
Blogue sobre livros, discos, revistas e tudo o mais de que me apeteça escrever...
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The aim of life is appreciation; there is no sense in not appreciating things; and there is no sense in having more of them if you have less appreciation of them.
..........................................................................................................Gilbert Keith Chesterton
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segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Austeridade à europeia

sábado, 16 de outubro de 2010
"As nossas ideias andam em todas as cabeças..."
Não chegaram ainda às cabeças dos nossos economistas mediáticos nem dos nossos responsáveis políticos e económicos.
Nem vão chegar, porque vão contra o que aparenta ser o seu projecto de reconstruir a Europa segundo o modelo chinês.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Austeridade: senso comum ou falta de senso?
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Instaurou-se a República. Agora falta construí-la.
Quando assisto, ano após ano, às comemorações da instauração da República, vai-se instalando em mim uma desoladora sensação de futilidade; e consolidando a ideia de que tão republicano é o regime desde 5 de Outubro de 1910 como o era até essa data.Uma república é mais, muito mais, do que a ausência da formalidade monárquica. É mais, muito mais, do que uma mudança de método na escolha do Chefe de Estado. Uma república - uma res publica - é a organização duma sociedade civil que culmina no Estado mas não se reduz ao Estado. Uma república nem sequer exige necessariamente a abolição formal da Monarquia: exigiria, sim, a abolição efectiva das inúmeras micro-monarquias absolutas que são hoje, como há cem anos, o principal traço definidor do regime político português.
Mais do que um Estado forte ou do que um governo consequente - coisas que nunca tivemos, ou só tivemos em ditadura - uma república supõe e exige instituições fortes e prestigiadas: os tribunais, a universidade, as escolas, os partidos políticos, as associações cívicas, os sindicatos, as associações profissionais, as academias, os movimentos artísticos e culturais, os centros de investigação científica, as famílias - e também as empresas, mas não só. Embora sujeitas à lei, todas estas entidades necessitam, em república, de autoridade e autonomia que lhes permitam ter uma palavra a dizer na definição do bem comum. Esta definição não pode ser monopólio do Estado - e muito menos do governo, como preconizou Vital Moreira a propósito da luta dos professores. E, para que não se degradem elas próprias em corporações "monárquicas", têm que obedecer a estatutos determinados pelo método mais democrático que a sua natureza permita.
Tudo isto pressupõe um factor básico, que é a confiança dos cidadãos uns nos outros, nas instituições e no Estado. Não me refiro aqui a uma confiança absoluta, ingénua ou infantil, mas àquilo a que se poderia chamar, talvez com mais propriedade, o benefício da dúvida. Este factor - a confiança - torna-se tanto mais crucial quanto mais complexa se vai tornando a sociedade e quanto mais específicos se vão tornando os saberes. Um astrofísico de reputação mundial está, perante o seu médico, na posição de um leigo. Pode avaliar a sua reputação, mas não pode avaliar o seu saber. Confia no médico por duas razões: porque presume que ele sabe o que faz, e porque presume que age no interesse de quem o consulta. Este médico, por sua vez, se se envolver num litígio, tem que depositar a mesma confiança no seu advogado - e este no mecânico que lhe repara o automóvel, e este no informático que lhe configura o computador, e este no empregado bancário que lhe recomenda o produto financeiro mais vantajoso para investir ou as condições mais vantajosas para o crédito de que necessita.
E isto, sempre, com base em informação insuficiente.
A república - a res publica - não é um dado inscrito na natureza das coisas. A república é um artefacto, longo e difícil de construir, fácil e rápido de destruir. O que é um dado natural é a monarquia - isto é, o domínio de um ser humano sobre outros seres humanos. Ao contrário da república, esta monarquia arquetípica é fácil de construir - tão fácil que se constrói a si mesma onde quer que onde quer que haja alguém que, sendo mais forte ou mais esperto do que os outros à sua volta, não se defronte com uma oposição organizada.
