reforçar o ensino da matemática, da leitura e das ciências. Ou seja, pôr toda a gente a trabalhar para o PISA.
Este trabalho levará, sem dúvida, a que os conclusões de futuros relatórios sejam ainda mais brilhantes; mas não impedirá que este brilho continue a ser de pechisbeque.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Wikileaks

If they think Wikileaks is bad, I can tell you there's a lot worse coming..

(Adaptação duma frase de Dave Evans dos U2, proferida em Agosto do ano 2000 em referência ao Napster).

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

D. Sebastião


Emerge devagar do nevoeiro

e é já cadáver cinzas ou ainda

ele próprio névoa.

Perdeu o elmo e não possui

tigela de barbeiro que o figure

nem Sancho nem lança que lhe lavrem

a loucura, e a cubram e fecundem

e a façam dar fruto.



.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Tive pena de Medina Carreira

Nunca vejo o "Prós e Contras". Não é que tenha alguma coisa contra este programa; é por pura distracção. Antes do "Prós e Contras" há um concurso; quando este começa desligo o televisor e depois não me lembro de o ligar outra vez.

Assim se explica que escreva com tanto atraso sobre a mais recente intervenção de Medina Carreira no programa, do qual só muito mais tarde vi, na Web, a primeira parte. Não me deu pena, antes me fez sorrir, ouvi-lo dizer que o keynesianismo é uma teoria particularista, de conjuntura, porque esta é precisamente a tese simétrica daquela que Keynes enunciou e demonstrou sobre a economia clássica. Deu-me pena, isso sim, vê-lo puxar duas vezes dos seus galões de democrata e de estudioso, porque isto é o mais baixo a que um intelectual pode descer. É o último recurso dos acossados e dos que vivem num mundo que já não é o deles. 

Uma destas vezes foi quando lhe foi apontado o carácter anti-democrático das políticas económicas que defende. Em vez de considerar objectivamente esta acusação - explicando, por exemplo, o que pode haver de democrático em tirar o poder de decisão ao eleitorado português, supostamente soberano, para o entregar a entidades, nacionais ou estrangeiras, que não respondem perante ele - preferiu tirar da gaveta os galões anti-fascistas que estavam lá a ganhar verdete há trinta e seis anos.

A outra, mais grave, foi quando puxou dos galões académicos em abono da sua convicção de que o Estado Social é insustentável. Isto faz pena porque puxar dos galões é em si mesmo patético; e faz mais pena ainda porque custa muito ver alguém desperdiçar anos de honesto estudo para chegar a uma conclusão que vale zero. Não duvido de que os cálculos de Medina Carreira fossem rigorosíssimos, como são por vezes os dos astrólogos, mas já começa a ser óbvio que a conclusão é treta; e os eleitorados europeus estão a dar-se conta disto, como mostraram os manifestantes irlandeses contra a austeridade com o slogan "We are the people, we have the vote".

No caso dos astrólogos, as conclusões são treta porque partem de premissas erradas; no caso de Medina Carreira e dos economistas que estudaram pela mesma cartilha, porque partem das perguntas erradas.

Medina Carreira quis saber se é possível manter por muito tempo o Estado Social. Fartou-se de estudar e concluiu que não. E de facto não é, se assumirmos que todas as outras variáveis, incluindo as ideológicas e as políticas, se manterão constantes. Destas variáveis, a que pesa mais, por larguíssima margem, é a presença no sistema económico português duma das oligarquias mais predadoras e mais corruptas da Europa (e das mais incompetentes, porque depender de salários baixos é o cúmulo da incompetência). Uma oligarquia que se habituou, já desde o século dezanove, não só a não produzir riqueza, como a travar a sua produção; a socializar os custos e os riscos privatizando os proveitos; a viver mais de rendas que de lucros; a enriquecer obscenamente com os impostos dos portugueses; a receber do Estado toda a espécie de monopólios, concedendo-lhe em troca um precioso monopólio sobre a ascensão social.

A pergunta certa não é se é ou não possível sustentar o Estado Social. A pergunta certa, ou a principal das perguntas certas, é se é possível sustentar ao mesmo tempo o Estado Social e esta oligarquia. Se Medina Carreira a tivesse estudado em paralelo com o Estado Social, teria talvez concluído por esta impossibilidade; e esta conclusão teria mérito porque não excluiria do cálculo a variável decisiva.

O mundo mudou em 2008. A oligarquia já vinha de muito antes, mas muitos de nós passávamos por ela sem a ver, como os habitantes de Sevilha pela estátua do Comendador. Mas agora o Comendador de Pedra está presente no debate político-económico como no banquete de Don Giovanni. É impossível que os economistas do regime não o vejam. Só é possível, e à custa de muito esforço, que finjam não o ver.

No caso de Medina Carreira, este fingimento é patético; no caso de outros, menos honestos, é simplesmente criminoso.