Já mencionei neste blogue o livro de David Marquand em que se narra a construção planeada da república no Reino Unido, ao longo do século XIX e parte do século XX, conseguida sem que tivesse sido necessário abolir formalmente a Monarquia, e o seu subsequente desmantelamento, igualmente planeado, empreendido por Margaret Thatcher e continuado pelos teóricos e pelos actores políticos do chamado "New Labour".
Os pilares fundamentais da construção da república no Reino Unido foram estes: a constituição duma burocracia eficiente, largamente independente em relação às mudanças de governo, zelosa, portadora duma cultura própria que a vinculava a uma ética e a uma deontologia, e dotada duma sólida e profunda cultura humanística que lhe permitia distinguir entre a lealdade que devia à república e a lealdade que devia ao governo; o alargamento da franquia eleitoral, que passou de 15% dos homens adultos a 100% dos homens e das mulheres; o reforço da autonomia e das finanças das universidades; a autorização das classes profissionais, a que foi permitida a formação de associações auto-reguladoras por intermédio das quais pudessem participar, na base dos seus conhecimentos especializados, na formulação das políticas públicas; o abrandamento, e eventual abolição, das leis anti-sindicais.
O mais admirável deste êxito está em ter sido conseguido contra a oposição dos sectores mais conservadores da sociedade (ou dos conservadores mais primários, porque do lado da república não havia só progressistas, mas também conservadores mais sofisticados que os seus pares); e nomeadamente contra a oposição estrénua dos economistas clássicos, que viam "colectivismo" no mais ínfimo laivo de justiça social.
A contra-reforma anti-republicana assentou na demonização dos sindicatos, dos funcionários públicos e das classes profissionais; na desvalorização do conhecimento como um fim em si mesmo, nomeadamente nas suas vertentes humanísticas, e na sua redefinição como um meio ao serviço da economia; na criação de falsas autonomias que consistem em puxar para o centro o poder de decisão ao mesmo tempo que se relegam para a periferia as responsabilidades respectivas (ou seja: quem decide não assina e quem assina não decidiu); na formulação central de "objectivos" cada vez mais minuciosos, mais ideológicos e mais desligados do interesse público concreto; na imposição de formas de "avaliação" cada vez mais delirantes e complexas e cada vez mais centradas na consecução destes objectivos.
Esta contra-reforma anti-republicana fez-se e faz-se sentir também em Portugal, e de forma tanto mais virulenta quanto mais incipiente e mais débil é a república que se pretende desmantelar. Hoje, se consulto o gestor da minha conta bancária, nunca sei se o produto que ele me recomenda é realmente o que me é mais favorável ou se é o que ele precisa de vender para atingir os objectivos de que depende a sua avaliação. Quando compareço diante dum guichet numa repartição pública, não sei se o funcionário que me atende ainda conserva algum resquício de vontade de resolver os casos que lhe aparecem ou se já se está completamente queimado e desmoralizado pelas sucessivas sacanices a que tem sido sujeito por parte de quem tinha o dever de ser a sua retaguarda de apoio.
Quando ouço na televisão um economista mediático, posso presumir, como posso quando consulto o meu médico, que ele sabe do que está a falar; mas não posso dar-lhe o mesmo benefício da dúvida no que respeita os seus objectivos. Ao contrário do que acontece com o médico, nunca sei se o interesse que o economista prossegue é o meu ou se é outro alheio ao meu, e talvez oposto a ele.
Esta quebra de confiança alarga-se a cada vez mais sectores da vida em sociedade. É ela o cancro que corrói a república. Se isto é resultado, como no Reino Unido, duma vontade consciente, ou se é resultado apenas do provincianismo e ignorância dos nossos decisores políticos, não sei.
Mas sei que me indigna cada vez mais ver no palanque, a comemorar com discursos comoventes a implantação da República, precisamente aqueles que mais têm contribuído para a desmantelar.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
The Coming Insurrection

Acabo de encomendar este livro. Glenn Beck, da Fox News, disse dele: "This is quite possibly the most evil thing I've ever read." Que recomendação poderia ser melhor do que esta?
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Manifestação em Bruxelas contra a austeridade
Comentários dos leitores de "Le Point"
ala08110
"Que" cent mille...
jeudi 30 septembre | 12:01
Ils n'étaient que cent mille européens, pacifiquement, à dire qu'ils n'étaient pas dupes. J'y étais et en suis fier. La mondialisation est programmée, planifiée depuis plus de 50 ans. Avec l'accord béat de la plupart de nos gouvernements. La "crise" parfaitement prévisible et d'ailleurs précédée par combien de "crisettes" qui n'ont alerté personne. La diminution constante des masses salariales et l'augmentation des dividendes n'a rien d'automatique et d'incontrôlable. En ce qui me concerne, et pourtant formé à l'économie, je refuse cette facilité, ce faux prétexte, et regrette le manque de discernement et d'ingéniosité de nos représentants et gouvernants. Pourquoi n'étions - nous que cent mille ?
Delapierre
Aux barricades !
jeudi 30 septembre | 07:39
Isoler Bruxelles pour les obliger de rendre des comptes a une assemblée de personnes choisies de chaque nation ou pays, dans les comptables du milieu ouvrier ! Ces euro - profiteurs sont en train de nous écharper vif avec leurs soi - disant faillites tout en étant payées comme des rois, pour siéger quelques jours en ajustant des nouvelles mesures pour mieux nous étrangler !
L.G.
Seule une révolution. . .
mercredi 29 septembre | 23:58
Ce que ces crapules appellent la crise n'est qu'une escroquerie, une escroquerie montée de toutes pièces dans laquelle les riches se sont enrichis et que les peuples vont réparer, les peuples vont payer. Pour éviter cela des manifestations passives ou des grèves ne sont pas suffisantes seule une révolution le pourra.
lenormalien
MANIF
mercredi 29 septembre | 15:35
s'ils n'avaient pas été aussi laxistes depuis trente ans, on en serait pas là.
bernardpierremarie
Et les traders...
mercredi 29 septembre | 15:11Bravo, ça commence à bouger. Mais il n'y a pas que Bruxelles à mettre en cause. Qui a précipité la crise ? Les Banques bien entendu et les traders qui, pour améliorer leurs bonus étaient prêts à n'importe quoi. Ont - ils changé ? Non ! Impose-t-on aux Banques une ligne rouge à ne pas franchir ? Non. Tant que des pays comme les USA, le Canada, voire la Chine s'opposeront à de telles mesures nous ne sommes pas prêts de sortir du marasme. Et lorsque tous les exclus, les sans emplois et les pauvres perdront leur calme, on ne sera pas loin de se retrouver à l'aube du chaos. Si les Autorités financières préfèrent une nouvelle montée du nazisme ou du communisme, libre à elles, mais de celà, je doute que l'humanité le souhaite. C'est pourtant ce qui nous attend si nous ne commençons pas à bouger.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Felizmente há a França
Mas os franceses, honra lhes seja feita, são gente bem menos submissa que os alemães, e menos cegos à nudez do rei quando este calha de ir nu. E assim, quando um jornalista televisivo confrontou um manifestante anónimo com aquela argumentação, recebeu como resposta que a produtividade francesa era hoje o dobro do que há vinte anos, pelo que não havia nada de irrealista nas suas reivindicações.
Ora acontece que nos nos vinte anos anteriores a produtividade cresceu ainda mais - como não podia deixar de crescer dados os enormes e espantosos avanços tecnológicos a que temos assistido. Ou seja: entre 1970 e 2010, a produtividade mais que quadruplicou. Ou seja, para quem não está a ver o alcance deste facto: cada hora de trabalho humano vale hoje por quatro horas em 1970.
Este número poderá mudar se considerarmos factores de ponderação como o factor demográfico, num sentido, ou no sentido oposto a entrada para o grupo dos países desenvolvidos de outros que não faziam parte dele há 40 anos. Um facto subsiste: o Mundo está hoje muito mais rico do que estava há 40 anos. Se o ócio é um luxo e custa caro, somos suficientemente ricos para o pagar; e parece que em todo mundo ninguém entende isto a não ser os franceses.
Se abstraíssemos do politicamente possível e considerássemos apenas o objectivamente possível, podíamos ter hoje horários de trabalho de dez horas semanais; ou salários quatro vezes mais altos; ou reformas aos 45 anos; ou um qualquer compromisso que combinasse estes bens segundo a vontade de cada um e a vontade democraticamente expressa dos povos. Uma jornalista portuguesa de direita ironizava, não há muitas semanas, com aqueles "atrasados" que ainda sonham com a Suécia dos anos 70. Cometeu aqui um erro de diagnóstico: não sonhamos, exigimos; e não queremos a Suécia dos anos 70: queremos muito mais e muito melhor.
Se isto parece utópico, tal não se deve a qualquer impossibilidade objectiva, mas sim a uma impossibilidade política. Nem os mercados, nem nenhuma lei natural alguma vez determinaram a distribuição da riqueza ou do ócio. Hoje, como há dez mil anos, o melhor bocado cabe sempre ao mais forte. E se hoje a maioria dos seres humanos não recebe o dividendo que lhe cabe do progresso económico e tecnológico das últimas décadas, isto deve-se a um facto e a um facto só: há poder a mais nas mãos erradas e poder a menos nas certas.
Utopia? Não há nada de utópico em "exigir o impossível" quando o impossível só o é politicamente. Se queremos falar de utopia, falemos do discurso da inevitabilidade inaugurado por Reagan e Thatcher e repetido hoje, até à saturação, pelos economistas mediáticos, pelos medinacarreiras, pelos tonibleres e pelos "socialistas" da Terceira Via - todo ele um jogo perverso de utopias que visa convencer-nos que o impossível é possível e o possível impossível.
domingo, 12 de setembro de 2010
sábado, 11 de setembro de 2010
Erros Judiciários e Negligência Estatística
O pior é que também tenho dúvidas sobre a culpa de Leonor Cipriano, dúvidas estas que se mantêm mesmo depois de a condenação dela ter transitado em julgado. Ao manifestar esta dúvida já não me estou a manter no âmbito do Direito, mas a extravasar para o terreno muito mais escorregadio da Justiça.
Todos sabemos que o Direito e a Justiça não coincidem completamente; e sabemos, além disso, que é extremamente improvável que alguma venham a coincidir em qualquer parte do mundo. Mas esta consciência da realidade não nos dispensa, a nós cidadãos, nem aos legisladores, nem aos juízes, de procurar alargar o mais possível a zona de intersecção entre os dois terrenos. A perversidade da justiça portuguesa está antes de mais nada na fuga sistemática a este dever.
Quod non est in acta non est in mundo. Isto é o mesmo que dizer que o juiz só pode decidir com base no que está no processo. Para que um qualquer sistema de justiça funcione, este princípio é, infelizmente, indispensável. Digo "infelizmente" porque basta reflectir um pouco para ver que podem resultar dele muitas injustiças; digo indispensável porque da sua ausência resultariam muitas mais, e piores.
O que não se deve é fazer dele uma leitura perversa, da qual resulta que a justiça e a verdade substancial não contam para nada, e que para que tudo esteja bem resolvido basta que bata certo no papel. A acta não é o mundo, mas o que se inclui ou exclui dela tem consequências no mundo. A decisão de incluir umas coisas no processo e excluir outras é o campo onde se joga a intersecção do Direito com a Justiça. E se esta intersecção for demasiado restrita; se os operadores judiciais caírem na deformação profissional de ver no Direito um fim em si mesmo e não um instrumento ao serviço da Justiça; se chegam mesmo a ver na Justiça um empecilho e um incómodo para o funcionamento suave e decoroso da (apropriadamente chamada) máquina judicial - uma espécie de mosquito zumbidor que distrai os digníssimos magistrados da tranquila e douta redacção dos seus acórdãos e sentenças - então bem podemos perguntar para que raio serve o Direito.
A ideia de que o Direito se esgota em si mesmo leva directamente à ideia de que o erro judiciário é impossível. Se não há mundo para além da acta, e se o que está na acta bate certo, então não se pode falar de erro. Leonor Cipriano talvez esteja inocente no mundo real, mas isso que interessa se é indubitavelmente culpada no papel? A sentença transitou em julgado, não transitou? Então porque carga de água é que andam para aí alguns maluquinhos a manifestar dúvidas sobre um processo que já está terminado e a ganhar poeira nos arquivos?
Talvez porque as grades da cadeia em que ela está não são feitas propriamente de papel. Mas isto não é facto que possa entrar na cabeça dos nossos magistrados. Não está na acta, portanto não está no mundo.
É propositadamente que escrevo aqui sobre a Leonor Cipriano em vez de continuar a escrever sobre os condenados no processo Casa Pia. Este está ainda demasiado presente para que o possa tratar com a frieza que entendo necessária.
Um inocente punido é um horror sem nome, e no entanto o que mais me horroriza não é a possibilidade (mera possibilidade, entenda-se) de esta ou aquela pessoa ser condenada injustamente. Mais horrível que esta possibilidade é a certeza, baseada na lei das probabilidades, de que neste preciso momento há inocentes a cumprir pena. Quantos e quais, não sabemos.
E é nesta ignorância que reside o horror maior. No nosso país não há estudos exaustivos nem estatísticas fiáveis. Se quisermos comparar números com os dos EUA, por exemplo, não poderemos fazê-lo. Há números para os EUA, desdobrados estado a estado, idade a idade, etnia a etnia, tipo de crime a tipo de crime. Mas não os há para o nosso país.
Que saibamos, a situação em Portugal tanto pode ser melhor, como igual, como pior do que a situação em qualquer outro país, incluindo o Afeganistão ou a Somália No limite e em tese, é claro. É mesmo possível, também no limite e também em tese, que em Portugal todos os condenados estejam inocentes.
Ou melhor, possível não é, pelas mesmas razões probabilística por que não é possível que sejam todos culpados. Mas só por estas. E estas não bastam.
sábado, 28 de agosto de 2010
Poder público e poder privado
É estranho que no mundo de hoje o debate político se desvie do seu tema natural, que é a distribuição do poder, para se centrar quase exclusivamente na distribuição da riqueza. Não quero com isto dizer que a economia não seja relevante, ou mesmo determinante, no debate público, nem que seja possível discutir o poder sem discutir a riqueza; mas certamente também não é possível discutir a riqueza ou a sua distribuição sem discutir o poder e a sua titularidade.O terceiro é o domínio público da política propriamente dita, que pode intersectar o sector público da economia mas, mais uma vez, não coincide inteiramente nem necessariamente com ele. O domínio público, para Marquand, "é o domínio da cidadania, da equidade e do serviço público. [A sua integridade] é indispensável à governação democrática e ao bem estar social. Tem a sua própria cultura e os seus próprios métodos de decisão. Nele, a cidadania prevalece tanto sobre o poder do mercado como sobre os laços de clã ou de família. [ ... ] Só pode tomar forma numa sociedade em que a noção de interesse público, distinto dos interesses privados, se tenha enraizado."
Mas se a reforma republicana diferiu tanto nos dois países, desde logo porque num se concluiu e no outro não, já a contra-reforma anti-republicana obedece ao mesmo padrão, que é o que está a ser aplicado um pouco por todo o mundo desenvolvido. Assim se explica a sensação de familiaridade que experimentamos ao ler em Marquand os métodos e as estratégias desta contra-reforma.
Toda esta estratégia conduz à transformação dos regimes republicanos em "monarquias de primeiro-ministro" ao serviço de oligarquias financeiras. Daqui decorre a ideia que Marquand denuncia perto do final do livro, confiante em que qualquer leitor inglês a verá como monstruosa: a de que compete exclusivamente ao governo definir o que é o bem público. E lembro-me, ao ler isto, das palavras de Vital Moreira, já com um pé na escada do avião que havia de o levar a Estrasburgo, a propósito do conflito entre os professores e o governo: "Só ao governo compete definir o bem público."
Poucos portugueses terão visto nesta frase a enormidade que é. Que melhor razão do que esta haveria para suspeitar que Portugal nunca foi, no sentido pleno do termo, uma república?
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Utopia e realidade
'Eles'? Quem são 'eles'? Os políticos? Os homens de negócios? Os fura-vidas em geral? Os espertos? Ou todos aqueles que julgam ter, mais que todos os outros, o sentido da realidade quando é precisamente na falta deste sentido que reside a sua particular deficiência? Há quarenta e dois anos gritou-se na rua que ser realista é exigir o impossível; hoje poder-se-ia gritar, com igual razão, que ser realista é recusar o inevitável. E isto porque qualquer pessoa que tenha cérebro, olhos, ouvidos e experiência já teve ampla e repetida ocasião de verificar que o impossível e o inevitável são sempre, na boca do poder, mentira.
É isto que 'eles' não sabem. Se alguém lhes fala na possibilidade duma alternativa, quer ao que está, quer à mudança que têm por resolvida e inevitável, respondem: 'Isso é uma utopia.'
Esta afirmação é, no dizer duma pessoa que prezo muito, a frase mais castradora que se pode imaginar: corta imediatamente o debate e nega terminantemente a possibilidade de qualquer opinião ou acção política. A isto acrescento eu que é a mais obtusa: não reconhece que o interlocutor está geralmente a explorar possibilidades e não, (contrariamente, muitas vezes, ao autor da frase) a tentar impor um design ao mundo. E é um insulto à inteligência do interlocutor, porque o pressupõe incapaz de distinguir entre realidade e fantasia.
A utopia, tal como o mito, existe e tem efeitos. Mais: tanto um como a outra existem sempre e têm sempre efeitos; é pelo mito e pela utopia, não pela argumentação racional, que as sociedades, os regimes políticos e as instituições humanas se explicam e legitimam. O mito e a utopia não retratam realidades, mas transformam a realidade em algo de suportável para o ser humano. Por isso nenhuma tentativa de explicação do homem e do mundo seria mais fantasiosa do que uma que não visse nas utopias objectos reais produtores de efeitos reais.
Se avaliássemos o êxito duma utopia pela sua realização integral, em toda a pureza dos seus princípios, verificaríamos que até hoje nenhuma utopia teve êxito, nem é plausível que alguma o venha a ter. Quem espera duma utopia este tipo de êxito é fundamentalista ou fanático. Mas isto é uma conclusão trivial, como sabem todos aqueles que, não sendo fundamentalistas ou fanáticos, cultivam a utopia como um modo nobre de estar no mundo.
O êxito duma utopia avalia-se, sim, pela sua influência sobre a realidade. Na medida em que essa influência pode ser maior ou menor, uma utopia pode ter mais ou menos êxito. Mas o êxito mais completo a que uma utopia pode realisticamente aspirar consiste em tornar-se parte do senso comum, isto é: em tornar-se invisível.
Uma destas utopias invisíveis, no período histórico que atravessamos, é a utopia teocrática. O que pode haver de mais sensato e mais sedutor, para quem julga conhecer a vontade de Deus, do que a ideia duma sociedade em que todas as leis e todas as instituições estejam ao serviço dessa vontade? É claro que quando falo em invisibilidade estou a ter em conta apenas aqueles que partilham esta crença. Para os outros, o carácter utópico do projecto teocrático é perfeitamente visível e as objecções que suscita perfeitamente óbvias. No entanto, há milhões de pessoas, tanto no mundo islâmico como em certas comunidades cristãs, para quem um regime teocrático é a solução natural e evidente para todos os males da Humanidade. A antiguidade da utopia teocrática, conjugada com a sua pujança actual, permitem pensar que ela nunca deixará de existir e de actuar sobre o mundo; e isto sugere, por sua vez, que a ideia dum Estado perfeitamente laico é também ela, apesar de indispensável num mundo decente, utópica.
Ou consideremos a utopia ambientalista. Tem influenciado políticas concretas, e ainda bem. Entrou, ou está a entrar, no senso comum; mais uma vez, ainda bem. Mas nunca existirá, como nunca existiu, uma realidade em que o ser humano tenha um impacto zero sobre o seu meio-ambiente. É uma das minhas utopias, mas não é a minha utopia no sentido de determinar todas as minhas ideias sobre todas as esferas da vida.
Para quem vê as coisas a partir do mundo desenvolvido, as duas utopias invisíveis mais importantes - no sentido em que são as que mais nos condicionam a vida - são provavelmente a utopia dos mercados livre e a utopia meritocrática. E isto é tanto mais espantoso quando é certo que as duas, sendo defendidas grosso modo pelas mesmas pessoas e pelos mesmos grupos de interesse, são reciprocamente incompatíveis.
Um estudo recente especula sobre quanto ganharia, numa sociedade meritocrática, uma educadora de infância. O primeiro problema com que o autor se defrontou foi o de saber em que consiste o mérito. Na impossibilidade de quantificar factores como a felicidade pessoal ou a qualidade das relações sociais, tomou o autor a opção metodológica de considerar apenas o mérito económico, medido em dólares. Procurou saber se havia alguma diferença entre o rendimento médio dum grupo aleatório de adultos que tiveram educação pré-escolar e o rendimento médio de um grupo que a não teve. Concluiu que essa diferença existia e era quantificável.
Mas este é apenas um dado bruto, que não significa nada se não forem descontados outros factores que podem contribuir para a diferença de rendimentos. Limitou então o inquérito sobre a educação pré escolar a grupos definidos por terem ou não cursos superiores. A diferença manteve-se: as pessoas que têm cursos superiores ganham mais do que as que não têm, mas em cada um dos grupos ganham mais as que tiveram educação pré-escolar. Depois, foi só fazer o mesmo em relação a homens e mulheres, populações rurais e urbanas, crentes e não-crentes, negros e brancos, latinos e asiáticos, etc. Verificou que, havendo ou não diferenças de rendimentos médios entre estes grupos, havia sempre, no interior deles, uma diferença relacionada com o factor em estudo.
Estava em condições, a partir de agora, de ver uma relação de causa e efeito naquilo que no início do estudo era uma mera correlação. A parte difícil do trabalho estava feita. Restava agora o mais fácil: multiplicar a diferença encontrada pelo número de americanos adultos que tiveram educação pré-escolar e dividir o resultado pelo número de educadoras infantis em actividade. O número final a que chegou foi 360.000 dólares por ano, que é o que uma educadora ganharia se recebesse tanto quanto dá a ganhar às crianças que educa.
Extrapolando da América para a Europa, e de dólares para euros, isto daria ordenados da ordem dos 25.000,00 € mensais. Ou cinco mil contos, para quem ainda se orienta melhor pela moeda antiga.
Claro que o objectivo do estudo nunca foi reivindicar salários desta ordem para as educadoras infantis americanas. O objectivo foi mostrar o que já toda a gente sabia empiricamente: que os EUA não são uma meritocracia. E creio que não irei longe demais na minha extrapolação se presumir que na Europa, e especificamente em Portugal, o mérito também não é o factor predominante na determinação dos rendimentos.
Mas neste caso qual é o factor determinante? As leis dos mercados, dirão muitos. A relação entre a oferta e a procura. O problema com esta explicação é que não há país nenhum em que o mercado de trabalho seja um mercado inteiramente livre. As relações de poder, dirão outros. O que não bate certo é que se imponha à sociedade, com argumentos de mercado, o delírio avaliativo que a utopia meritocrática parece trazer a seu reboque - delírio este que resulta directamente, segundo argumenta Marquand num livro de que tratarei em breve, do declínio da res publica face à intrusão dos mercados e à formalização do Estado.
A cada um segundo a capacidade negocial que lhe dá a lei da oferta e da procura, diz a utopia dos mercados. A cada um segundo o seu mérito, diz a utopia meritocrática. De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades, diz, na velha frase de Marx, a utopia socialista. Moralmente, pode ser que nenhuma destas formulações seja superior a qualquer das outras. Em termos de senso comum, as duas primeiras ocupam o terreno enquanto a terceira foi, até ver, expulsa dele. Mas em termos de exequibilidade, a terceira parece-me a mais plausível.
domingo, 22 de agosto de 2010
Quatro meses de ausência
Sobre as razões principais deste bloqueio, eu próprio tenho especulado sem grande êxito. Primeiro pareceu-me que tinha alguma coisa a ver com um certo desencanto, um certo sentimento de inutilidade; mas, para quem acredita, como eu, que na blogosfera as ideias, por se propagarem como vírus, não precisam de grandes audiências iniciais para atingirem grandes audiências finais; para quem, como eu, nunca se preocupou em atingir o maior número possível de leitores mas sim em tornar certas formulações o mais contagiosas possível - a questão da utilidade imediata não se põe com especial premência.
O afastamento da escola teve alguma influência no meu silêncio, sem dúvida: não é possível discorrer sempre no abstracto quando se vai perdendo a ligação ao concreto. A política nacional interessa-me cada vez menos, tanto pela sua irrelevância em relação às nossas vidas concretas como pela mediocridade aflitiva dos seus actores principais. A política internacional interessa-me mais do que nunca, até porque é a esse nível que as nossas circunstâncias individuais se decidem. Mas neste ponto tenho cada vez menos certezas e cada vez mais perplexidades. Porque é que a crise de 2008 causou um abalo tão pequeno na ortodoxia económica vigente? Não sei. Porque é que anda no ar uma expectativa de mudança - mudança esta que não tem nada a ver com a mudança para mais do mesmo que os tonibleres deste mundo nos continuam a prometer? E a propósito: Será Barack Obama mais um nessa longa sucessão de tonibleres, ou será - finalmente! - o artigo genuíno? E porque é que esta impressão que alguma coisa de muito grande está para acontecer é muito mais intensa e nítida nos EUA - garantem-me os meus amigos que lá estudam ou trabalham ou que vão lá frequentemente - do que na Europa, ou pelo menos em Portugal? E esta mudança, a acontecer, será razoavelmente pacífica, ou implicará um cataclismo global - que poderá não ser uma guerra mundial, mas não lhe ficará atrás em mortes, em violência e em sofrimento humano? A violência, por vezes mansa, dos modelos políticos concebidos para manter o triunfo artificial da economia clássica (que nos anos 20 do século passado já estava morta e, aparentemente, enterrada) esteve entre os factores que levaram à primeira e à segunda guerras mundiais; a que catástrofe, ou a que apoteose, levará a crescente deslegitimação dos sistemas políticos organizados para manter em movimento esse zombie que dá pelo nome de economia neoclássica?
Mas mais recentemente tenho-me dado conta de que não foi só o meu desencanto, nem o meu afastamento em relação à escola e à política nacional, nem sequer o meu estado de perplexidade e ignorância em relação à actualidade do mundo, que me levaram a ficar afastado tanto tempo. Foi também o balanço, em parte inconsciente, que estive a fazer sobre o que escrevi até agora neste blogue e sobre a orientação a dar-lhe no futuro. Porei de lado, ainda mais do que até aqui, os rigores e os protocolos próprios da produção académica: se fosse para me ater a eles, matriculava-me num programa de mestrado ou doutoramento em vez de manter um blogue; e os meus leitores, que para me lerem estão ligados à Internet, têm acesso fácil ao Google.
Uma descoberta interessante que fiz durante estes meses foi a de que havia muitas pessoas próximas de mim que frequentavam este blogue, algumas das quais não se coibiram de me verberar pela ausência.
Pois aqui estou de novo. Se não tiver outro assunto, há sempre os livros; e lá ler, tenho lido.
Um dos meus próximos posts será sobre um dos últimos: Decline of the Public, de David Marquand (do qual alguns capítulos são de especial interesse para quem pertence àquilo a que se chama em inglês the professional classes). Ou então uma reflexão inspirada numa frase que ouvi a uma rapariga da geração do meu filho: «Não há afirmação mais castradora do que 'isso é uma utopia'.»